Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
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Manuel Alegre na morte de Mário Soares:
A alegria da politica e a coragem dos combates impossíveis
08-01-2017 RTP
Entrevista de António José Teixeira para a RTP

É um luto – para a família, para o país e para mim. Mas também um momento de algumas tentações revisionistas sobre a biografia de Mário Soares. É preciso falar da vida toda dele. Mário Soares começou por ser um opositor ao regime de Salazar, primeiro como militante do PCP, de que saiu; mas depois, a certa altura, teve a visão de que era necessário um partido socialista que juntasse os socialistas e pessoas de diferentes percursos e que isso era indispensável para ter o apoio da Internacional Socialista e dos países democráticos. A grande força de resistência era o Partido Comunista, os movimentos faziam-se em aliança ou semi-aliança com o Partido Comunista, e ele achava que era preciso uma força que se identificasse com os partidos da IS e tranquilizasse os partidos democráticos. Essa é a primeira grande visão de Mário Soares.
Veja a primeira parte da entrevista em AQUI

A criação do PS modificou os dados da luta política em Portugal
Conheci Mário Soares em Paris, através de um amigo comum (Alain Oulman, editor do livro “Portugal amordaçado” de Mário Soares). Eu estava na Argélia e fui vê-lo com o Piteira Santos. Ele depois enviou-me o livro. Mas queria destacar isso: ele começou por ser um grande combatente anti-fascista, depois teve essa visão. Teve prisões – treze – foi deportado em S. Tomé por ordem de Salazar e foi forçado ao exílio por Marcelo Caetano. Mas no exílio conheceu os grandes dirigentes socialistas europeus e isso criou condições para a criação do Partido Socialista e para o reconhecimento pela Internacional Socialista. E modificou muito os dados da luta política em Portugal.

Antes do 25 de Abril, Mário Soares tinha feito uma aliança com o Partido Comunista e o projecto era um programa comum, no género do que Mitterrand tinha feito com a esquerda. Ele defendeu essa ideia durante muito tempo. Simplesmente depois percebeu que o Partido Comunista tinha uma outra perspectiva, que era a aliança Povo- MFA, ou seja a aliança com o sector mais radical das Forças Armadas, e que havia um projecto do poder popular, ou seja, instalar em Portugal uma democracia popular com o modelo que existia nos países de leste.

Em 1975 não quis ser o Kerensky português
Mário Soares resistiu ao apelo de Kissinger, não quis ser o Kerensky português e liderou o combate político pela instauração da democracia. Nesse combate, tivemos uma grande cumplicidade, uma grande amizade, que começou logo no I Congresso do PS. Essas divisões (sobre a via a seguir) passavam por dentro do PS e havia um caminho que levava à satelização do PS. O I Congresso foi um combate pela autonomia estratégica do PS, onde tive uma intervenção que, segundo Mário Soares, o ajudou a garanti-la.

Soares era um homem de fibra, um optimista, um voluntarista, que acreditava sempre que ia ganhar. Lembro-me de um episódio passado no gabinete dele, antes da primeira eleição presidencial, as sondagens estavam muito baixas e alguns amigos diziam para ele não se candidatar, mas ele disse: “Se eu me atirar daquela janela abaixo e decidir que não morro, eu não morro”. Alguns ficaram um bocado espantados mas ele era assim. Um voluntarista, um optimista, com uma grande alegria da vida, alegria da política, não via a política como um pecado, e alegria do próprio combate. E a alegria do convívio. Gostava de literatura, gostava de pintura, gostaria de ter sido escritor – e até escreveu um poema bonito – e foi escritor de ensaios de história, de política; era amigo de muitos escritores, poetas, pintores, mas era sobretudo um homem de combate. Gostava de almoçar com os amigos, não gostava de comer sozinho. Gostava de convidar os amigos para almoçar e de marcar conspirações.

