Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
Manuel Alegre no rescaldo das eleições:
“É tempo de abrir um novo ciclo e construir convergências para uma alternativa política”
06-10-2015 DN
Entrevista de João Pedro Henriques

"É tempo de abrir um novo ciclo e tentar construir convergências para uma alternativa política" afirmou Manuel Alegre em entrevista ao DN, dois dias depois das eleições. Consciente de que isso "não se faz de um dia para o outro", Alegre sublinha: "Há um novo quadro parlamentar. A direita já não pode governar como governou." E aconselha a todas as esquerdas "uma grande humildade e capacidade para ultrapassar os traumas do passado", pois "a divisão das esquerdas é a força da direita."

António Costa disputou a liderança de AJ Seguro dizendo que ganhou as Europeias por "poucochinho" e que não tinha perfil vencedor. Falhou todos os objetivos: vencer - e por maioria de razão vencer com maioria absoluta. Fica ou não fragilizado na liderança? Deve ou não afastar-se?
O PS não ganhou, mas mantém-se como maior partido da esquerda e referência essencial da democracia. Costa tem de continuar a liderar o PS. Seria mau para o país e a democracia abrir uma crise política no PS por razões de ajuste de contas. Costa é capaz de construir soluções de convergência à esquerda. Quem o quer pôr em causa prefere compromissos com a direita.

Na sua análise, onde é que o PS não cresceu eleitoralmente: ao centro ou à esquerda? O que falhou na estratégia do PS?
O PS perdeu para a esquerda, para o BE e até para o PCP. O erro estratégico foi não ter contrariado a versão da direita sobre as origens e natureza da crise. O PS fez na AR uma oposição errática e frouxa, sendo ultrapassado por BE e até pelo PCP. Caiu na armadilha tecnocrática, em vez de situar o debate no seu terreno: o social e o político.

Os partidos à esquerda do PS cresceram. Sobretudo o Bloco de Esquerda, passando de oito para 19 deputados. O PS enfrenta o risco de se "pasokizar"?
Não, se souber tirar conclusôes dos resultados e compreender que há um problema à esquerda que tem de ser resolvido. O risco de pasokização está no centrão. Costa e o PS têm de saber resistir às pressões externas e internas nesse sentido.

Estava na altura de formar uma grande aliança de esquerda? Acha mesmo que isso seja possível com o PCP ou só vê isso como possível com o BE?
Não é fácil. É um processo que exige de todos uma grande humildade e capacidade para ultrapassar os traumas do passado. A divisão das esquerdas é a força da direita.

Como vê a possibilidade de o PS, numa primeira fase, "deixar passar" um governo da coligação PSD/CDS, viabilizando-lhe os seus principais instrumentos de governação (orçamentos, programa de Governo)? Há condições para, em entendimento com o BE e o PCP, mandar já abaixo o governo? Corre-se o risco de depois a coligação PAF voltar a ter maioria? Há condições para no médio prazo (até meados de 2016) haver de novo eleições?
É preciso evitar uma competição de radicalidade, em que, mais do que derrubar o governo de direita, se pretende entalar o PS. Maioria aritmética não chega. Coligação negativa só serve a direita. É tempo de abrir um novo ciclo e tentar construir convergências para uma alternativa política. Não se faz de um dia para o outro. Há um novo quadro parlamentar. A direita já não pode governar como governou. A governabilidade é precária. Pode haver novas eleições. Ou outra solução. Costa falou da figura de moção de censura construtiva,a que rejeita um governo mas propõe uma alternativa. Não depende só do PS.

Que influência é que estes resultados terão nas eleições presidenciais?
São eleições diferentes. PS e outras esquerdas não devem esquecer os erros que possibilitaram eleição de Cavaco Silva.