"Amália, mais do que ela, é todos nós"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre ao DN:
"Não aceito que os mais velhos sejam confinados até novembro"
25-04-2020 João Céu e Silva, DN

"Nunca esperei viver isto. Fiz a guerra, estive preso e dez anos no exílio, foi muito duro, mas era a minha luta. Tinha 20 e tal anos e muita vida à minha frente." Este é o desabafo de Manuel Alegre perante a hipótese de que os mais velhos devem manter-se em quarentena até novembro: "Há uma grande preocupação em proteger os mais idosos, mas não aceito que essa proteção signifique prender-me em casa. Já não tenho tempo para isso, nem eu nem muitos outros. Interessa-me a vida enquanto puder vivê-la como ela é. Quero ver crescer os meus netos e sabemos tomar as precauções, até autoconfinar, mas o confinamento obrigatório além de certos limites equivale a uma prisão, é inconstitucional e um atentado à liberdade."

Este não é o único desabafo de Manuel Alegre: "Tenho admiração, amizade e respeito por Ramalho Eanes, com quem vivi alguns dos momentos duros e de perigo no pós-25 de Abril, mas não concordo com a frase que ele disse e que foi muito louvada por certa gente pseudomoralista: a de que cedia o ventilador a alguém mais novo em perigo. Porque nesta situação em que estamos a viver, as pessoas são iguais e todos devem ser tratados por igual. É esse o exemplo que os médicos estão a dar ao terem conseguido salvar um doente com 100 anos. Não depende da idade, mas da fibra, das condições físicas e da capacidade de resistência de cada um. Não vamos iniciar um caminho de eutanásia noutro sentido ao retirar o ventilador aos mais velhos."

Encabeçou a maior polémica desta pandemia: a celebração do 25 de Abril na Assembleia da República. Só podia ser esta a sua posição?
Eu não sou sequer o autor da petição, apenas um subscritor. Fui contactado e estava de acordo porque havia um abaixo-assinado violento contra a celebração do 25 de Abril, e como considero que se a deve fazer, sem qualquer espírito de desforra ou de ressentimento, antes o mesmo espírito de tolerância que fez que os perseguidos não se transformassem em perseguidores. Eu e muita gente não vê o 25 de Abril como uma data de divisão, mas, como disse o filósofo Eduardo Lourenço, a liberdade feita vida. Sobretudo, a instauração de um sistema democrático e pluralista em que os portugueses puderam finalmente conviver pacífica e livremente na diversidade das opiniões. Além de que muitos dos que se manifestam contra o 25 de Abril devem-lhe o direito de o fazer e até estão a homenageá-lo.

No entanto, a polémica não mostra isso?
Não a considero uma polémica, é uma resposta a essa petição contra a comemoração e em que se diz algo muito simples: "A democracia não está suspensa nem prestes a sê-lo e saudamos a homenagem que o povo e o Parlamento prestam ao 25 de Abril." Eu nem sabia que iria aparecer à cabeça dos subscritores, mas tenho muita honra nisso. A Assembleia da República tem funcionado e algumas das pessoas que contestam até se pronunciaram veementemente contra a eventualidade de fechar. Portanto, seria muito estranho que em pleno estado de emergência fechasse nesse dia, que é precisamente o dia fundador da liberdade. É natural, legítimo e necessário que neste período em que vivemos a Assembleia celebre o 25 de Abril.

Essa exceção não levará a um 1.º de Maio nas ruas?
Acho que não. Quanto ao 1.º de Maio, como não sou sindicalista, não exprimo qualquer opinião. No que respeita ao 25 de Abril, houve um exagero e um aproveitamento político do estado de emergência para suspender a celebração. As autoridades sanitárias já consideraram que não há risco se se seguir as suas instruções.

É uma disputa ideológica entre a direita e a esquerda?
O 25 de Abril é uma data de união. Presto homenagem a pessoas como Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa e outros antigos dirigentes do CDS que tiveram um papel importante ao trazer para a democracia pessoas que nunca tinham sido convertidas à democracia. Esse CDS também faz parte do 25 de Abril.

