"Não gosto de engenharias sociais ou artificiais messiânicas"
Manuel Alegre
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Artigo de Manuel Alegre no DN
Lição de Vida
22-05-2018 Manuel Alegre, DN

Conheci-o em Nambuangongo em 1962. Passámos uma noite a conversar. Éramos novos e trazíamos em nós todas as utopias do mundo. Foi a primeira vez que ouvi a expressão “Socialismo em Liberdade”. Mais tarde, já depois do 25 de Abril, ele repeti-la-ia muitas vezes. Para António Arnaut, não eram apenas palavras nem conceitos abstractos, mas uma forma de vida que ele praticava. Foi um dos socialistas mais genuínos que conheci. Socialista praticante, democrata praticante. E sobretudo um humanista, alguém para quem as ideias eram inseparáveis do sentimento e do coração. Tive a honra de ser um dos subscritores do primeiro texto do SNS por ele apresentado na A.R. Sim, ele foi pai dessa causa que, mais do que uma causa ideológica, sempre considerou como um projecto patriótico e humanista. O SNS mudou a saúde em Portugal e mudou a vida de milhões de portugueses até aí excluídos dos cuidados públicos de saúde. Viveu, lutou e sofreu pelo SNS. Até ao fim, preocupado com as deformações introduzidas ao texto constitucional e com o risco do serviço público continuar a ser drenado para o sector privado. Com João Semedo assinou o livro Salvar o SNS com propostas concretas para alteração da lei actual.

Telefonei-lhe há poucos dias, já ele estava no hospital, muito doente. Mas a sua voz, calorosa e fraterna como sempre, enganava-nos. «Eh Manel», dizia, «temos de nos aguentar.» Custa-me acreditar que não mais ouvirei essa voz que vinha do coração e trazia um apelo: Salvar o SNS.

Mas de António Arnaut não fica só esse bem maior da nossa democracia. A sua grande lição é uma lição de vida. O sentido do serviço público e do bem-estar do povo acima de interesses pessoais. A austeridade de comportamento, a lisura, um certo despojamento e até, por vezes, o esquecimento de si próprio. Menos no que respeita à poesia. Ele gostava e precisava da poesia. Escrevia sem preocupações de formalismo. Era um outro modo de comunicar e de intervir, transmitindo os seus recados de esperança e a sua vontade de justiça. Um homem bom e raro. Parecia ingénuo, mas não era. Acreditava no que fazia, vivia de acordo com as suas convicções, era autêntico. E por isso incómodo para os cínicos da vida. Resistiu até ao fim. Só há uma maneira de lhe render homenagem: é cumprir o seu último apelo, salvar o Serviço Nacional de Saúde.

Manuel Alegre