"Corri riscos, estive com pessoas que pertencem à História. Tudo isso fez de mim aquilo que sou."
Manuel Alegre
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Solidário com a Grécia, Manuel Alegre apela à resistência :
“É uma batalha pela cidadania, pela soberania e pela democracia”
02-07-2015
Em sessão cívica no Fórum Lisboa, dia 2 de julho de 2015

Amigos, companheiros e camaradas

Este é tempo de lutar de novo por Atenas em Salamina. Mas hoje Salamina é cada um de nós, é o nosso próprio país, são todos os cidadãos europeus que não querem ser subjugados pela ditadura da finança e da austeridade. É uma batalha pela cidadania, pela soberania e pela democracia. Essa é a batalha que os gregos estão a travar neste momento. E esse é também o nosso combate.

As instituições de tecnocratas, de contabilistas e servidores dos bancos que estão a chantagear e a humilhar a Grécia estão também a ameaçar todos os cidadãos europeus, porque estão a querer mostrar que só há o caminho que eles próprios decidem e que os povos já não são livres de escolher e decidir.

O problema que já não é só austeridade. O que está em causa em Atenas é a própria liberdade. Não só a liberdade grega, mas também a nossa e a de todos os povos europeus.

Tsipras disse e bem que se recusa a matar a democracia no país em que ela nasceu. Berlim e Bruxelas querem que os gregos ajoelhem. Para que fique claro que nesta Europa não pode haver alternativa. Não se pode fazer diferente, nem sequer com mandato do povo. Só serão tolerados governos com visto prévio de Bruxelas e de Berlim. Já havia orçamento com visto prévio, agora são os governos que têm de ter o visto prévio de Bruxelas e Berlim.

Ora isto põe em causa a democracia. E também a ideia de uma Europa fundada na paz, na liberdade e na prosperidade partilhada entre Estados iguais e soberanos. O que se joga em Atenas não é só a Grécia, é o nosso futuro, o futuro dos povos europeus.

Por isso a posição do governo português é uma vergonha. Com a ajuda de uma parte da comunicação social, quer ganhar as eleições apostando no medo de um cenário grego de destruição, miséria e humilhação. Não é esta a atitude que se espera de quem representa Portugal. O governo e o Presidente da República substituem a razão de Estado pelo ressentimento e o seguidismo perante os que mandam na Europa.

Leia-se o que se escreve na imprensa internacional sobre o que poderia acontecer a Portugal caso a Grécia fosse forçada a sair do euro. Seríamos os primeiros dos próximos, seguidos da Espanha e talvez da Itália. Como diria um conhecido especialista de aritmética e de finanças públicas … 19 – 1 = 18, 18 - 1= 17, e assim por aí adiante.

Iludem-se os que pensam que estaríamos protegidos num cenário de saída da Grécia, porque, alegadamente, como diz a ministra das finanças, “temos os cofres cheios”. Estão cheios com alguns milhares de milhões de dinheiro emprestado. Cheios de dívida para pagar a dívida. O que a ministra diz é um logro, um embuste e uma mentira

Portugal devia estar do lado daqueles que defendem uma solução sistémica e solidária para a crise do euro, que preserve a unidade europeia e abra caminho ao regresso do crescimento e do emprego, sobretudo nos países que mais sofrem com o desemprego jovem, como acontece em toda a Europa do Sul. No caso português, mais de 485.000 emigrantes (muitos deles jovens qualificados) são a prova cabal do falhanço desta política de empobrecimento. A que nível estaria a nossa taxa de desemprego se essas pessoas não tivessem emigrado? Deixam aqui um vazio de talento e de energia. Formados em Portugal, a maior parte em universidades públicas, com o dinheiro dos impostos, vão ajudar o desenvolvimento de outros países. Provavelmente é lá que farão, não apenas as suas carreiras, mas também os seus filhos. Em Portugal ficam os avós do skype.

Com certeza que os gregos cometeram erros. Este governo e especialmente os governos anteriores. Mas este novo governo grego tem um mandato popular. Foi eleito com base na promessa de pôr fim à austeridade que mergulhou a Grécia na miséria, sem alívio da dívida pública nem perspectivas de crescimento. Ao mesmo tempo, respeitou a vontade do povo grego de querer ficar na Europa, a que a Grécia pertence por direito próprio. Até ao dia de hoje os credores não perderam um euro. Os juros foram cobrados e os bancos alemães e franceses foram resgatados. Esse objetivo foi cumprido. Salvaram-se os que emprestaram dinheiro a rodo aos gregos que, segundo se dizia, viviam também “acima das suas possibilidades”. Mas os gregos, esses, depois dos cortes e da austeridade, ficaram na miséria. A economia grega não foi reformada, colapsou. Todas as previsões falharam. A austeridade falhou.

Porquê então impor o medo? Talvez porque quem manda também tem medo. Tem medo da alternativa, tem medo de assumir que esta receita está errada, porque os factos demonstram que as únicas coisas que aumentam nesta Europa são a desesperança, o desemprego e os partidos populistas e de extrema direita. A austeridade não está apenas a matar a economia, o emprego e a justiça social, está a matar a própria democracia. Os velhos fantasmas europeus estão de volta. Como sublinha hoje o jornal “The Guardian”, uma coisa é clara: Bruxelas e Berlim não querem, nunca quiseram nenhum acordo, o que sempre quiseram e querem é derrubar o governo legitimamente eleito na Grécia.

É uma revisitação da doutrina Brejnev. Temos agora uma nova soberania limitada, com o capitalismo do Norte contra os povos do Sul, condenados ao empobrecimento, à divergência económica e fiscal, à destruição do conteúdo social das suas democracias. Não são só as empresas públicas que estão a ser vendidas ao desbarato, como demonstrou recentemente o Tribunal de Contas. É também o nosso futuro e o daqueles que partem. É a nossa alma de pátria soberana e independente que está a ser cedida a preço de saldo, como se viu com a TAP, a coberto do medo com que nos querem tolher.

A liberdade não é compatível com o visto prévio de Bruxelas e Berlim.

Os socialistas europeus, tenho que o dizer, não podem ficar nas encolhas nem ser cúmplices de uma rendição que esvazia o que há de mais precioso para a esquerda e para a democracia. A crise da Europa é também a crise da esquerda, é também a crise da Internacional Socialista e a crise daqueles dirigentes que dizendo-se socialistas estão a permitir esta vergonha que está a ser feita.

O medo está a progredir. Eu pertenço a uma geração que conheceu o medo. Mas a História não acaba aqui. Já não havia tanto medo na Europa desde o período que antecedeu a 2ª Guerra Mundial. Também então as democracias foram capitulando e os Estados foram caindo. Até que se tornou claro que era necessário resistir. O medo foi vencido mesmo que no início o resultado fosse incerto, muito incerto.

Mais uma vez é preciso resistir. Resistir ao medo, resistir à chantagem, resistir à tentação colaboracionista.

Salamina é agora, Salamina é aqui.

Por Atenas, pela Democracia, por uma Europa de Paz e Liberdade.

Seja qual for o resultado, a Grécia já deu uma lição de dignidade e por isso a Grécia não será vencida.

Viva a Grécia.

Viva Portugal.

Manuel Alegre