Que não é o CDS atual?
Esse é outro problema, que terá a ver com a existência do Chega e as boas sondagens que tem, que terão perturbado o CDS. Ou talvez estes dirigentes sejam diferentes - não os conheço.

"Ouvi o meu camarada João Soares... Creio que se ele estivesse informado de como tudo acontecerá provavelmente não se teria manifestado daquela maneira. Mas é o direito dele."

Mas concorda que foi o único momento que dividiu os portugueses nesta quarentena?
Quem é que tomou a iniciativa de fazer esse primeiro abaixo-assinado? A celebração na Assembleia foi decidida por maioria pelos líderes parlamentares e o seu presidente, que têm toda a legitimidade para o fazer. Até se pode discutir a forma e a modalidade, mas nos últimos dias chegou-se a um ponto de equilíbrio e será saudável que se celebre deste modo o 25 de Abril. Há pessoas que não gostam, estão no seu direito, mas não recorram a argumentos capciosos e que nada têm a ver com a questão em si.

Trata-se de um aproveitamento político?
Houve sempre uma divisão, pois o 25 de Abril foi uma rutura e existiu sempre quem não gostasse muito e se identificasse mais com o regime anterior.

Há também socialistas contra.
Não há muitos. Ouvi o meu camarada João Soares... Creio que se ele estivesse informado de como tudo acontecerá provavelmente não se teria manifestado daquela maneira. Mas é o direito dele.

Usou uma expressão curiosa: iriam chamá-lo de "facho"...
Ninguém faria isso, nem eu chamo facho àqueles que não concordam com a celebração. Quero antes que seja um momento de unidade como aquele que uniu exemplarmente os portugueses no combate ao coronavírus. Seria bom que não se caísse no vírus do populismo, que não nos deixássemos atingir por esse vírus nefasto do populismo.

Nem o Chega nem o Iniciativa Liberal têm estado muito ativos.
Sim, têm sido mais moderados. O atual líder do CDS foi o mais ativo e outro deputado que num debate televisivo teve - vou ser cuidadoso na escolha da palavra - uma crispação que há muito tempo não se via. Até porque estamos num momento próximo do fim do estado de emergência e a entrar com todas as cautelas no período que se segue para evitar um rombo maior na economia.

Vai estar na celebração no Parlamento?
Não. Eu já não sou deputado e estou confinado por razões de idade e sanitárias. Sou dos que estão obrigados a não sair de casa.

"Não é só a economia e a saúde que estão a sofrer prejuízos incalculáveis, é um modo de vida que acabou. Sabemos o que está a acabar, desconhecemos o que irá nascer."

Os ex-presidentes Sampaio e Cavaco também estarão ausentes.
Jorge Sampaio não vai pelas mesmas razões que eu. Quanto a Cavaco não sei, não explicou - nem tem de o fazer. A Assembleia é a casa da democracia e dos deputados, por isso a celebração deve ter o atual Presidente e dirigentes dos diferentes partidos, porque somos uma democracia pluripartidária.

Esta não é uma polémica caricata que até faz lembrar as de Bolsonaro e as de Trump?
Caricata não é, mas há um tom inédito. Não insultei ninguém, nem as pessoas que comigo assinaram a petição, mas ouvi do outro lado uma linguagem - designadamente nas redes sociais, dizem-me - que se aproxima muito do populismo que hoje é outro tipo de vírus que infesta uma parte dos países como o Brasil, os Estados Unidos, a Hungria, a Polónia e até mais perto de nós.

Qual é sua opinião sobre a resposta do Governo a esta pandemia?
Acho que António Costa liderou com inteligência, determinação e bom senso a resposta a esta pandemia, preservando os valores democráticos, além de uma capacidade de diálogo importante junto das outras forças políticas e dos órgãos de soberania. Isso foi muito importante porque é uma dificuldade que tem existido, por exemplo, em Espanha, e que em nós foi substituída pelo diálogo. Além da boa parceria com o Presidente da República.

