"A grande poesia não cabe num tweet"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre em entrevista ao Observador:
“Ainda não vi uma visão diferente. Pensa-se como se tudo fosse ser igual, não vai ser igual.”
17-04-2020 Observador, programa Vichyssoise

Em entrevista ao programa "Vichyssoise" do Observador, Manuel Alegre fala da pandemia e da incerteza deste combate. Sobre o futuro confessa: “Eu ainda não vi ninguém, pelo menos nestas reuniões com os académicos e os economistas, com uma visão diferente. Pensa-se como se tudo fosse ser igual, acho que não vai ser igual.”
Oiça a entrevista AQUI, a partir do minuto 21.20

Observador - Numa semana em que o PS celebra os seus 47 anos, convidámos um histórico desse partido que também é escritor, também é poeta e também é ex-candidato à Presidência da República. Manuel Alegre junta-se agora à conversa.
Vivemos tempos extraordinários e inéditos. O Manuel Alegre em 1975 teve um papel importante, sobretudo na mobilização do Partido Socialista durante o estado de sítio. Esta situação que nós vivemos hoje em dia, com características bem diferentes, ainda assim, considera que é mais difícil ou mais fácil do que aquela que viveu na altura?
Manuel Alegre – Esta situação é mais difícil, porque agora nós não sabemos ao certo quem é o inimigo nem como é que acaba.

Obs – Como é que têm sido os seus dias?
MA – Têm sido dias de reclusão, não contava que nesta fase da minha vida viesse a passar por isto: estar preso em casa, não poder contactar com filhos nem com netos, ter que ter estes cuidados todos. É outra forma de resistência e de resiliência, mas muito mais desagradável porque nós não sabemos o que é que vai acontecer. Nem ninguém esperava que isto pudesse acontecer. Isto é uma espécie de peste negra desta era em que todos nós julgávamos que éramos omnipotentes e omniscientes e afinal não somos.

Obs – Falou aí da questão da resistência. O Manuel Alegre tem um passado de resistência e chegou a viver exilado vários anos. Considera que são mais difíceis estes dias do que os que passou nessa altura?
MA – As coisas não se podem comparar. Nesses dias eu era muito mais novo, fui para o exílio com 28 anos, tinha estado na guerra, depois na cadeia, portanto fiz o périplo todo e é muito duro e difícil partir para o exílio com vinte e tal anos, também sem saber quando se volta. De qualquer maneira, havia outra inspiração, quer dizer, queríamos derrubar a ditadura, libertar o país, era um tempo das grandes utopias, toda a gente andava a querer fazer a revolução em todos os sítios do mundo, etc. Estávamos como eu disse uma vez “perpendiculares ao tempo” e à História, sentíamos que estávamos na História e a mudar a História. Agora não, é um tempo muito diferente. De repente aconteceu isto, há muita gente agora que, quando fala da retoma, fala como se tudo voltasse a ser o que era… Quando há estas grandes rupturas históricas, a I Grande Guerra, a II Grande Guerra e agora isto, que nós não sabemos bem o que é nem como é que acaba, os comportamentos alteram-se e a própria visão do mundo se altera.

“O que vem aí vai ser diferente”

Obs – Na sua perspectiva o que é que acha que vem a seguir?
MA – Bom, neste momento a prioridade é encontrar uma vacina e combater isto com os meios que temos. E cá nos temos aguentado e os portugueses deram um bom exemplo, porque eles próprios se meteram em casa e deram um exemplo de grande contenção. Acho que também beneficiaram do facto de ter havido a Itália, a Espanha…O que vem aí, não sei. Agora, creio que vai ser diferente. Pode ser melhor, pode ser pior. Vai ser pior em muitos aspectos, a economia vai sofrer um grande rombo, vai haver pessoas desempregadas, isto vai ser difícil para muita gente e para todos. Se calhar, vamos ter que viver doutra maneira, aprender outras coisas. Vai haver mudanças, sim, em que sentido é difícil dizer.

Obs – Há uma mudança que já está a ocorrer na sociedade que são estas restrições de que estávamos aqui a falar até agora, mas há uma coisa que não vai mudar, aparentemente. Na próxima semana, comemora-se o 25 de Abril. Os partidos à direita na AR, como o CDS ou o Chega, já vieram defender que estas comemorações não deviam ser feitas na AR. Justificam precisamente esta posição com as medidas restritivas. Acha que as comemorações do 25 de Abril deviam ser suspensas nos moldes em que as conhecemos?
MA – Olhe, o 25 de Abril criou um espaço de liberdade e essa é a sua principal riqueza para todos os portugueses. Isso significa que se pode concordar ou discordar. Mesmo aqueles que não comemoram o 25 de Abril e que dizem que não o querem comemorar, de certa maneira estão a prestar homenagem ao 25 de Abril e a este espaço de liberdade que o 25 de Abril criou para os portugueses e que é o essencial do 25 de Abril. Comemorar na AR com menos gente é uma forma de mostrar que a democracia não está suspensa, continua, e que esse espírito do 25 de Abril também continua.

