Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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"...eram milhares de pessoas, enchiam o Largo, o Parque, a própria ponte, milhares e milhares até onde a vista alcançava."
"...eram milhares de pessoas, enchiam o Largo, o Parque, a própria ponte, milhares e milhares até onde a vista alcançava."
Manuel Alegre recorda Delgado em Coimbra
31 de maio de 1958
29-12-2014 Manuel Alegre, DN, edição especial 150 anos

Desafiado para escolher um dia dos últimos 150 anos para a edição especial comemorativa do aniversário do Diário de Notícias, Manuel Alegre recorda o dia 31 de maio de 1958, tinha ele 22 anos, em Coimbra. O dia fundador em que Humberto Delgado chegou a Coimbra na campanha presidencial de 1958. "Naquele dia em Coimbra, que era uma cidade parada nos séculos, posta em conformado sossego, o tempo deu uma volta sobre si mesmo."

31 de Maio de 1958

Apetecia-me escolher o dia, ninguém sabe ao certo qual, em que Luís de Camões, algures, também não se sabe onde, começou a escrever “as suas Lusíadas”, como lhe chamaria mais tarde Diogo do Couto. Seja como for esse dia fundador foi há muito mais de cento e cinquenta anos. Podia escolher outro dia de certo modo fundador, aquele em que Álvaro de Campos, talvez à mesa do Café Martinho, depois da bica e da aguardente, escreveu Tabacaria, um poema que, em muita gente provocaria uma revolução espiritual e criaria uma outra visão do Mundo e da poesia. Ou aquele dia em que, no meu quarto, em Coimbra, Herberto Helder me leu os contos de Passos em volta. Foi outra revolução, um ritmo orgânico, uma escrita fundadora.

Mas escolho um dia, aparentemente sem literatura, embora, ainda que de outra maneira, também ele fundador: o dia em que Humberto Delgado chegou a Coimbra na campanha presidencial de 1958.É certo que já antes o General tinha dito a frase que mudou tudo, inclusivamente a oposição: “obviamente demito-o”. E que as pessoas paravam nas ruas das vilas e cidades para ouvirem as breves alocuções que fez na rádio. Mas naquele dia em Coimbra, que era uma cidade parada nos séculos, posta em conformado sossego, o tempo deu uma volta sobre si mesmo.

Eu tinha vestido a capa e batina e, um tanto desconfiado, fui juntar-me a alguns amigos também eles trajados a rigor. Descemos a pé para a Baixa, um tanto temerosos e perguntando-nos o que iria acontecer.

- Se calhar somos só nós – disse o Germano Ferreira da Costa, talvez para exorcizar o seu pessimismo.

- Ainda vamos todos dentro – disse outro, já não me lembro quem.

Não era o medo de sermos presos, mas o temor de que a Academia e a cidade não viessem para a rua tal como estava a acontecer onde quer que o General passasse. O receio de, como de costume, sermos só nós, os mesmos de sempre.

Descendo a Sá da Bandeira, vimos que da Alta vinham grupos de capa e batina. Ao chegarmos em frente à Igreja de Santa Cruz já eram muitos, vindos de todos os lados. O Largo de Sansão estava cheio. Pela Visconde da Luz e Ferreira Borges já quase não se conseguia andar. Até que desembarcamos no Largo da Portagem. E não conseguimos conter as lágrimas: eram milhares de pessoas, enchiam o Largo, o Parque, a própria ponte, milhares e milhares até onde a vista alcançava. Não só de Coimbra, mas povo que chegava das freguesias rurais, do litoral e do interior, gente que vinha de todo o distrito, quase liberta e quase libertadora. Posso jurar que nunca houve tanta gente em Coimbra, nunca mais haverá, porque nunca mais será possível outro dia assim, nem mesmo o 25 de Abril, se é que o 25 de Abril não começou nesse e nos outros dias em que o General, de braços levantados, andava pelo país a levantar as almas.

E então ele chegou. Eu estava perto do Astória. Ele vinha de pé, no carro aberto, sorridente, agitando freneticamente os braços. Creio que esse gesto foi tão importante como aquela pequena frase de duas palavras. Delgado não saudava, puxava por nós, levantava-nos do chão, José Saramago que me perdoe.

Passou mesmo à minha frente. A meu lado estava um homem muito alto, com um filho ao colo. Com as lágrimas pela cara a baixo, levantou o filho acima da cabeça e gritou: Oh meu General, salva o meu filho dos tiranos.

Esse foi o momento que mudou a minha vida. Humberto Delgado e aquele homem de quem não sei o nome fizeram de mim um revolucionário.

A multidão aproximou-se do hotel, o General assomou à varanda, mas não chegou a discursar. A polícia carregou com violência, as pessoas tentavam fugir, Delgado abanava a cabeça, os que se dirigiam para a Praça Velha ficaram encurralados. Eu fui um deles. Tive o meu batismo de cassetete e aprendi fisicamente o que era o fascismo. À noite, comício no Teatro Avenida. Era difícil passar as barreiras policiais. Mas o Teatro encheu e ainda havia mais gente cá fora do que lá dentro. A muito custo consegui entrar. Ouvi a retórica inflamada de Rolão Preto: “Meu General, a Academia disse não e quando a Academia de Coimbra se pronuncia é a própria História que fala.” Hoje faz sorrir. Naquela noite incendiou a sala. O que mais me impressionou foi Jaime Cortesão. Com os dedos indicadores apontados a quem lá não estava, acusou: “Eles são iníquos, eles são iníquos.” Parecia um profeta bíblico. O General estava sem voz. Disse algumas palavras, mas nem era preciso, as pessoas levantaram-se a gritar Delgado, Delgado, Delgado. Então ele agitou os braços, sempre a puxar por nós.

Parafraseando Álvaro de Campos, desde então a cidade mudou. Não só a cidade. A minha geração mudou, para não dizer começou. Mudou a guitarra, o canto, os próprios poemas. Por causa daquele homem de quem, mais tarde, ouvi Álvaro Cunhal dizer: “Ele corre o risco.” Foi o que aconteceu a muitos de nós, começámos a correr riscos. Aqueles braços que chamavam por nós tinham sacudido a cidade, o país e o medo. Assim continuo a vê-lo, a agitar os braços, a puxar por nós, agora que precisamos outra vez de um dia fundador, como esse 31 de Maio de 1958, em Coimbra, tinha eu 22 anos.

Manuel Alegre