Houve uma boa convivência institucional entre o Presidente e o primeiro-ministro?
A preocupação dominante tem sido vencer o coronavírus, achatar a curva, preservar e reforçar o Serviço Nacional de Saúde SNS e tentar conciliar algo que não é fácil: o combate ao vírus com a preservação da saúde pública e ao mesmo tempo tentar o mesmo na economia, e levar ajuda àqueles que foram já gravemente atingidos. Estão a gastar-se milhões de euros na ajuda aos trabalhadores que estão em lay-off. Essa foi uma medida positiva, embora não tenhamos ilusões de que nada vai ser como era antes e, quando hoje se fala de retoma, existe uma ideia de que tudo voltará ao mesmo. Não vai ser assim; há hábitos, gestos e atitudes de proximidade que serão diferentes, bem como os comportamentos cívicos e culturais, e o mesmo acontecerá na economia. Não estou a ver aviões cheios de turistas a desembarcar em Lisboa ou no Algarve. Há um certo modo de vida que foi atingido e com certeza demorará muito tempo a recuperar. Contudo, se temos uma emergência sanitária e económica, ela é também cultural. Não é só a economia e a saúde que estão a sofrer prejuízos incalculáveis, é um modo de vida que acabou. Sabemos o que está a acabar, desconhecemos o que irá nascer.

No caso da cultura, que tem animado quem está em quarentena, como irá recuperar?
A cultura está a sofrer muito, basta ver que as livrarias e as editoras estão fechadas e os escritores têm os seus livros parados. Que o mesmo se passa com os teatros, os atores e os músicos, entre outros. Os poderes públicos deveriam ter uma grande preocupação com o setor da literatura, que é essencial, bem como com outras formas de arte.

Em Itália, a primeira loja a abrir nesta semana foi uma livraria da Feltrinelli...
A Itália é um grande país e uma enorme capital da cultura na Europa e no mundo. Isso tem valor simbólico grande e é inspirador.

Tinha um livro para sair no próximo mês. O que lhe vai acontecer?
Fui o primeiro a dizer para parar o processo desse livro mal vi o que se estava a passar devido à epidemia, o fecho das livrarias e das editoras, que não iria haver Feira do Livro de Lisboa. Apenas desejo que seja publicado tão rapidamente quanto possível.

Pelo que sei são memórias. O que revelará?
Não lhe chamaria isso, até porque não tenho um arquivo pessoal do tempo em que está este primeiro volume: infância, adolescência, tempos de Coimbra, tropa e guerra, prisão, clandestinidade e exílio. Portanto, deixei fluir a memória e, parafraseando o Walt Whitman, é uma espécie de romance de mim mesmo. Não é ficção, mas factos de quem teve uma vida intensa.

Há partes que não quis contar?
Há sempre alguma contenção, porque não gosto de exibicionismo e tento ser fiel aos factos e à memória. A segunda parte será mais complicada, porque envolve a história mais recente e pessoas que estão vivas. Irei contar situações que não quero ocultar ou omitir, no entanto não desejo criar polémica. Até porque os tempos são outros e tudo se passou há muito tempo; a vivência que se teve há mais de 40 anos é uma coisa e a memória que dela se tem é outra.

No que respeita à história do 25 de Abril, considera que os protagonistas e as personagens têm deixado registada a participação?
Alguns sim, mas nestas coisas conta-se por norma a visão do próprio e há livros que são mais autojustificações, mas é de várias versões e visões que se tem a mais global.

"Já assisti a várias coisas no mundo e ouvi certas versões que me fazem desconfiar da história que nos é contada."