Obs – Mas acha que é de alguma forma algum aproveitamento político por parte desses partidos, que há algum aproveitamento ao falarem nessa questão? Está aqui a haver algum aproveitamento da questão da defesa da saúde pública para em nome dela se suspender esta comemoração?
MA – Bom, aproveitamento há, mas isso é uma coisa menor. Eu já disse que neste momento os capitães de Abril são os profissionais de saúde. São eles que estão a dar um exemplo a todos os portugueses. É essa a prioridade das prioridades, até é a melhor forma de celebrar o 25 de Abril, o combate ao coronavírus. Isso é indiscutível. Quanto ao resto, faz parte da vida, faz parte da política, sempre foi assim, acho que é uma coisa menor. Mas é um direito que lhes assiste. As pessoas podem concordar, podem discordar. Como eu disse, essa é a superioridade moral do 25 de Abril.

Obs – Como avalia a liderança deste processo por parte do Primeiro Ministro António Costa? Tem-no surpreendido a capacidade de liderança, acha que ele tem tomado as melhores opções?
MA – Eu acho que a liderança dos principais órgãos do Estado tem sido correcta, no essencial tem sido boa, fecharam as fronteiras, decretaram o estado de emergência, tem-se procurado equilibrar a prioridade que é a questão sanitária com a outra, que é não deixar afundar a economia. Agora, eu penso que é preciso alguma prudência em relação ao futuro. Há muita coisa que tem de ser repensada. Eu acho que, quando se fala de retoma, muita gente pensa que os aviões vêm aí cheios de turistas para o Algarve, e tal...Isso na minha opinião não vai acontecer. E há outras conclusões que nós devemos tirar: temos as fábricas farmacêuticas muito longe, ficámos muito dependentes – todo o Ocidente, aliás, também os americanos – sobretudo da Ásia, com as deslocalizações. A Europa e o Ocidente têm que voltar a produzir os seus bens essenciais. Tem de haver um processo de reindustrialização, pelo menos naqueles bens essenciais não sermos tão dependentes. E eu ainda não vi ninguém, pelo menos nestas reuniões com os académicos e os economistas, não vi ninguém com uma visão diferente. Pensa-se como se tudo fosse ser igual, acho que não vai ser igual.

“O estado de espírito dos mais velhos deve ser idêntico ao dos mais jovens – resistir, lutar pela vida”

Obs – Faz sentido aquela ideia de um país a duas velocidades, em que os mais velhos e os grupos de risco vão continuar confinados e o resto das pessoas podem ir saindo à rua? Isto não pode criar uma espécie de gueto, como o PR chegou a denunciar?
MA – Ele alertou e bem para essa situação, há pessoas mais frágeis, mas também há pessoas de cem anos, ou de noventa e tal anos, que têm resistido e alguns, bastante mais novos, que não têm aguentado. Isso depende da saúde das pessoas, da capacidade de resistência, do estado físico, não depende tanto da idade. Há pessoas de vinte anos que podem estar muito enfraquecidas e outras que são mais rijas, com noventa e tal anos, que aguentaram. Agora, é evidente que as pessoas de mais idade têm de ter mais cuidado. E eu estou psicologicamente preparado para isso. Irei ter mais cuidado, evidentemente. Estou perfeitamente consciente de que o vírus continua por aí, não foi eliminado, houve um retrocesso, houve uma contenção, não sabemos quantas pessoas estão infectadas, quem está imunizado ou não, eu próprio também não sei, àcerca de mim mesmo. Tenho filhos, tenho netos…

Obs – Corre-se esse risco de que falou o PR, de haver o tal gueto, com as pessoas mais idosas confinadas em casa até ao fim, quando o resto da sociedade já está activa? Há esse risco de uma situação que pode ser vista, até, como uma situação de abandono?
MA – Acho que isso foi visto como uma situação de preocupação e nunca como abandono. Com preocupação para tratar das pessoas, sabendo-se que a resistência das pessoas mais idosas, que normalmente têm outras doenças associadas, é mais frágil. Foi nesse sentido que a Presidente da Comissão Europeia falou, não usando talvez a melhor expressão, nem no dia mais adequado, que foi a Páscoa. Mas, por exemplo, o general Eanes, que é uma pessoa que eu respeito e admiro e com quem estive junto nalguns momentos muito importante da construção da democracia, disse aquela coisa que foi muito louvada: que, se fosse necessário …

