"A grande poesia não cabe num tweet"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre em artigo no Público:
Libertação
30-06-2021 Manuel Alegre, Público

O Presidente da República não devia ter dito o que disse na Cidade do Futebol onde foi receber a Selecção Nacional. Não é especialista, nem comentador, nem dirigente da federação e não lhe competia afirmar que tudo foi bem feito. Não foi. Comentadores e especialistas são unânimes em reconhecer os erros e em criticar um sistema de jogo conservador, que limita e asfixia a criatividade dos jogadores.

As palavras do Presidente, independentemente das intenções, podem ser interpretadas como uma ingerência ou uma caução a manter tudo como está, inibindo a crítica e a indispensável mudança de atitude.

Já se tinha ido longe de mais quando se proclamou que os portugueses e os próprios dirigentes políticos deviam estar focados no Euro. A prioridade tem de ser o combate à pandemia e a recuperação do país da crise económica e social. Sou, como o Presidente, um adepto da Selecção Nacional. Mas há outras causas no país. Miguel Sousa Tavares demonstrou, num artigo notável, a teia de interesses que alimenta aquilo a que chama “Ditadura do Futebol”.

Durante estes últimos dias vivemos sufocados pela televisão, pelos comentários, pelo envolvimento dos principais responsáveis políticos. Gosto muito de futebol. Mas confesso que suportei mal a quase imposição de me obrigarem a estar focado no Euro e a concordar com tudo, mesmo com a inverosímil escolha de quem esteve no banco no seu próprio clube. Agora tenho remorso de quase me sentir aliviado.

A Selecção deve ser uma festa, não uma angústia. E o futebol deve voltar a ser aquele jogo que “se joga na alma”, como escreveu Carlos Drummond de Andrade. Não o cinzentismo de um esquema táctico que é um espartilho. Não a dependência. Não jogadores e espectadores domesticados. Não o medo de jogar e de criticar. Não o conluio entre os dirigentes do futebol e os dirigentes do país. Não uma tirania sobre as nossas vidas. A Selecção e o futebol também precisam de ser libertados.