"A grande poesia não cabe num tweet"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre sobre Vasco Pulido Valente:
"Um homem lúcido cuja lucidez e cuja escrita fazem falta"
21-02-2020 TVI 24
Entrevista telefónica à TVI 24

A minha primeira reacção é sentir que Vasco Pulido Valente é uma pessoa que faz falta. Nós somos mais ou menos da mesma geração, embora eu seja mais velho, ainda participámos no movimento estudantil dos anos 60. Nunca fomos amigos, nunca estivemos do mesmo lado, a não ser do lado da liberdade. Discordámos a maior parte das vezes. Ultimamente concordávamos mais. Agora tenho que reconhecer que ele foi porventura o mais talentoso de todos os nossos cronistas políticos. Era um homem lúcido, incómodo, por vezes corrosivo, cuja lucidez e cuja escrita, e ele escrevia muito bem, fazem falta. Fazem falta à nossa vida cívica e fazem falta à nossa cultura. E eu, que quase sempre estive em desacordo com ele, tenho saudades do Vasco Pulido Valente.

Manuel Alegre, Vasco Pulido Valente também colaborou na primeira campanha à presidência de Mário Soares, tem alguma recordação dessa época?
Tenho a recordação de que também discordámos quanto à linha a seguir. Fizemos parte da comissão política e recordo-me de não estar de acordo com a linha política, a orientação que ele propunha. Mas estava de acordo com a posição que ele tomou de apoiar Mário Soares, evidentemente.

Daquilo que é o próprio legado de Vasco Pulido Valente, que herança é que ele deixa como pensador do país?
Ele foi um grande estudioso do século XIX e da revolução liberal. E os seus livros de história sobre esse período são muito interessantes e mostram uma coisa curiosa: mostram um amor ao país que muitas vezes nos seus escritos não era claro. Muitas vezes acusava-se o Vasco Pulido Valente de ter pena de não ser inglês. Mas ele era português e tinha amor a Portugal, vê-se isso nos seus escritos, mesmo quando ele diz mal, por vezes num tom queirosiano, mas que era uma outra forma de amor ao país. Deixa-nos um legado de análise lúcida, cruel mas lúcida, desse período da história do século XIX e até de alguns momentos da nossa história recente. Eu ultimamente sentia-me mais vezes de acordo com aquelas pequenas notas que ele escrevia, muito certeiras, no Público. Mas enfim, ele tinha talento.

Acha que pode ser comparado a Eça de Queirós?
Não, não, isso também não. O Eça de Queirós tinha talento de criador, foi um grande romancista e as crónicas do Eça de Queirós, por exemplo em “Uma campanha alegre” (que ele leu com certeza e leu muitas vezes e por vezes quase se inspirava nelas) são no entanto inimitáveis e inigualáveis. Tinha talento, mas há uma distância entre quem é um génio literário e um talentoso cronista e historiador.

Nas divergências de que falou anteriormente, há alguma que lhe venha subitamente à memória?
Não, foram tantas… Eu tinha respeito por ele, consideração por ele. Muitas vezes me irritava com ele, irritava-me muito, mas era uma irritação intelectual e política. Recordo-me do 1º Congresso do PS, onde eu fiz um discurso que segundo o próprio Mário Soares, e é histórico, deu a volta ao Congresso. Ele com o Francisco Sousa Tavares tinham apresentado uma moção e defendiam uma linha social-democrata, mas não foi essa a via que foi aprovada para garantir a vitória de Mário Soares contra o que era uma deriva esquerdista que poderia ter feito do Partido Socialista um partido satélite da corrente então dominante na vida política.

Consegue identificar uma causa para o hipercriticismo e o pessimismo que temos vindo a identificar nestes últimos telefonemas de que privou com o Vasco Pulido Valente?
O Vasco Pulido Valente não fazia jeitos, nem sequer aos amigos. Ouvi-o muitas vezes criticar pessoas de quem era amigo. Criticava posições cívicas, criticava ideias, umas vezes acertava, outras não, mas ele era corrosivo e cáustico. E acho que faz falta.

Oiça a entrevista à TVI 24 AQUI