Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Artigo de Manuel Alegre no Jornal de Negócios
Kutuzof e o Engenheiro
12-07-2016 Manuel Alegre, Jornal de Negócios

Ninguém me diga mal do Engenheiro, avisou-me por telefone o meu filho Francisco, ele é o nosso Kutuzof. Lembram-se, com certeza, pelo menos os que leram “Guerra e Paz” ou viram uma das várias versões do filme. Foi o grande chefe militar russo que derrotou as tropas napoleónicas. Como o Engenheiro Fernando Santos, também ele irritava os generais, jornalistas e teóricos da guerra. Todos queriam atacar. Ele dizia. “Deixem-nos entrar”. E só contra atacou no momento propício e decisivo. Eu também por vezes me irritei com as escolhas e o sistema de jogo do Engenheiro. Mas tenho de lhe agradecer. Ele fez da selecção uma equipa e uma família. E acabou por criar um momento único de comunhão entre os portugueses, a que o PR soube dar uma expressão adequada: contra o árbitro, contra tudo e contra todos.

O Engenheiro sabia que o nosso combate era desigual e que, na UEFA, tal como na actual União Europeia, as regras não são iguais para todos. Sabia que na nossa amada e doce França, os campeonatos de futebol por ela organizados são, em princípio, para a sua selecção ganhar. Talvez não contasse com a tentativa de liquidação de Ronaldo por Payet a quem a UEFA atribuiu o prémio de melhor jogador do Europeu. Mas o espírito guerreiro ou guerrilheiro estava criado. Nani soltou um grito de revolta e mobilizou os companheiros. E Ronaldo, lesionado, com lágrimas nos olhos e fora das quatro linhas, teve uma das mais extraordinárias actuações da sua vida.

Talvez por intuição poética, eu dizia para a minha mulher: Ele tem que meter o Eder. Creio que o Engenheiro me ouviu. Eder entrou, marcou e eu, como milhões de portugueses que teimam em ser patriotas, não me contive e chorei. Tenho, como o Engenheiro, a convicção de que as nações não se dissolvem. Aliás, este Europeu mostrou uma vez mais que a riqueza da Europa está na diversidade das identidades culturais das suas nações. As várias tribos encheram os estádios com as suas bandeiras e os seus símbolos, a Europa não se fará nunca contra as suas nações, por muito que isso custe aos eurocratas e aos políticos que não sabem História. Kutuzof acreditava na santa Rússia. De Gaulle, quando Churchill lhe perguntou o que é que ele representava, respondeu: A França. Se fizerem essa pergunta ao Engenheiro, ele responderá: Portugal. Foi isso que os jogadores e todos nós sentimos. Aquela selecção bateu-se por Portugal e por todos nós. É esse o grande segredo do Engenheiro. E ao ganhar contra tudo e contra todos, a nossa selecção venceu também por outra Europa, uma Europa de iguais, sem ameaças nem sanções.