Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Manuel Alegre recebeu a equipa do DN em sua casa, de Lisboa. O escritório está forrado de livros, acumulados ao longo de décadas
Manuel Alegre recebeu a equipa do DN em sua casa, de Lisboa. O escritório está forrado de livros, acumulados ao longo de décadas
Manuel Alegre ao DN:
“As pessoas quase que exigem milagres a Costa. Mas às vezes os políticos têm de fazer milagres”
01-11-2014 DN
Entevista conduzida por João Pedro Heniques, foto de Leonardo Negrão

Sem meias palavras, Manuel Alegre recorda ao vencedor das primárias que “tem um grande peso sobre os ombros”: fazer o “milagre” de “restituir aos portugueses a alegria de viver”. O histórico socialista não lhe pede um programa detalhado, antes “três ou quatro ideias-força”. Soares é o exemplo: nunca “acertou num número” mas sabia o que queria.

As primárias vieram para ficar?
Acho que vieram para ficar mas não é obrigatório. Há uma reflexão que tem de se fazer: primárias para candidato a primeiro-ministro ou primárias para candidato a líder do partido. Acho que há ideias fixas sobre isso. Mas isto foi algo de novo na vida democrática.

O que é que lhe indicaram os números da participação (170 mil votantes num universo de 250 mil eleitores)?
Eu não via uma coisa assim há muitos, muitos anos. Fui votar a Coimbra, onde estava uma fila onde as pessoas estiveram três ou quatro horas à espera. E votaram com alegria e com determinação. Parecia uma outra Assembleia Constituinte. E porquê? Por uma vontade de mudança: mudar o partido para mudar o governo.

O que explica no seu entender uma diferença tão grande no resultado final entre António José Seguro e António Costa?
Havia muita gente que estava à espera. A partir de certa altura também (eu) estava à espera. Por essa vontade de mudança. O António Costa encarnou a partir de certo momento essa vontade de mudança. Era aquele que podia protagonizar uma mudança e a vitória do PS nas eleições. E isso foi decisivo.

A grande participação nas primárias desmente aquela tese de que as pessoas genericamente estão alheadas da política?
Há muito tempo que digo que há muita gente que quer participar e não tem como nem onde. Há muita gente que não se reconhece nos partidos tal como eles estão – o que não quer dizer que não sejam cidadãos que não queiram participar. O que é preciso é dar-lhes condições para participar. Quando se abriu esta porta, as pessoas participaram. Há um divórcio crescente – aqui como em todo o lado – entre os cidadãos, os partidos, a política e as instituições, mas quando há liderança e projectos e causas, quando as pessoas acreditam, as pessoas participam. Mas têm de acreditar.

Durante algum tempo acreditou-se que Manuel Alegre e outras personalidades se manteriam neutrais neste conflito. António José Seguro fez alguma coisa para que deixasse de ser assim?
Não queria estar a fulanizar esta conversa. Sou amigo da família do António José Seguro, reconheço todo o esforço que ele faz, procurei ajudá-lo o mais possível, mas a partir de certa altura era para mim evidente que havia ali um problema. Não se tinha criado na opinião pública a ideia de que ele seria capaz de construir uma alternativa. E o momento decisivo foi o discurso na noite das eleições europeias. Ele (António José Seguro) deveria ter dito que p PS ganhou mas que aquela vitória não era a vitória que ele queria nem a vitória de que necessitava. Deveria ter sido um discurso humilde, um discurso de reflexão. Fez um discurso para dentro.

Não me lembro de um governo que tenha feito tanto mal ao país como este

Parece-lhe que a reunificação do partido está em marcha, vê sinais disso?
O que me parece essencial é criar condições para mudar de governo. Estou muito preocupado e muito revoltado. Conheço razoavelmente a história de Portugal. Não me lembro de nenhum governo que tenha feito tanto mal ao país como este fez. Isto é uma comissão liquidatária, anti-social e antinacional. Digo isto com perfeita consciência do que estou a dizer. Já quase nada é nosso. E fizeram isto por fundamentalismo ideológico e por subserviência política. Comportaram-se em relação a quem manda na Europa como antigamente os estalinistas se comportavam em relação a Estaline e à União Soviética.