Obs – …os mais velhos deviam dar o ventilador aos mais novos.
MA – Eu não estou de acordo com isso. Porque não se pode ser contra a eutanásia, como ele foi, e depois dizer uma frase que pode ser interpretada como uma espécie de eutanásia em relação aos mais velhos, sem serem eles a pedir ou por vontade deles. Não. Nós devemos resistir e lutar pela vida até ao fim, em todas as circunstâncias. Claro que se fosse preciso dar a um mais jovem, em situação extrema, o meu ventilador, com certeza que eu daria, mas o estado de espírito dos mais velhos deve ser idêntico ao estado de espírito dos mais jovens – resistir, lutar pela vida, defenderem-se. Isso é que é a atitude. E o que apetece dizer nestas circunstâncias não é “viva la muerte”, como aquele fascista da guerra civil de Espanha, mas viva a vida, sempre, em todas as circunstâncias.

Elogio a Rui Rio

Obs – Quando lhe perguntei de António Costa, respondeu-me que os líderes têm sido correctos. Também se estava a referir ao PR? Isto tem sido uma liderança quase partilhada nestes tempos de resistência, quase bicéfala?
MA – Nós gostamos muito do conflito pelo conflito, mas acho que numa situação destas é bom (que haja partilha). As pessoas têm estilos diferentes, o PR ao princípio acho que facilitou, depois percebeu e agora a liderança entre os principais representantes de órgãos de soberania, o PM, o PR e a própria AR, mas sobretudo entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, tem sido partilhada e acho que isso é bom para o país.

Obs – E a oposição tem estado suspensa, praticamente, como Rui Rio pôs o PSD nesta fase? Como olha para este panorama?
MA – Houve uma intervenção de Rui Rio que eu apreciei – a primeira, quando o estado de emergência começou. Nem percebo como é que os outros partidos não bateram palmas, porque é preciso coragem para fazer aquilo que ele fez. Como líder da oposição, é sempre muito mais fácil atacar, dizer que o governo não fez aquilo que devia fazer, que já devia ter feito, etc., etc. E ele disse: Eu neste momento não sou oposição, sou oposição ao vírus. É preciso coragem, coragem política, seriedade. Discordando de muitas coisas que ele diz, que muitas vezes são vistas em termos de perdas e ganhos, acho que isto lhe dá dividendos.

Obs – Não há risco de não haver aqui contraditório?
MA – Mas há contraditório, com certeza que há contraditório e o contraditório existe sempre nas pessoas. E ai dos líderes políticos que não sabem interpretar o sentimento das pessoas, quer quando as pessoas estão em sintonia com as medidas que se tomam, quer quando estão em desacordo.

De presidenciais, Alegre confessa já ter a sua conta

Obs – Tem elogiado, e já o fez aqui, não só Rui Rio, mas também Marcelo Rebelo de Sousa e tem-no feito com uma certa frequência. Acha que há condições agora nas presidenciais que aí vêm – tema que lhe é caro porque já foi candidato duas vezes – acha que há condições para MRS ser candidato com o apoio do PS como foi Mário Soares no segundo mandato?
MA – Acho que ele gostaria, mas não sei, não vou fazer previsões sobre isso. De presidenciais, já tenho a minha conta…

Obs – Como histórico do PS e como interveniente público na vida portuguesa, gostava mais de ver uma situação desse género ou acha por exemplo que uma figura como Ana Gomes…
MA – Não, eu não vou falar. Eu estou a ser armadilhado, porque era para falar do 25 de Abril e estamos a falar de tudo menos do 25 de Abril (risos). Claro que falar destas coisas é falar do 25 de Abril, em democracia, daquilo que é importante, é uma outra maneira de falar do 25 de Abril. Sou um grande amigo de Ana Gomes, gosto muito da Ana Gomes pelo que ela fez em Timor, onde também esteve o meu filho, fizeram os dois, (não devia estar a dizer isto, mas digo), foram os diplomatas que melhor se portaram nessa situação. Tenho uma grande admiração por ela, mas não me vou pronunciar. Nem sei se ela quer ser candidata, acho que ela está interessada noutras coisas, não sei se quer, se não quer, mas não é altura para falar nisso. Nem creio que neste momento seja muito importante. Os candidatos não se inventam.

Obs – Surgem naturalmente?
MA – Surgem. Eu por acaso sou um exemplo disso na minha primeira candidatura. Diziam que eu ia ser um soufflé e mais isto e mais aqueloutro, mas sem o apoio de ninguém e contra candidatos que não eram brincadeira, Cavaco Silva, Mário Soares, Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, que foram todos em força, bem…

Obs – 1 milhão de votos!
MA – Mais de 1 milhão, 21% dos votos, sem apoio de ninguém.