A sua opinião sobre os acontecimentos do pós-1974 mantém-se igual ou mudou?
O que interessa é dizer o essencial do que ficou e saber que revolução celebramos. Numa revolução existem sempre várias revoluções e contrarrevoluções, daí que alguns considerem que o 25 de Abril foi uma revolução incompleta e perdida. Eu comemoro a revolução democrática, dos três D do programa do MFA - democratizar, descolonizar e desenvolver - e nessa perspetiva a Revolução do 25 de Abril não é perdida, antes vitoriosa, independentemente dos muitos episódios que ocorreram há quase meio século. Acho até que é uma revolução original porque os militares derrubaram o regime e não guardaram o poder para si. Talvez seja o único país do mundo em que, apesar das situações de conflito que houve, devolveram o poder às instituições democráticas sufragadas pelo voto popular. Por outro lado, também é uma revolução pioneira porque mostrou que era possível passar de uma ditadura para a democracia sem cair numa nova ditadura. Foi a primeira vez que numa situação revolucionária tal aconteceu, mesmo que se vivesse uma situação em que estivemos muito perto de um conflito terrível. É por o 25 de Abril ter mostrado que se podia passar da ditadura para a democracia que se abriu caminho à transição democrática em Espanha, Grécia, Brasil e noutros países da América Latina. O Samuel Huttington escreveu que a revolução portuguesa tinha inaugurado a terceira vaga democrática. Aliás, o Salgado Zenha também dissera antes uma frase parecida, que foi o primeiro de um conjunto de factos que iniciaram no mundo uma nova era. É verdade, porque teve uma dimensão ética em relação à justiça social, em que todos os partidos da esquerda à direita inscreveram nos programas iniciais o direito à habitação, ao ensino, à cultura e à segurança social. Tudo isso está na Constituição. Podem existir conceções diferentes sobre a forma de os concretizar, mas não se pode esvaziar o seu conteúdo sob pena de enfraquecer os direitos políticos e a democracia.

Quando diz que os militares saíram de cena, só o fizeram obrigados pois envolveram-se em lutas políticas e seguraram-se ao Conselho de Revolução até poderem...
Acho que existe uma visão redutora ao ver o 25 de Abril como um conflito entre militares. Claro que houve militares que se radicalizaram e juntaram-se às forças que queriam uma revolução popular e instaurar aqui um regime semelhante àqueles que existiam em países da Europa de Leste, na China; uns queriam a Albânia, outros a União Soviética e uma revolução marxista-leninista nas suas diferentes interpretações. Outros militares queriam manter-se fiéis ao programa inicial do MFA, mas durante muito tempo não houve conflito mas sim uma luta política e ideológica entre as forças políticas que tinham diferentes conceções sobre o 25 de Abril e que se defrontaram na rua. Aqueles que queriam a democracia política e uma representação pluralista e pluripartidária tiveram uma força política que liderou esse processo, o Partido Socialista. Só depois da grande manifestação na Alameda é que surge a manifestação pública do Grupo dos 9, a 6 de agosto. Até aí, a luta política na rua de quem estava do lado de uma revolução socialmente avançada, que defendia as eleições e a Assembleia Constituinte, era liderada pelo PS e tinha como principal figura Mário Soares. Da parte dos militares, houve os que acompanharam sempre esse processo, embora sem conflito armado, como o Melo Antunes, o Vasco Lourenço, o Salgueiro Maia ou o Vítor Alves, entre outros. E foi do núcleo mais ligado ao gonçalvismo que atacaram a base aérea em Lisboa. Temos a memória disso, mas tudo foi resolvido.

Os historiadores irão dar uma perspetiva correta desses tempos?
​​​​​​​Já assisti a várias coisas no mundo e ouvi certas versões que me fazem desconfiar da história que nos é contada. Creio que tem havido uma visão redutora ao ver o 25 de Abril apenas como um conflito entre militares revolucionários e os moderados ou contrarrevolucionários. Houve visões diferentes entre militares, sim, mas o confronto político foi entre as forças políticas e sociais, bem como a paixão política, que surgiram após quase meio século de ditadura. As pessoas libertaram-se e era quase inevitável que acontecesse um conflito político e ideológico entre o que deveria ser o 25 de Abril.

"Nós, os mais velhos, somos responsáveis e sabemos tomar precauções. Sabemos até autoconfinar se for caso disso, mas o confinamento obrigatório além de certos limites equivale a uma prisão. E, repito, é inconstitucional e um atentado à liberdade."

