"A grande poesia não cabe num tweet"
Manuel Alegre
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Importante artigo de Manuel Alegre no Público:
Voto PS, não voto PAN
18-01-2022 Manuel Alegre, Público

Não compreendo como é possível o PS colocar-se na eventual dependência do PAN, partido que subverte o primado da pessoa humana e os fundamentos humanistas da nossa sociedade. Se tal acontecesse, votar PS seria como votar contra mim mesmo, contra o que gosto de fazer, como caçar e pescar.

O PS tornou-se um grande partido nacional ao preservar a sua autonomia política e estratégica quando, em 1974-75, derrotou os que pretendiam torná-lo satélite do vanguardismo político-militar. Dei a minha ajuda com o discurso que fiz no Congresso realizado em Dezembro de 74 na Aula Magna. Sob a liderança de Mário Soares, o PS conduziu então, em aliança com os militares do Grupo dos Nove, o combate pelo rumo democrático do 25 de Abril. Depois da institucionalização da democracia, a partir de certa altura, o PS ficou refém do chamado arco da governação, em que parecia condenado a ser uma espécie de ala esquerda do centro direita.

António Costa teve o mérito de acabar com os traumas resultantes do Verão quente e de pôr fim ao tabu do arco da governação. Também dei uma pequena ajuda com os discursos que fiz em 2015 nos comícios de Lisboa e de Coimbra e na carta que, após a declaração de Jerónimo de Sousa na noite das eleições, escrevi ao secretário-geral do PS. António Costa reabilitou a centralidade do Parlamento e formou um governo apoiado pelo PCP e pelo BE, a chamada “geringonça”, que repôs direitos e rendimentos e, sobretudo, fez renascer a esperança. Mas depois da primeira legislatura, alicerçada num acordo escrito exigido pelo Presidente Cavaco Silva, as coisas não correram tão bem. Para não pôr em causa a convergência, Costa declarou que o seu governo acabaria no dia em que tivesse de negociar um orçamento com o PSD. Tal facto resultou da fidelidade à palavra dada.

Mas o PS passou a estar dependente da posição de cada um dos seus parceiros de esquerda. E foi aí que começou a crise que levou à absurda posição de dois partidos da esquerda juntarem os seus votos à direita para chumbarem um orçamento progressista, abrindo-se, assim, uma crise política. Não é possível ignorar o problema de confiança.

Por isso apoio a posição do PS no sentido da obtenção de uma maioria que liberte o governo de novos constrangimentos e dependências. E por isso não compreendo como é possível o PS colocar-se na eventual dependência do PAN, partido que subverte o primado da pessoa humana e os fundamentos humanistas da nossa sociedade. Se tal acontecesse, votar PS seria como votar contra mim mesmo, contra o que gosto de fazer, como caçar e pescar, algo que faz parte de uma cultura de vida e de relação com a natureza. Não só para mim como para muitos milhares de pessoas que se reconhecem no PS. Creio que a cultura de liberdade do PS não o permitirá. Até porque certas opções do PAN, pelo seu excesso, atingem a coesão cultural, territorial e social do país, dividindo a cidade e o campo, hostilizando e menorizando o mundo rural.

Acresce que a hipótese de dois ou três deputados poderem impor por decreto um programa baseado em cortes e proibições, não por força própria, mas com os votos dos partidos, PS ou PSD, a que o PAN se oferece para viabilizar governos, constitui algo que põe em causa a verdade da representação democrática. E é incompatível com a história e natureza do PS, partido de liberdade e tolerância, que sempre respeitou a pluralidade e a diversidade. Por isso, sinto o dever cívico de publicamente afirmar que voto PS, não voto PAN.

O PAN tem o direito às suas opiniões mas não de me obrigar a elas, ainda por cima com o meu voto. Quem vota no PS não o faz para que dois ou três deputados acabem com a pecuária, a caça e a pesca desportiva e outros seculares costumes e tradições do povo português. Quem vota no PS vota na liberdade, não em qualquer forma de extremismo ou dogmatismo, seja ele político ou animalista.

Por isso, sem excluir futuras convergências, em novas condições, à esquerda, defendo, nestas legislativas, uma maioria que permita ao PS recuperar a sua autonomia política e estratégica sem ficar refém de quem quer que seja, muito menos do PAN.

A esquerda tinha uma maioria. Não soube cuidar dela. O risco, agora, não está numa maioria do PS, mas no retrocesso que implicaria uma maioria de direita.