"Quem vota no PS vota na liberdade, não em qualquer forma de extremismo ou dogmatismo, seja ele político ou animalista."
Manuel Alegre
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Manuel Alegre em entrevista à TSF e JN:
"António Costa tem que olhar à esquerda e tem que olhar à direita"
07-11-2021 TSF/JN

"Ele tem a tentação do sul, mas é sobre o norte a última novela que publicou. Foi deputado ao longo de 34 anos mas a sua sensibilidade política foi apurada muito antes, ainda nos tempos de estudante. A poesia cruzou-se sempre com o ativismo e com uma voz inteira, socialista, mas crítica quanto baste. Afastado do xadrez parlamentar, não se afasta da leitura dos dias e dos interesses do país" - assim foi apresentado Manuel Alegre, em entrevista de Domingos de Andrade e Inês Cardoso.
Leia em baixo a versão publicada no JN ou oiça a entrevista completa na TSF

JN - Afirmou, ainda antes da votação do 0E, que a estabilidade política não é um fim em si mesmo. Antevê um cenário em que volte a ser difícil a formação de maiorias parlamentares claras?
MA - Maiorias de um só partido acho muito difícil. E com a entrada em cena de novas formações políticas, também se alterou. Não antevejo que seja fácil a formação de maiorias claras, maiorias naturais, que surjam do próprio resultado eleitoral. Mas acho que está tudo em aberto. Há uma grande indefinição no país e no mundo. É uma característica da civilização que estamos a viver.

JN - Espanha viveu crises políticas sucessivas e a Holanda atingiu esta semana o recorde de um governo em gestão. A maturidade das democracias vai ser avaliada pela capacidade de governar em minoria?
MA - É sempre possível governar em minoria, isso já aconteceu em Portugal. Mas não é fácil e é preciso de facto uma grande maturidade cívica e política.

JN - E já estamos com essa maturidade?
MA - Eu creio que ainda não. Creio que ainda não chegou cá. Os interesses partidários, o sectarismo, ainda se sobrepõem ao interesse geral. Em países de democracia muito enraizada, em países onde há uma compreensão mais generalizada do que é o interesse nacional e o interesse geral, isso pode ser possível. Mesmo assim, nunca é fácil.

JN - A data escolhida para as eleições serve os interesses do país e dos partidos?
MA - Parece-me uma data sensata e razoável. Se muito cedo deixaria alguns partidos numa situação difícil, perto do Natal, no Ano Novo, etc., para lá de janeiro também seria de mais. Seria um recorde dos recordes.

JN - Considera difícil uma nova geringonça a breve prazo?
MA - Esta geringonça acabou. E é preciso saber fazer o luto desta geringonça. Ela nasceu em circunstâncias muito especiais. Houve mérito, naquela altura, de acabar com o arco de governação, dar uma nova centralidade ao Parlamento, mas esta geringonça acabou. Não quer dizer que não sejam possíveis novos entendimentos políticos, mas com outros critérios.

JN - Com outros protagonistas?
MA - Com outros protagonistas, provavelmente.

JN - Mas novamente à esquerda?
MA - Acredito que não vai ser tão fácil. Acredito que é possível, podem ser necessários e até imprescindíveis, mas com outra exigência e sob a liderança do partido mais votado. Isto é, o Partido Socialista não pode ser uma barriga de aluguer de partidos com menos votos e que depois procuram impor os seus programas à custa do partido mais votado. Isto não é claro, não é certo. Não gostei da maneira como este Orçamento foi abaixo. Não gostei. E também não gostei de ouvir algumas entrevistas. Depois de todo este tempo, depois de tudo o que se fez em conjunto - repuseram-se direitos, rendimentos, deu-se uma volta a muitos dos efeitos colaterais do resgate -, há dirigentes do Partido Comunista que no fundo ainda não saíram daquele ambiente da República de Weimar e tendem a considerar os socialistas como o inimigo principal, enquanto a extrema-direita e os nazis sobem ao poder. Isso não me agrada. E o Partido Socialista tem de defender a sua autonomia, a sua independência estratégica. E tem de saber liderar. O entendimento à esquerda não pode transformar-se numa espécie de mercearia orçamental. Isso não é nada, cria-se a ilusão de que há um projeto de esquerda, não há nenhum projeto de esquerda.

