Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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A quinta dimensão
16-04-2014 Manuel Alegre, JL

Comemorar Abril agora tem que ser um novo ato de libertação cultural e política. Essa será a sua quinta dimensão: a capacidade de renascer da sua própria liberdade.

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Não sei o que escrever sobre o 25 de Abril. Tudo está dito e está sempre tudo por dizer. Para mim começou quando o vizinho, um oficial do exército argelino, foi bater-me à porta, às sete da manhã. Havia um telefonema para mim (nós não tínhamos telefone). Era o Aquino de Bragança: "Lisboa está tomada". E eu a responder: "Isso foi o Afonso Henriques". Mas ele insistiu: "Os tanques estão na rua, desta vez é a sério". Fui avisar a Mafalda, que já estava a tratar do Francisco, nosso filho, então com oito meses. Havia em nós um misto de entusiasmo e de dúvida. Quem tinha mandado os tanques para a rua? Golpe de direita? Ou outra coisa?

Corremos para a sede da Frente Patriótica, onde já estava o Piteira Santos. Falou-se para Paris, tentou-se Lisboa, mas só muito mais tarde se conseguiria. A rádio argelina dava notícias, mas não acrescentava grande coisa. Idem com a rádio francesa. Passámos a manhã ao telefone e junto à rádio. Ao princípio da tarde, fomos convidados pela agência France Press, de onde acompanhámos os acontecimentos. Notícias de povo ao lado dos revoltosos. Bom sinal. Quase ao fim da tarde, sintonizei a Emissora Nacional. Transmitia canções do Zeca Afonso e do Adriano, algumas com letra minha. Kaúlza de Arriaga não era com certeza. E vimos, então, pela televisão, as primeiras imagens: os tanques no Largo do Carmo, o povo a apoiar, cravos nas espingardas. A detenção de Marcelo Caetano, a queda do regime, a primeira conferência de imprensa da Junta de Salvação Nacional, presidida por Spínola, o nome de quem se falava e, de certo modo, por quem se esperava. Não sabíamos ainda quem era Otelo, nem Salgueiro Maia. Começámos a intuir que aquele golpe militar se poderia transformar em revolução, a Revolução que tínhamos sonhado, pela qual tantos resistentes tinham lutado e que estava a ser feita por militares, gente sem rosto e sem nome, à exceção de Spínola, que parecia ser o chefe, mas, afinal, talvez não fosse. Decidimos regressar. Foi uma semana de alegria e agitação, momentos irrepetíveis. Pela primeira vez, em muitos anos, conseguimos falar ao telefone com as famílias. Toda a gente chorava. Até o Piteira Santos.

Fomos recebidos pelo Presidente (da República da Argélia) Boumédiène. Partimos dia 30. A minha mãe telefonara a pedir para entrar em contacto com o Galvão de Melo, com quem eu conspirara em Angola. Ele afirmou, de modo misterioso e ambíguo, que era melhor não entrarmos no dia 1 de Maio, dado que podia haver confrontos em Lisboa e a nossa presença não seria bem vista por alguns membros da Junta de Salvação Nacional. Nunca logrei esclarecer se Galvão de Melo falou por si próprio ou por outros. Seja como for, nós não queríamos ser um fator de perturbação. A Stella (mulher de Piteira Santos), a Mafalda e o Francisco (com o seu passaporte argelino) partiram de comboio, de Madrid para Lisboa. Havia gente à espera no aeroporto, mas o Piteira e eu ficámos em Madrid. Perdemos o 1º de Maio e isso é irremediável.

Voltámos no dia 2. Havia muitos amigos à espera, políticos, poetas, gente anónima, as famílias que há muito não abraçávamos. O Lopes Cardoso e o Varela Gomes conduziram-nos à Junta de Salvação Nacional e então, por acaso, ou talvez não, encontrei-me à porta com o meu amigo Ernesto Melo Antunes, que estava a regressar dos Açores e sempre tinha previsto que o regime seria derrubado por militares. Eu trazia uma carta do moçambicano Jacinto Veloso para Otelo. Entreguei-lha em casa de amigos. Nessa altura, o nome dele ainda não era muito conhecido. Não se sabia quem ele era, ele próprio ainda não sabia que já tinha entrado na História.

