Vi o meu país a arder, sei que morreram cem pessoas em quatro meses e não consigo ficar calado.
Manuel Alegre
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Almoço com Manuel Alegre
"Costa é um pragmático e sabe que a geringonça, com ou sem maioria absoluta, é fundamental para o PS"
26-08-2017 Leonídio Paulo Ferreira, DN

Almoço com Manuel Alegre, poeta e histórico do PS, que fala sobre Portugal e África, o tempo que passou em Argel exilado, Trump e o Brexit e ainda a aliança das esquerdas no Parlamento português.

Chego ao O Nobre à hora marcada, uma em ponto, e Manuel Alegre está já à minha espera. O sítio foi escolha do poeta. "Come-se bem, está fresco e dá para vir a pé de casa", diz. Mas antes ainda de me explicar o porquê deste restaurante junto à Praça de Touros do Campo Pequeno já me tinha lançado um "li-o hoje de manhã". Referia-se ao meu editorial no DN sobre as eleições em Angola. Equilibrado?, pergunto. "Equilibrado", responde-me o homem que chegou a ser militar em terras angolanas, que lá foi preso pela PIDE por discordar do colonialismo e que lá também encontrou material para um dos seus mais famosos poemas, Nambuangongo, meu amor. "Voltei várias vezes, e também depois de 2002 e do fim da guerra, e valorizo a forma como construíram a paz em Angola. Mostraram uma generosidade com os vencidos que não é comum em África", acrescenta, sentados já à mesa, à qual fomos conduzidos por José Nobre, marido da chef Justa Nobre, transmontana que tem fama de ser uma das pessoas que melhor cozinha em Portugal. E comida portuguesa.

Sobre a toalha branca são várias as entradas. Manuel Alegre espeta o garfo num pedacito de melão e desafia-me a seguir-lhe o exemplo. Também o queijo atabafado está ótimo. "Gosta de peixinhos da horta?" Respondo que sim e passados uns minutos eis que chegam uns delicados vegetais cobertos por um polme ligeiro, a mesma delicadeza que levou os japoneses a imitar os nossos jesuítas inventando o tempura. Estamos, pois, ainda a petiscar quando Manuel Alegre decide regressar ao tema África: "A história de Portugal está indiscutivelmente ligada ao mar. Portugal fez-se para fora e fez-se de fora para dentro. E sem isso Portugal transforma-se numa junta de freguesia da Europa. Portugal já foi uma nação-piloto entre a Europa e o mundo e eu até digo que foi Europa antes de a Europa o ser, navegando pelo mar fora. E não percebo que não haja uma política mais ativa para África, nomeadamente para Angola, que se tenha praticamente desistido da Guiné, onde nasceu o 25 de Abril, e que Portugal não valorize muito mais essa outra dimensão que passa por África, Brasil, China."

Ouço com toda a atenção este homem de 81 anos nascido em Águeda, que cedo se notabilizou como poeta, com livros como A Praça da Canção e O Canto e as Armas (que tiveram de circular policopiados porque a ditadura os temia), mas que também tem um currículo político que impressiona, desde resistente antifascista e histórico do PS a candidato presidencial vítima de uma esquerda dividida. "Agora deu-lhes para me chamarem assim, deve ser por causa do Prémio Camões", brinca Manuel Alegre, o "senhor professor" a quem acabam de perguntar se já escolheu. E em tom ainda de brincadeira fala-me do "título maroto" feito no DN pelo João Pedro Henriques no dia em que se soube que tinha ganho o maior prémio da cultura lusófona. "É natural que me atribuam este prémio. Até podia ter sido mais cedo", foi o que disse então, citado pelo jornal. Mas é bem verdade, não é, digo em apoio da frase e do destaque que o João Pedro lhe deu. Aliás, João Pedro Henriques, que costuma almoçar com Manuel Alegre, foi quem lhe endereçou o meu pedido para esta rubrica de sábado.

Escolhemos ambos filetes de peixe-galo com arroz e voltámos à história e ao peso dela. "Foi um problema que pus uma vez, para que se fizesse um esforço para que se ensinasse mais história. Tenho ideia de que hoje se conhece pouco da história em Portugal e a história de Portugal está marcada por isso, pelas navegações, não só pela descoberta de novos mundos, mas um novo saber, uma nova visão do mundo. Foi Portugal que trouxe isso à Europa. E para ter uma visão estratégica em Portugal é preciso conhecer a história. Há círculos militares que mantêm essa visão. No Ministério dos Negócios Estrangeiros também ainda há quem mantenha essa visão. E depois há alguns carolas e alguns historiadores, intelectuais e poetas que continuam a ter essa visão de Portugal que é inseparável da história e do mar."

