"Por vezes tive a sensação de que um discurso pode mudar as coisas"
Manuel Alegre
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Vamberto Freitas sobre "Tentação do Norte"
Manuel Alegre Na Sua Grandeza De Prosa e Poesia
07-01-2022 Vamberto Freitas, Açoriano Oriental

E nós, Ju? Será que o nosso encontro já prescreveu? Apeteceu-me ir atrás do homem, obrigá-lo a falar e a dizer quem me denunciou. Depois lembrei-me de ter andado a pregar que os perseguidos não deveriam transformar-se em perseguidores.
Manuel Alegre, Tentação do Norte

Os detratores de Manuel Alegre, quase todos sem história política de valor e muito menos de literatura, podem vociferar à vontade. A grandeza não se consegue nem em muita da nossa política nacional, e muito menos em comentários ocasionais e improvisados numa Imprensa inconsistente, dogmática e por vezes tão estúpida como um burro em busca de comida e algum carinho.

A vida deste poeta e prosador está estampada em toda sua escrita, que toma várias formas, mas sempre batendo na temática quase primordial num país tão velho e grandioso como o nosso. Tentação do Norte, a sua mais recente novela, é disso um testemunho artístico e, suponho, algo autobiográfico, rente a uma longa vida de corajosa luta pela dignidade de uma nação que só conheceu regimes absolutistas, pretensiosos, e de quando em quando de grande coragem pela sua luta heroica e soberania numa Europa que muito pouco nos teve a oferecer até aos dias de hoje, para além dos seus pensadores e artistas de várias formas e linguagens, e algum dinheiro.

Combinar a grande política, primeiro clandestina e depois em aberto, pública, com a grande literatura no nosso tempo (não esqueço Garrett e uns tantos mais do passado quase esquecido) não é e nunca foi uma característica das nossas figuras públicas. Esqueçam por agora, ou melhor, recordem a poesia e o impacto de Praça da Canção e O Canto e as Armas, e depois a ficção Alma e Jornada de África, entre muitos outros livros do mesmo autor. Ninguém "falou" à nossa geração como Manuel Alegre. A academia poucas vezes ultrapassou os seus próprios preconceitos. Os chamados "teóricos da literatura" dos anos 70 e 80, cá como noutras partes, quase se achavam superiores aos autores que pretensamente "estudavam" e supostamente comentavam. Faltava-lhes a beleza e a destreza das linguagens, como lhe faltava o conhecimento da História.

Não digo nada disto com o sentido de superioridade, antes com o conhecimento que a idade e a leitura me trouxeram. Nomeiem, se assim o desejarem, os nomes desses "críticos" académicos. Que nos dizem hoje? Nada. Manuel Alegre não é o único grande escritor de língua portuguesa, obviamente. Só que é, permanecerá, uma das nossas referências intemporais, a testemunha mais acreditável das nossas tragédias e, sim, dos nossos combates quase bem sucedidos. Não vou seguir a sua trajetória pessoal de combatente à ditadura salazarista. Isso agora faz parte da sua biografia, que outros saberão em melhor pormenor do que eu. Quero dizer, isso sim, de quando descobri a sua obra ainda como estudante e depois professor no Sul da Califórnia. Quando o comecei a ler, no tempo em que eu próprio desprezava o meu país de nascença devido ao regime que me envergonhava, fiquei a saber que havia na minha pátria escritores e combatentes que me deram o orgulho que já me faltava, ou tinha mesmo desfalecido. Leio-o agora com a admiração que me ajudou a devolver o orgulho de ser Português, com outro respeito pela minha própria língua e nacionalidade.

Tentação do Norte é-me difícil de não a associar à sua vida inicial de rebelde e lutador pela nossa recuperação. Trata-se de ficção, é certo, e os nomes dos protagonistas, de um homem e uma mulher que se encontram e desencontram não é importante aqui. Toda a grande literatura é pessoal. O protagonista desta novela deixa o seu amor em nome de uma luta maior. Eu regressei ao meu país, muitos anos depois da nossa libertação, por amor a uma mulher. Quando leio os seus livros, nunca me esquece disso, menos os sacrifícios que Manuel Alegre passou na guerra nojenta de África, e os meses que passou numa prisão da PIDE, depois o exílio na França e os anos seguintes na Argélia ao serviço perigoso de quem denunciava em voz viva e lutava pela libertação do nosso país. Eu não sinto dignidade de ter vestido a farda da tola Mocidade Portuguesa, em Angra do Heroísmo, e lá, nessa pequena cidade provinciana, nem tinha uma identificação geográfica - não era de uma freguesia chamada Fontinhas (Ilha Terceira), era do "monte". Nunca mais esqueci do meu ano em Angra do Heroísmo. Pelo menos, o grande poeta chamado Manuel Alegre sabia que era de Águeda. Não tenho ódios em mim, não tenho idade para isso. Estou orgulhoso de ti e da tua família, grato pelo teu combate sem tréguas contra os canalhas que fizeram emigrar milhares de famílias para outros lados. Disseste-me um dia que tinhas sido "desterrado" para São Miguel. Não te disse, mas fiquei ofendido. Agora, não. No tempo, não passava disso mesmo.

"Gostava que soubéssemos contar-nos sem efabulações, mas nada é linear, ora é assim ora é não, mistura-se o real e o imaginário, releio o que escrevi e já não sei o que foi e o que não foi, o que é e não é, chego a perguntar se realmente aconteceu. Mas não desisto do nosso encontro. De vez em quando, há-de irromper em mim o impulso inevitável e então partirei, porque sei que estás lá, entre mar e vento, numa praia, ao Norte".

Foi a tua despedida de quem, pelo menos nesta ficção, amavas com toda a tua alma. Isto foi um dos poucos passos na literatura portuguesa que mexeu comigo quase de maneira
misteriosa. Tentação do Norte não é só um livro de despedida de um amor, é a partida de um protagonista para a vida irrequieta e, possivelmente, a morte. A tua prosa é ainda poesia pura. Quem não entende a tua voz altiva, em direto ou em pessoa, não entende nada sobre a escrita suprema de um país que só falava em voz baixa e temerosa das represálias de criminosos bem colocados ou nascidos ou nascidas nos privilégios que herdaram sem trabalho as terras e as cidades de um Portugal sem vergonha, ou para a missa que era, queriam eles, a sua salvação. Para escritores como este autor de Tentação Do Norte, a chamada "realidade" é bem outra. Parafraseando um grande crítico, e outros, a literatura traz outras verdades, é a memória sagrada, para mim, de outras verdades e vidas.

Manuel Alegre, Tentação do Norte,
Lisboa, D. Quixote, LeYa,
Edição de Cecília Andrade, 2021