JN - Acha que todos os protagonistas estiveram mal?
MA - Acho que é preciso confiança e respeito mútuo. Tenho dificuldade em negociar com dirigentes políticos que dizem que o PS é um partido de direita. Se querem um entendimento à esquerda não venham dizer que o Partido Socialista é um partido faz políticas de direita. Isso tem que acabar. Eu vejo é que alguns não saíram nem da Revolução de Outubro, nem do assalto ao Palácio de Inverno, nem da consideração do Partido Socialista como inimigo principal e dessa maneira é muito difícil fazer entendimentos que tenham uma base sólida e que sejam de grande estabilidade.

JN - A sondagem que divulgámos nos últimos dias apontava António Costa como o principal responsável por este chumbo. Acredita que o PS vai ser penalizado nas urnas?
MA - É responsável na medida em que é o primeiro-ministro. E em que foi também o pai da geringonça, digamos assim. Agora, eu acho que o Partido Socialista fez um grande esforço de negociação. Todos fizeram. Quando há negociações há sempre responsabilidades partilhadas. Penso que as próximas eleições vão ser duras. Mais duras do que as pessoas julgam. Nós não sabemos ainda quem é que vai liderar a direita, se é o dr. Rui Rio, se é o dr. Paulo Rangel.

JN - E essa escolha à direita pode alterar, por exemplo, a perspetiva de voltarmos a ter o bloco central que alguns agora voltam a desejar?
MA - Não. Não creio que as coisas estejam relacionadas e é muito cedo para estar a fazer cenários dessa natureza. Creio que as eleições vão ser muito disputadas, de uma maneira ou de outra. O PS ganhou as eleições autárquicas, mas perdeu 250 mil votos. Perdeu algumas das principais cidades do país. Perdeu Lisboa, Lisboa é um aviso. São sinais de algum cansaço, sinais de que há alguma vontade de mudança. Até onde é que isso vai ou não, não sei. O queé absurdo é acusar-se o Partido Socialista de ter provocado uma crise para atingira maioria absoluta. Ora, o PS não chegou à maioria absoluta quando as condições eram muito mais propícias. Ia fazer uma aposta destas, num momento em que a situação é muito mais complicada? Não tem sentido. São desculpas de mau pagador.

JN - A fragmentação da Assembleia da República poderá levar o presidente da República a exigir acordos escritos?
MA - Uma coisa é verdade: a geringonça na primeira parte, que foi a única verdadeira, o presidente Cavaco Silva exigiu - não vou agora julgar a intenção - os acordos escritos, mas aquilo funcionou. Funcionou de outra maneira.

JN - Portanto haveria de ser exigido agora também?
MA - Penso que teria sido melhor. As coisas teriam corrido de outra maneira e o resultado, porventura, teria sido diferente.

JN - Entende que António Costa tentará capitalizar mais o centro, os eleitores moderados?
MA - Ele não pode esquecera esquerda, porque é o líder do maior partido da esquerda. Mas também não pode esquecer o centro. O Partido Socialista foi sempre, como o Mário Soares dizia, o partido charneira. E no dia em que o deixar de ser, deixará de ter a força que tem tido até agora na democracia portuguesa. Portanto, ele tem que olhar à esquerda e tem que olhar à direita. E tem que ouvir para fora de si próprio, os partidos estão muito voltados para dentro, muito autocentrados, é preciso ir buscar as forças dinâmicas da sociedade, à universidade, ao empreendedorismo, a todos aqueles que criam a riqueza, que descobrem coisas novas, que têm uma atividade positiva na sociedade. É preciso ouvi-los e é preciso novos protagonistas, uma nova estratégia, um novo discurso, novas caras, novos protagonistas.

JN - Receia que o chumbo do Orçamento alimente o populismo e o crescimento de movimentos como o Chega?
MA - Vai alimentar o Chega, pode ser um dos beneficiários. Depende de quem for à batalha, de quem estiver à frente do PSD e do que derem as sondagens nessa altura. Porque pode haver uma grande tendência bipolarizadora, entre o PS e o principal partido do centro-direita.