Estamos a viver um momento em que se "ressuscita" o SNS. Surpreendeu-o?
Por mim não se está a ressuscitar, eu trato-me no SNS, vou lá várias vezes, e sempre o vi funcionar muito bem. É claro que com o resgate da troika sofreu um golpe rude, muitos médicos que foram os criadores do SNS atingiram a idade da reforma e isso foi uma baixa grave. O SNS não é só tratar das pessoas, foi também a investigação, e devemos à qualidade dos nossos médicos e profissionais de saúde a maneira como aguentaram este embate da covid-19, como se reorganizaram e se reinventaram, mesmo quando tinham menos recursos do que agora já têm. Houve uma grande campanha contra o SNS, muita gente queria acabar com ele ou transformá-lo num serviço caritativo para pobres, como dizia o António Arnaut. No entanto, agora foi o SNS que nos valeu e mostrou perante a maior pandemia nos tempos modernos aquilo que vale e do que é capaz, e devemos aos seus profissionais a capacidade de sacrifício e de correr o risco de vida ao serem infetados.

Já a situação da comunicação social está muito mais complicada. Teme o fim de uma imprensa livre?
É uma situação preocupante, principalmente com a importância particular que tem a comunicação social na nossa vida. É indispensável tanto para dar notícias como para garantir a liberdade de informar e ser informado, e até o direito ao debate e à controvérsia. Já não há comunicação social estatizada, embora na altura eu e o Mário de Sottomayor Cardia nos tenhamos pronunciado contra a privatização do Diário de Notícias, pois sempre considerámos que assim como deveria haver uma televisão e uma rádio públicas, também deveria existir um jornal do Estado. Mas os tempos mudaram muito, veio a moda de privatizar - tudo o que era público era demoníaco e tudo o que era privado era angélico -, e agora esta pandemia mostra que em tempo de emergência sanitária volta-se a valorizar o que é público, e mesmo os campeões do liberalismo e da privatização voltam a recorrer ao Estado. A situação da imprensa merece grande atenção e o Estado deve preocupar-se. Se há ajudas para bancos e empresas privadas, também tem de haver ajudas para a comunicação social. Não podemos deixar que a imprensa morra ou que caia em estado de coma.

Como está a viver esta quarentena?
Nunca esperava viver isto porque fiz a guerra, estive preso e dez anos no exílio. Tudo foi muito duro, mas era a minha luta e tinha 20 e tal anos e muita vida à minha frente. Agora já não tenho muita e fico preocupado. Há também muita preocupação em proteger os mais idosos, mas eu não aceito que essa proteção signifique prender-me em casa. Já não tenho tempo para isso, nem eu nem muitos outros. Interessa-me a vida enquanto puder vivê-la como ela é. Quero ver crescer os meus netos e que não se receie que eles infetem os avós. Nós sabemos tomar as precauções necessárias.

O que quer dizer com estas palavras?
Que não aceito que tenhamos de ficar confinados até novembro. Não aceito ser preso dessa maneira, o que aliás é inconstitucional e um atentado à liberdade individual. Nós, os mais velhos, somos responsáveis e sabemos tomar precauções. Sabemos até autoconfinar se for caso disso, mas o confinamento obrigatório além de certos limites equivale a uma prisão. E, repito, é inconstitucional e um atentado à liberdade.

Nem todos pensam assim...
Da mesma maneira que tenho admiração, amizade e respeito por Ramalho Eanes, com quem vivi alguns dos momentos duros e de perigo no pós-25 de Abril, devo dizer que não concordo com aquela frase que ele disse, e que foi muito louvada por certa gente, de que cedia o ventilador a alguém mais novo em perigo. Não é assim e, mesmo que isso até possa ter sido mal interpretado, nesta situação as pessoas são todas iguais e todas têm de ser tratadas por igual. Eu lutarei pela minha vida enquanto puder e pela de todos os velhos, e os médicos estão a dar o exemplo ao terem conseguido salvar um doente com 100 anos e várias senhoras de 90 e tal. Não depende da idade, depende da fibra, das condições físicas e da capacidade de resistência e de resiliência de cada um. Isto não se mede pela idade, embora se saiba que os mais velhos estão mais frágeis, no entanto são os próprios médicos, cá e lá fora, que dão o exemplo no modo como tratam os mais frágeis e os mais idosos. Não vamos iniciar um caminho de eutanásia noutro sentido ao retirar o ventilador aos mais velhos. A intenção dele foi boa, mas a frase foi logo interpretada pelos pseudomoralistas que convidaram todos os velhos a entregar os ventiladores ou a fazer eles próprios eutanásia e deixar-se morrer. Isso não.