Mas já percebeu no António Costa propostas alternativas concretas, substância no programa dele ou isso ainda está para se ver?
As grandes mudanças fazem-se à volta de três ou quatro ideias. O 25 de Abril fez-se à volta de três dês (democratizar, descolonizar, desenvolver). O PS, com a liderança de Mário Soares, o que fez? Democracia pluralista e pluripartidária, Estado social, abertura ao mundo e à Europa. Estas foram as ideias. Alguma vez o Mário Soares acertou num número?
Quem é que lê os programas políticos? Não estou a dizer que os programas não são importantes…

Permitem o escrutínio…
Tem de haver programas políticos. Mas mais importantes do que os programas muito detalhados são as grandes ideias-força. É isso que o António Costa tem agora de tornar claro e tem de fazer. A expectativa é muito alta, ele encarnou uma grande esperança e uma grande vontade de mudança, há um peso grande sobre os seus ombros. As pessoas quase que lhe exigem milagres. Mas às vezes os políticos têm de fazer milagres. Qual é o primeiro milagre? É reconstituir a confiança dos portugueses, restituir-lhes a própria alegria de viver e de estarem aqui. E, depois, ter posições sobre algumas coisas que são essenciais: a renegociação da dívida, libertar o país dos constrangimentos do Tratado Orçamental, um pacto para defender o Estado social, o crescimento e a economia, uma outra atitude perante a Europa – porque nós não entrámos na Europa para estar de joelhos.

Essa grande expectativa também é a sua, pessoal?
Já cá ando há muitos anos. E há muitos anos também escrevi um poema, em “O Canto e as Armas”, que dizia que D. Sebastião ficou enterrado em Alcácer- Quibir (1). Agora, o país, na situação em que está, precisa de uma liderança forte, que restabeleça a confiança das pessoas no próprio país. O que temos neste momento é um terço das crianças em estado de pobreza, muitas não podem ir à escola; temos os velhos abandonados; os jovens instigados a deixar o país; as jóias da coroa da nossa economia a serem vendidas ao desbarato. Nada nos resta. O que é que tem de fazer um líder? É restabelecer a confiança. Com três ou quatro ideias-força. Por exemplo: o PS tem de dizer não à privatização da TAP. Com a Europa de acordo ou sem a Europa de acordo. O que é que vão fazer se não privatizarmos a TAP? Puxarem-nos as orelhas? E na PT: o PS não tem de ter complexos de ter usado a golden share. Utilizou e fez muito bem. O Estado tem de intervir e não fazer de conta que não há um problema na PT. Tem de haver uma liderança clara. Acho, espero, que o António Costa será capaz de o fazer. Não é que ele não seja uma pessoa realista, moderada, com bem senso. Mas o país precisa de uma radicalidade política, radicalidade democrática e radicalidade nacional. O país precisa de uma atitude radical em relação à Europa. Não é de ser contra a Europa. Temos de contribuir para mudar a Europa. Suponhamos por exemplo que Portugal diz: “A TAP não vai ser privatizada”. O que é que a Europa faz?

Mas vamos à questão da dívida. Limita as políticas orçamentais, o próprio Estado social. Ainda não ouvimos nenhuma ideia de António Costa sobre o assunto.
Acho que o António Costa tem de procurar alianças onde elas são possíveis, com os países do Sul. E independentemente de quem estiver no governo nesses países. É preciso estabelecer uma nova relação de forças na Europa. É preciso fazer uma luta política para bater o pé à Europa. Nós não pedimos licença a ninguém para fazer o 25 de Abril. Nem à Europa nem à NATO. E isso mudou Portugal, mudou a Europa, mudou África, mudou uma data de coisas. Se houver aqui um governo forte, com grande apoio político, social e popular, que em duas ou três coisas diga à Europa “isto assim não pode ser”, que não ponha os credores acima do Estado e que diga que nós não queremos os bancos acima dos povos, isso terá consequências. Vão castigar-nos? Vão expulsar-nos? Vão pôr-nos com orelhas de burro encostados à parede? Não vão, não vão! Fomos Europa antes de a Europa o ser!

Fala na necessidade de um governo forte. António Costa não tem excluído nada. Nem alianças à esquerda nem à direita – nada. Já Manuel Alegre não gosta nada da ideia de bloco central...
Isso era fatídico. Mas o António Costa disso algo de novo: disse que o PS não pode ficar prisioneira do arco da governação. É uma armadilha que tende a fazer do PS o terceiro partido da direita. O arco da governação são as forças que estão representadas na Assembleia da República. O PS tem de lutar por maioria absoluta e tem de conversar com estes partidos emergentes, com os movimentos de cidadãos e tem de fazer como ele fez em Lisboa, o PS Mais. Mesmo que tenha maioria absoluta, tem de alargar. Não é só para ter maioria na Assembleia, é para reforçar essa força, que é necessária para as mudanças que é preciso fazer. Isto tem de começar em algum lado. Se houver um país que bata o pé, a Espanha acabará por o fazer, a Itália também, a França também.