Obs – Portanto, quem quiser seguir em frente numa candidatura à Presidência da República não deve estar à espera dos apoios partidários, tem de avançar.
MA – Tem de haver uma corrente nesse sentido. Eu não tinha endoidecido nem sequer estava muito interessado nisso, entrei mais por irritação que por outra coisa, mas verifiquei que havia uma corrente nesse sentido, havia mensagens de todo o lado, havia uma corrente nesse sentido. As pessoas queriam algo de novo e apontaram para mim, podia ter sido para outro, mas foi para mim. E é difícil que isso volte a acontecer, com aqueles resultados.

Obs – Estamos perto do final desta conversa, o Partido Socialista faz este fim de semana, no domingo, 47 anos, o Manuel Alegre vai participar nestas comemorações, vai fazer uma conversa nas redes sociais. O Manuel Alegre já disse em tempos que às vezes no partido se sentia tratado como inimigo, mas agora está nestas celebrações, está rodeado de gente, ainda que haja este distanciamento social. Consegue achar alguma graça a esta forma de juntar pessoas?
MA – Pediram-me e acho que é uma boa ideia, acho que é preciso conhecer melhor a história do Partido Socialista, sobretudo os mais novos. É uma história mal conhecida, sobretudo a história do Partido Socialista desde o primeiro congresso na legalidade até à aprovação da Constituição. E há uma visão redutora do que foi esse processo nos primeiros anos. Fala-se muito dos militares, claro que os militares tiveram importância primeiro porque derrubaram o regime. Mas o processo de conflito foi de conflito ideológico – de um lado estavam os que tinham radicalizado a revolução, que queriam ir para a frente com os militares e apoiar um processo que levaria a uma espécie de Indonésia ou à instauração de um regime semelhante àquilo que existia na Europa de leste; e do outro estavam os que queriam acima de tudo uma democracia política, uma democracia com direitos sociais, evidentemente, mas uma acima de tudo uma democracia política. E esse combate foi um combate liderado desde o princípio pelo Partido Socialista. Nós mostrámos ao mundo que era possível passar de uma ditadura para a democracia sem cair numa nova ditadura. Fizemos isso numa situação revolucionária. E isso abriu caminho à transição democrática da Espanha, da Grécia, do Brasil e de outros países.

“Não escrevo poemas a políticos”

Obs – É isso que se vai assinalar ao longo da próxima semana e começa já este fim de semana com estes 47 anos do Partido Socialista que vão ser celebrados de forma ligeiramente diferente. Manuel Alegre, estamos perto de terminar esta nossa “Vichyssoise”, sei que nos trouxe uma música para terminar, mas antes vamos à “Carne ou Peixe” – as nossas perguntas de resposta rápida. Manuel Alegre, preferia passar esta quarentena com Cavaco Silva ou Passos Coelho?
MA – Com Cavaco Silva.

Obs – Já enviou uma carta aberta ao PM sobre touradas. Preferia um país sem corridas de touros ou sem celebrações do 25 de Abril na AR?
MA - Com corridas de touros e com celebrações do 25 de Abril na AR.

Obs – Está a fintar-nos (risos). Escreveu um poema sobre Lisboa nos tempos de pandemia. Nestes tempos, se tivesse de o fazer, a quem escreveria um poema, a António Costa ou Marcelo Rebelo de Sousa?
MA – Não escrevia nem a um nem a outro.

Obs – É só Lisboa mesmo?
MA – Não escrevo poemas a políticos. Nem nunca escrevi odes ao Estaline nem ia escrever poemas, elegias ou odes…

Obs – Que voz mais gostou de ouvir cantar um poema seu? Zeca Afonso ou a sua filha Joana Alegre?
MA – Olhe, as vozes que eu mais gostei de ouvir cantar poemas meus foram Adriano Correia de Oliveira e Amália Rodrigues.

Obs – A pergunta não era inocente, é precisamente com a voz da sua filha Joana a cantar um poema seu que vamos terminar.
MA – É uma coisa que tem a ver com a conversa que julguei que íamos ter, que era uma conversa sobre o que se está a passar – a pandemia, a contenção, as pessoas metidas em casa, que é também uma forma de resistir, as ruas desertas e Lisboa que, mesmo nas ruas desertas, apesar de tudo, ainda resiste.

Obs – O poema é de Manuel Alegre, que o escreveu nestes dias de distanciamento social, “Lisboa ainda”. A voz é de Joana Alegre.
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