Desses primeiros dias recordo a festa, uma espécie de plenitude, um estado de graça. E também uma irresistível subversão que mudava os hábitos, a linguagem, os comportamentos. Todos eram revolucionários, todos tinham feito a sua opção de classe. Lembrei-me do que tinha dito Garrett, depois da vitória da Revolução Liberal: os revolucionários que a tinham dirigido pareciam conservadores, os que pouco ou nada tinham feito arvoravam-se em mais liberais do que os liberais. Algo de parecido estava a acontecer. Talvez nunca fosse possível regressar de um tão longo exílio. Será que, afinal, somos reacionários? perguntou Piteira Santos perante essa tão grande e súbita erupção de revolucionários.

O certo é que estávamos de novo em casa, na Pátria libertada, a viver um momento único, como se a História tivesse acelerado e irrompesse dentro de cada um de nós, para mudar a vida e abrir um horizonte onde tudo parecia ser possível. Isso foi o essencial dos primeiros dias da Revolução de Abril, cuja primeira dimensão é a liberdade.

Uma revolução vitoriosa

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Numa revolução, há sempre projetos ideológicos e políticos diversos e contraditórios. Na nossa, foi assim. Houve várias ideias de revolução na nossa revolução. E também de contrarrevolução. Houve tensões, conflitos, momentos dramáticos. Tudo isso faz parte da riqueza do 25 de Abril.

Quarenta anos depois, importa sublinhar que a revolução que se se comemora é a do programa do MFA, os célebres três DDD (pela primeira vez enunciados na comunicação enviada pelo Medeiros Ferreira ao Congresso Republicano de Aveiro): Descolonizar, Democratizar, Desenvolver. Nessa perspetiva, o 25 de Abril foi uma revolução vitoriosa. Revolução original: os militares derrubaram a ditadura e não guardaram o poder para si, restituíram-no ao povo, através de eleições livres e democráticas. É um caso único na História, de que devemos ter orgulho. Revolução pioneira e precursora: pela primeira vez numa situação revolucionária, a democracia venceu. O 25 de Abril mostrou ao mundo que era possível passar da ditadura para a democracia sem cair numa nova ditadura. E assim, abriu caminho à transição democrática na Grécia, na Espanha, no Brasil e noutros países da América Latina. Como disse na altura Salgado Zenha: "O 25 de Abril foi o primeiro de um conjunto de factos que iniciou no mundo uma nova era". É esse também o significado universal da revolução portuguesa.

A quinta dimensão

Mas o 25 de Abril tem outras dimensões. Em primeiro lugar, a dimensão social: nem liberdade sem igualdade, nem igualdade sem liberdade. O que fez com que na Constituição os direitos sociais fossem consagrados como sendo inseparáveis dos direitos políticos. Em segundo lugar, a descentralização, através da consolidação das autonomias regionais, dos Açores e da Madeira, e do poder autárquico democrático, consagrando o grande sonho de Antero, segundo o qual é no poder local que as reformas podem ser mais profundas e eficazes. Finalmente: a paz. O 25 de abril fez-se contra a guerra, trouxe a paz a Portugal e reintegrou o nosso país nas instâncias internacionais. Pelo 25 de abril, Portugal, não sendo uma potência económica e militar, ganhou prestígio político e moral, como país de paz e liberdade, com um papel de ponte entre a Europa, a África, a América Latina e a Ásia.

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Mas em cada revolução há sempre uma parte inacabada, "Abril já feito e ainda por fazer", perdoe-se a citação. 40 anos depois é dolorosa a sensação de que se pretende ajustar contas com o 25 de Abril, se não mesmo com o próprio país. Não há crise, nem convicções ideológicas que justifiquem a insensibilidade e frieza com que o governo tem vindo a pôr em causa o princípio da igualdade e o conteúdo social da nossa democracia, colocando a subordinação aos credores acima do país e dos portugueses. O poder financeiro que domina a Europa e o mundo quer 'libertar' a economia da intervenção e regulação do Estado. Quer o poder do mercado acima do poder do Estado. E quer desfazer o Estado Social. O 25 de Abril não se enquadra nesta nova forma de totalitarismo, que é o poder absoluto dos mercados, perante o qual este governo não só capitulou como foi mais longe do que os funcionários da troika definiram. Pensamento único, linguagem única. Comemorar Abril agora tem que ser um novo ato de libertação cultural e política. Essa será a quinta dimensão do 25 de Abril: a capacidade de renascer da sua própria liberdade.