Se houver um entendimento com o PSD, Manuel Alegre cá estará para dizer que não gosta disso.
É cedo para falar nisso...

Se calhar não é cedo, se calhar está mesmo na altura. Não receia ficar isolado nessa matéria? É que até o Dr. Mário Soares já disse que não se importava de ver o PS falar com aqueles sectores do PSD mais próximos da matriz original do partido.
Se esses sectores existem, então que saiam da clandestinidade. Este PSD faz tão mal ao país! 700 milhões de euros cortados na Educação. É um ataque brutal à igualdade. Eles fizeram uma opção de classe muito clara. Com este PSD não há entendimento possível. Os eleitores. Mesmo muitos que votaram PSD, querem isto varrido.

Mas merecerá oposição sua um entendimento permanente do PS com o PSD, mesmo que seja outro PSD?
O que acho fundamental é que o PS tenha a maioria absoluta. Que o PS dialogue com o Livre e com movimentos de cidadãos. Mas há questões como o SNS, a escola pública, o sistema de pensões, que precisam de diálogo entre todas as forças políticas e sociais. Com este PSD tal como está não há diálogo nenhum – e quem o fizer comete um crime de lesa-democracia e de lesa-PS. Se houver modificações e pessoas dialogantes, acho que é útil para o país, para que haja soluções, para que o SNS funcione, para que não haja mais cortes na educação.

Está cada vez mais difícil o PS falar com o BE e com o PCP - que aliás estão a colocar-se numa posição de abandono do euro, o que torna difícil qualquer diálogo.
O António Costa já disse que a direita se une facilmente e que a esquerda se desune facilmente. Trata-se de saber: o que quer o Bloco? O que quer o PCP? Querem apenas subsistir como partidos? Fazerem do PS o inimigo principal para terem mais uns votos?

O PS tem de dialogar com o PCP, mesmo que o PCP não queira

É isso que está a acontecer?
Não quero fazer processos de intenção. Eu podia perceber que o PCP tivesse uma estratégia revolucionária, aproveitar esta crise para fazer uma revolução, por via democrática ou outra. Podia perceber isso. Agora, não me parece que por via eleitoral o PCP tenha hipótese de chegar ao poder. Mas o PS tem de dialogar com o PCP mesmo que o PCP não queira...

…e com o Bloco também…
… e com o Bloco também. Mas isso supõe um combate ideológico. Este diálogo implica que se façam perguntas ao PCP. O que é que vocês querem? Não querem defender o SNS? Não querem a escola pública? Não querem crescimento económico? Preferem a direita no poder? Se é isso, digam, digam claramente.

Mas nunca vão dizer…
Nós podemos forçá-los, podemos demonstrar que há uma grande ambiguidade na posição deles. Os partidos têm de ter alguma racionalidade. Eu percebo um partido que queira tomar o poder por via democrática ou por via revolucionária. Mas quando nem por via democrática nem por via revolucionária e querem apenas estar ali, e ser contrapoder a estarem sempre a demarcarem-se do PS – sendo certo que isso favorece o poder da direita em Portugal –, bom, isso um dia terá de ter consequências, nos seus próprios eleitores. A questão fundamental é que o PS seja capaz de levantar o país e de dizer “Basta!” e “Portugal, levanta-te!”. É isso que eu espero que o António Costa seja capaz de fazer. Se ele for capaz de fazer isso, eles (o PCP e o BE) vão ficar a falar sozinhos.

Como é que vê o fenómeno Marinho e Pinto?
Não me assusto nada com o Marinho e Pinto, deixá-lo lá ir, eu conheço-o, não é um antidemocrata. Se ele vai ter votos ou não, não sei. Se as coisas correrem bem ao PS, isto vai bipolarizar.

Há falta de cabelos brancos na política?
Há muitos jovens velhinhos. E uma coisa é a juventude, outra a garotada. Acho que os cabelos brancos são precisos – veja-se a Itália com o Napolitano.

Se o PS começar a ter no governo viragens à direita, Manuel Alegre estará cá para dizer o que pensa?
Sou do PS, mas antes disso sou português e sou socialista. O socialimos tem de voltar às origens, não pode permitir que oi poder do mercado se sobreponha ao do Estado. É preciso mais do que nunca ser socialista.

(1)Trata-se do poema “Abaixo el-rei Sebastião”, incluído no livro “O Canto e as Armas”, de 1967, que começa e acaba com o verso “É preciso enterrar el-rei Sebastião”.