Pausa para escolher o vinho. Manuel Alegre tenta relembrar-se de um vinho de Trás-os-Montes que lhe agradou há dias. Por sugestão do senhor Nobre vamos para meia garrafa de Valle do Nídeo branco. Do Douro, da zona de Foz Coa, aprendo eu de gente sabedora do tema. O poeta admite que por regra prefere tintos, mas que no verão lhe sabem bem os brancos e também os rosés.

Vem à conversa o papel do Estado e de como este é tão acusado de falhar no verão, quando os incêndios assolam o país. Pergunto se a tal história de oito séculos, quase nove, nos pode ensinar algo também nesta matéria.

"Sim", diz sem hesitar o meu convidado. E acrescenta que "as navegações foram feitas pelo Estado, a grandeza de Portugal foi feita pelo Estado. E a Espanha também nos indica alguma coisa, é o Estado lá que combate os incêndios, com uma unidade de emergência militar. Eu acho que há erros de décadas em relação às florestas, ao reordenamento do território, aos desequilíbrios e desertificação do interior. Não se ouviu o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles quando ele bem nos avisou. Esses é que são os verdadeiros problemas, os problemas estruturais do país. O combate aos incêndios tem de ser todo repensado, é uma questão de defesa e soberania nacional". Fala também de "medidas à marquês de Pombal" e que o Estado tem de agir. "Agir e agir. Cuidar dos vivos e enterrar os mortos. Tenho ideia de que se não fosse o marquês de Pombal ainda hoje havia uma comissão a discutir a reconstrução de Lisboa", remata, num tremendo elogio a Sebastião José de Carvalho e Melo, o grande primeiro-ministro de D. José e o obreiro da reação nacional ao terremoto de 1755.

Digo a Manuel Alegre que me lembrei dele para este almoço com... depois de receber há dias no DN (via João Pedro Henriques, lá está) o seu artigo "Viva a Inglaterra", motivado pelo filme Dunkirk. E que fiquei surpreendido por não estar zangado com os nossos mais velhos aliados por causa do brexit.

"Não, não estou zangado. Entrei para a escola nessa época da Segunda Guerra Mundial e andava com um emblema da RAF na lapela, por isso vivi esse período histórico da Inglaterra, que resistiu sozinha à Alemanha, num momento em que a União Soviética não estava em condições de o fazer e a América também não. E foi o que permitiu depois aos soviéticos e aos americanos avançarem. A Inglaterra sabe defender a sua e a nossa liberdade. O David Cameron estava em sarilhos, fez um referendo e foi derrotado. A guerra civil no Partido Conservador continua. Mas o povo inglês votou e tem de se respeitar isso, não tenho de me pronunciar mas sei que vai ter consequências na Europa. Vai dar lugar a um projeto europeu continental, sob uma hegemonia alemã, e cada vez que isso aconteceu deu asneira. Com a Inglaterra de fora não quer dizer que vá haver uma nova guerra, como aconteceu com Hitler, mas vai haver consequências. Mas a Inglaterra nunca se rendeu e nunca se vai render. Temos de ser pragmáticos e pensar nos 500 mil portugueses que lá estão, pensar nos direitos deles e dos ingleses que estão aqui, pensar nas relações comerciais, o Reino Unido é um dos nossos principais parceiros, e na defesa. Eu conto com a velha tradição histórica portuguesa do atlantismo e da aliança com a Inglaterra." Pergunto se a aliança com a Inglaterra velha de 600 anos ainda vale muito. "Vale e acho que para eles também. Apesar das marotices que nos fizeram."

Na conversa passamos por temas como a ascensão da China ("o grande problema para a hegemonia americana"), a ameaça mais teórica do que real da Coreia do Norte ("fui lá nos anos 1960 e aquilo era uma coisa medonha") e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos ("põe em causa os princípios básicos do sistema americano. É uma espécie de caudilhismo"). E assim, sem querermos muito, chegamos à política portuguesa, como no meio dos populismos na América e na Europa, é uma exceção assinalada já por vários jornais estrangeiros.

Fazemos uma pausa para decidirmos se vale a pena um digestivo. Whisky ou uma aguardente velha? Manuel Alegre, que me impôs desde o início que a conta tinha de ser dividida e não paga pelo DN como é regra, insiste que seja minha a escolha. Tento adivinhar que o poeta prefere o produto nacional ao escocês. "Pelo menos faz menos mal", nota. E pergunta se há CRF. Acabamos com uma Antiquíssima, excelente.