O problema colonial e a Europa
Houve outro aspecto importante na vida dele. Ele entendeu sempre que a conquista da democracia era inseparável da solução do problema colonial. A liberdade do povo português passava pelo direito daqueles povos à autodeterminação e independência. É natural (que este aspecto tenha dividido os portugueses) mas o problema vinha de trás. Vinha de 14 anos de guerra em que foram criadas condições para uma solução política e nunca mais vinha a solução politica; por isso os militares deram aquela volta.

E depois a questão da Europa, de que se fala muito. Eu estive com ele numa reunião decisiva, com os cinco ministros socialistas da Europa, antes da adesão de Portugal à CEE. Mário Soares entendia que não podia ser só a Espanha, que Portugal tinha de entrar para aguentar a democracia. Foi por interesse nacional e por uma visão política e pragmática – não por uma visão ideológica sobre a Europa.

Mais tarde desiludiu-se com o projecto europeu. Recordo que depois de nos reconciliarmos, num dos primeiros almoços, pensámos no que viria a ser a reunião da Aula Magna. Ele via a Europa como algo indispensável em contraponto à hegemonia americana, mas a discordância começou logo com o Iraque, em que ele e eu estivemos na manifestação em Lisboa contra a guerra. Achava que havia uma degenerescência na Europa.

O seu combate pela institucionalização da democracia ajudou à transição democrática na Espanha, na Grécia e no Brasil.

A capacidade de fazer equipas
Mário Soares sabia fazer equipas. Era o líder, mas tinha com ele Salgado Zenha, Jaime Gama, Sottomayor Cardia, eu próprio e alguns outros. Foi capaz de atrair ao PS pessoas com diferentes percursos. Não gostava de tomar decisões sozinho. Gostava de co-responsabilizar os outros, o secretariado. Defendia os seus pontos de vista com fervor, às vezes com murros na mesa, mas nós também dávamos murros na mesa.

Suspendeu a liderança do PS por causa de Eanes, depois teve aquela luta com o ex-Secretariado, mas ganhou o Congresso de 1981 – um grande congresso, que terminou no dia da vitória de Mitterrand em França.

As novas gerações não conheceram Mário Soares, com toda a sua vitalidade política e a sua luta. Mas fica a coragem moral e física, o espírito de combate, a alegria da política.

Muitas vezes o vi esmorecido, sobretudo quando João Soares teve o acidente. Mas acreditava sempre que podia dar a volta e isso era contagiante.

Uma vez, em Coimbra, eu estava com Miguel Torga e ele chegou. Havia um prato de bolos em que ninguém tinha tocado. Mário Soares chegou e comeu uns cinco ou seis. E Torga comentou: “Ele trinca a vida.”

Os combates impossíveis
O que mais apreciei nele foi a coragem de travar combates que todos julgavam impossíveis: o fascismo, 1975, a primeira eleição presidencial. Nesta foram indispensáveis os votos comunistas. Cunhal reuniu o Congresso do PCP para decidirem votar contra Freitas do Amaral. Soares nunca o esqueceu. Houve de facto um grande traumatismo de 1975 (entre o PS e o PCP), mas na parte final da vida Mário Soares defendia a convergência das esquerdas.

A minha reconciliação com ele (depois das presidenciais de 2006) foi um apaziguamento para muita gente. Tivemos um confronto muito duro, nem sempre agradável, mas foi um apaziguamento para um e para outro. Ele tinha estado gravemente doente, eu tinha telefonado ao João, à Isabel e à Maria de Jesus – que era uma grande mulher. Ele veio a saber, ficou comovido e pediu ao António José Seguro para me ligar. Foi assim que nos reconciliámos.

Depois disso, almoçámos várias vezes, ele gostava de contar histórias. A partir de certa altura, esquecia-se dos nomes, mas recordava-se dos acontecimentos. Houve um progressivo declínio, mas mesmo assim mantivemos o contacto.

Na última conversa ele pediu-me um livro meu, que levei. Estava muito em baixo, eu comecei a desafiá-lo, a dizer-lhe “vamos passear, vamos fazer uma conspiração” e ele respondeu: “Quando chegar o momento, eu cá estarei.” Mas já não era a hora. Ele estava a fechar-se. Disse apenas: “Estou muito cansado. E vou-me embora.”