JN - Qual deve ser o papel do presidente da República nos tempos que se avizinham?
MA - O papel do presidente da República está bem definido na Constituição, mas tem sempre uma magistratura de influência. Embora, por vezes, mais um bocadinho de contenção… Eu digo isto com amizade pelo presidente, amizade pessoal e política, não faria mal se fosse um pouco mais contido. Não gostei de ver o presidente a falar aos jornalistas num momento em que na Assembleia se iniciava o debate do Orçamento. O presidente tem momentos em que tem que intervir e outros em que tem que estar mais sossegado. Se for capaz.

JN - Podemos ver no CDS risco de esgotamento de um projeto?
MA - Pode haver um ou outro partido que desapareça. Não quero fazer vaticínios, nem quero ajudar ao desastre. Eu acho que o Chega pode subir, mas não vivo muito atormentado por isso. Não se deve subestimar e outras coisas podem aparecer. O melhor é não facilitar. Agora, que há um certo cansaço, há uma certa descrença em relação aos políticos, uma certa desvalorização da política. As instituições não têm ajudado, nomeadamente o Parlamento. Eu peço desculpa, não quero ofender ninguém, mas estive muitos anos no Parlamento, lembro-me do que foi o Parlamento em momentos decisivos da vida nacional e do que é hoje. Há uma diferença e isso qualifica e desqualifica, é assim mesmo.

JN - Vê o mesmo problema no Governo e nas autarquias, a dificuldade de chamar os melhores à política?
MA - Talvez nas autarquias menos. Antera de Quental dizia que ao nível autárquico as reformas são mais democráticas, mais populares e mais profundas, e normalmente aí o eleitorado tem outra capacidade de escrutinar, estão mais perto. No Governo… bom, eu já vi governos com ministros mais qualificados.

JN - Também a Europa tem vivido momentos de crise. Questões como as migrações e a crise de refugiados têm sido mal resolvidas?
MA - É verdade. Há países que têm problemas complicados e isso tem favorecido a emergência, em força, do nacionalismo, da ultradireita. Um dos países é a França, e há outros que têm dado respostas mais inteligentes, mais solidárias, como é o caso da Alemanha, mas há muita coisa que está por resolver na Europa.

JN - Recentemente temos discutido muito o nosso passado colonizador. Considera que estamos a retirar determinados momentos do seu contexto ou faz sentido esta visão de que é preciso reparar o passado e apagar alguns dos registos que o louvam?
MA - O espírito crítico nunca fez mal a ninguém, e nós devemos olhar para a História com espírito crítico. Agora, não vamos passar a vida a pedir desculpa, porque senão não fazíamos outra coisa, nós e outros países, se não pedir desculpa uns aos outros e pedir desculpa pelo facto de existirmos, porque a História é uma sequência de crueldades, de violências e de injustiças, mas eu não vou pedir desculpa pela viagem do Gama, não vou pedir desculpa pelo Camões, nem pelo Pedro Álvares Cabral. Acho que foi um erro grande que o meu camarada Medina fez não ousar fazer o Museu das Descobertas. Tudo isso é compatível com a discussão do que foi o racismo, do que foi o comércio dos escravos, etc. Tinha 26 anos quando tive que ser oficial em Angola, estive preso numa cadeia pela PIDE, onde não estiveram nenhuns, porque eram muito novos, desses pretensos descolonizadores de Portugal. Cumprimos o nosso papel, lutámos contra a guerra colonial, contra o fascismo, fizemos a descolonização. Podia ter sido melhor? Podia. Quando há uma guerra que dura 14 anos, nunca vi uma guerra colonial acabar bem. Isto não quer dizer que eu não seja favorável ao espírito crítico. Nós falamos mal, falamos muito pouco da escravatura. Agora, pôr em causa toda a nossa História, ou estarmos a pedir desculpa, não se pede desculpa. Aliás, Karl Marx dizia que "o julgamento moral obnubila o conhecimento da História". Era bom que alguns desses pretensos dadores de lições de moral lessem também alguns desses clássicos.

Ouça a entrevista completa na TSF