"É uma exceção porque Portugal ao fazer aquilo que é a geringonça - eu não gosto da palavra, mas pronto, já aí está -, o PS salvou-se. Se tivesse feito um bloco central, que eu chamei de gambozino político, tinha tido um destino semelhante ao dos franceses ou às dificuldades que estão a ter os espanhóis do PSOE. Primeiro recentralizou o Parlamento, restituiu a centralidade ao Parlamento, abriu o espaço da intervenção democrática responsabilizando mais partidos à sua esquerda e trazendo o que eles representam para a vida democrática. Isto tem tido efeitos positivos, tem funcionado bem. Agora há gente à direita que pugna pela maioria absoluta do PS para acabar com a geringonça, também há gente do PS que gostaria de acabar com a geringonça e que queria a maioria absoluta. Acho que o António Costa é um político pragmático e inteligente e sabe que a geringonça, com ou sem maioria absoluta, é fundamental para o PS", afirma Manuel Alegre.

O assunto seguinte, claro, tem de ser a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa, que o poeta diz não o surpreender. "Não, porque Portugal precisava de uma proximidade e precisava de afetos. É claro, Marcelo está a ser um excelente Presidente e quando ouço falar em pactos de regime e não sei quê, neste momento a cooperação institucional entre ele e o António Costa é um pacto de regime essencial que está a funcionar muito bem. E ele restituiu confiança aos portugueses, com a afetividade, as selfies, tudo isso... Podemos pensar que é exagerado, mas os portugueses precisavam disso. Somos um povo muito afetivo, de romarias, de abraços, que gosta de se tocar, e ele tem esse lado. Ele deve dominar-se um bocadinho, porque não pode ir a todo o lado ao mesmo tempo. Mas reconciliou os portugueses com o presidente da república e com eles próprios. Deu-lhes esperança, confiança e afetividade e a verdade é que o país está mais satisfeito. Ele percebeu isso. Embora o papel do Presidente tenha um lado majestático e que ele saberá encarnar muito bem se for caso disso. Ele e o Costa fazem uma excelente dupla."

Saltamos a sobremesa e pedimos dois cafés. Manuel Alegre conta-me como fez as pazes com Mário Soares, um velho amigo e camarada, depois de se terem oposto numas eleições presidenciais que o poeta tinha tudo para ganhar a Aníbal Cavaco Silva se a esquerda não se tivesse dividido. Conto-lhe, pelo meu lado, como os antigos presidentes John Adams e Thomas Jefferson, velhos amigos desde o tempo da guerra contra os britânicos, se zangaram durante uma campanha eleitoral e só perto do final da vida se reconciliaram para depois, um no Massachusetts e o outro na Virgínia, morrerem com poucas horas de diferença, a 4 de julho de 1826, meio século exato depois da declaração de independência dos Estados Unidos. "Que história! Não conhecia", diz-me. O meu ego gostou. Tal como gostei quando Manuel Alegre, adepto da Académica, elogiou o meu Vitória, lembrando uma final de Taça mítica entre os de Coimbra e os de Setúbal. "Vocês tinham o J.J."

Antes de nos despedirmos, e a conversa já vai para lá de duas horas, peço a Manuel Alegre que me fale da vida em Argel, onde esteve uma década na Voz da Liberdade, num país que tinha conquistado pelas armas a independência a França. "Foi uma vida dura, não foi um exílio dourado. Tínhamos muitas dificuldades. Às vezes comíamos uma vez por dia, partilhávamos entre nós, mas ao mesmo tempo foi uma experiência muito exultante porque estava toda a gente que andava a lutar no mundo por uma causa: estavam os africanos ligados às colónias, os panteras negras, gente da Eritreia, portanto toda a gente que tinha um sonho, que estava oprimida ou que queria a libertação ou que tinha uma utopia - nessa altura a utopia era uma barca muito grande. Argel foi uma capital da utopia. A Argélia teve uma grande solidariedade que respeitava a autonomia e a independência de todos. Nunca houve a mínima ingerência nas nossas coisas - embora os portugueses fossem complicados. Achavam que os nossos programas eram connosco." Em Argel conheceu vários líderes africanos que combatiam o colonialismo português, como Amílcar Cabral. "Conheci-os todos. O Amílcar Cabral era um homem com um talento especial, uma inteligência fora de série e fez falta ao pós-25 de abril. Não era um homem dogmático, era um homem muito aberto, fez falta. Foram homens que marcaram a história, com quem convivemos, e essa convivência foi muito importante para o futuro. Todos eles gostavam de Portugal, todos gostavam de bacalhau e alguns de alheiras de Mirandela. O Agostinho Neto gostava de fados de Coimbra. E até da Amália. Aliás, gostavam da seleção de Portugal. Lembro-me de ver os jogos em casa de um gajo que tinha televisão e juntávamo-nos lá todos a torcer pela seleção em 1966. Estava lá o Eusébio... mas acho que era mais do que isso."

Restaurante O Nobre
› Pão
› Queijo atabafado
› Entrada de melão
› 2 Peixinhos da horta
› 2 Filetes de peixe-galo
› 1 Água
› 1 Garrafa de Valle do Nídeo branco
› 2 Antiquíssima
› 2 Cafés
Total: 129,50 euros