"Corri riscos, estive com pessoas que pertencem à História. Tudo isso fez de mim aquilo que sou."
Manuel Alegre
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Frederico Lourenço
Frederico Lourenço
Frederico Lourenço sobre Manuel Alegre:
Manuel Alegre, Poeta do Indizível
06-02-2010 Frederico Lourenço

Ler um livro de poemas de Manuel Alegre é chegarmos ao fim com sensação de que a leitura fez de nós seres humanos melhores.

É costume dizer-se em ocasiões de homenagem como esta que o homenageado dispensa apresentações. E seria, de facto, difícil imaginarmos outro homenageado no mundo das letras cujo rosto fosse tão conhecido como o de Manuel Alegre, certamente conhecido da totalidade dos Portugueses. Se as razões que levam a que Manuel Alegre seja imediatamente reconhecido em qualquer canto de Portugal são essencialmente extra-literárias, haverá poucos Portugueses que não saibam que Manuel Alegre é poeta. No entanto, eu diria que poucos conhecem a fundo os verdadeiros atributos literários deste homem singular, desde homem marcante da vida pública portuguesa, que é ao mesmo tempo um dos grandes poetas da nossa língua.

Sobre o poeta Manuel Alegre é fácil dizer generalidades apressadas – de resto bem conhecidas de todos quantos se encontram hoje nesta sala. A musicalidade da sua poesia, a sua superior e rara cantabilidade; eis uma característica que se associa de imediato ao autor da “Trova do vento que passa”. O carácter interventivo dos seus poemas, especialmente nos livros escritos antes do 25 de Abril, livros que, mercê do seu arrojo, tiveram durante muitos anos vida dir-se-ia clandestina. O facto de estarmos na presença de uma poesia que é, de forma salutar e eu diria mesmo exaltante, inseparável da vida, da biografia real do seu autor. Do homem que nasceu em Águeda a 12 de Maio de 1936; que estudou Direito na Universidade de Coimbra; que apoiou a candidatura de Humberto Delgado em 1958; que ousou enfrentar dados adquiridos e preconceitos político-sociais do Estado Novo, o que lhe valeu a experiência da guerra, da prisão e do exílio. Este percurso é tão determinante quanto inseparável da poesia de Manuel Alegre: uma poesia que nasce da revolta (mas sempre sentida com pulsação musical), que enfrenta a crueldade, a desumanidade, a morte; uma poesia que não esconde o sofrimento e a dor da existência humana, mas que nunca aceita a resignação ou o pessimismo. Uma poesia que, pela riqueza do seu conteúdo de vivência dos últimos cinquenta anos da nossa História, não pode deixar indiferente nenhum cidadão deste país. Uma poesia também de deslumbramento perante a vida, perante a beleza das coisas grandes e das coisas simples da vida, perante a natureza, perante o lugar do homem na natureza e no universo. Uma poesia com forte pendor ético. Ler um livro de poemas de Manuel Alegre é chegarmos ao fim com sensação de que a leitura fez de nós seres humanos melhores.

Acontece, porém, que o alcance da poesia de Manuel Alegre vai muito para lá dos elementos que enumerei. Há um fulgor estético na sua obra poética, que lhe advém em primeiro lugar da qualidade musical, mas que vive também de uma literariedade talvez surpreendente num poeta que já afirmou não saber falar de literatura. Lembremos uma estrofe paradigmática do poema “Como se faz um poema” do extraordinário livro Praça da Canção, de 1965: “Com muita coisa fiz o meu poema. / Aprendi-o no vento. Aprendi-o no barro. / Sobretudo na rua. E nalguns livros também. / Porém foi junto aos homens que aprendi / como as palavras são terríveis e sagradas.”

Friso aqui a expressão “nalguns livros também”. O que é facto é que, além da presença consabida da biografia e da realidade política em que essa biografia foi vivida, há uma forte veia estritamente estético-literária na obra poética de Manuel Alegre: estamos perante uma poesia que não nasce espontaneamente do nada, muito menos simplisticamente de experiências imediatas como da guerra em África ou de outros eventos parecidos; estamos perante uma poesia que mergulha as suas raízes na própria história da poesia, de Homero, Dante e Camões a Pessoa, Lorca e Pound; estamos perante uma poesia não só culta como cultivada, que recorre criativamente à herança literária do passado para dizer de novo, para “redizer”, o presente. E qual será o objecto deste dizer poético em Manuel Alegre? Aqui sou obrigado a voltar de novo à música, que exprime por definição aquilo que as palavras não conseguem dizer. Mas a poesia é também ela um veículo privilegiado para a expressão do indizível. O próprio Manuel Alegre o diz, num poema intitulado “Rainer Maria Rilke”: “este é Rilke: o que diz o indizível”. Como surge, pois, o indizível na poesia de Manuel Alegre? Eu diria que surge principalmente naquilo que é mais difícil de dizer e ao mesmo tempo mais essencial na experiência humana; aquilo que a poesia de autores contemporâneos e mais novos do que Manuel Alegre tem vindo sucessivamente a evitar: a emoção. A emoção do que há de mais directo e, por isso, de mais intraduzível na vida; a emoção que requer a coragem, o arrojo absoluto das palavras simples; a emoção que entra no poema para comover quem lê, para mexer com o leitor, para estimular reacções de arrebatamento, mas que não teme provocar também um movimento de rejeição. Felizmente, uma das marcas que nos diz sem margem para dúvida que Manuel Alegre é um grande poeta é o facto de a sua poesia não ser consensual. Tratando-se de um dizer poético que se abre à leitura e ao mundo com total verdade e total autenticidade, não regateia o preço que todas as grandes obras têm de pagar, que é de serem por vezes - e por alguns - incompreendidas.

Outro aspecto que me parece relevante aqui sublinhar, sobretudo tratando-se de um Tributo de Consagração, é o modo como uma vasta obra poética conseguiu salvaguardar uma unidade estética e estilística inconfundível, mas sem se fechar à transformação. Cada livro de poemas de Manuel Alegre tem uma individualidade própria, cada livro representa uma etapa, um passo em frente rumo a um ideal de poesia que se foi ele próprio transformando com o tempo. Mas os poemas de Praça da Canção não habitam um mundo diferente dos de Senhora das Tempestades, de 1998. Notamos é que as qualidades já patentes se foram decantando, complexificando, sublimando. E à estrofe que li anteriormente de Praça da Canção sobre a feitura do poema junto agora outra sobre o mesmo tema de Senhora das Tempestades: “Um verso. Nada mais que um verso cintilante / contra o equilíbrio cósmico e a expansão do universo / na cauda do cometa mais errante / no coração do espaço e seu avesso / uma sílaba cantante / um verso”.

A releitura da obra poética de Manuel Alegre diz-nos algo de muito claro: ele nunca escreveu para agradar, escreveu simplesmente o que tinha de escrever, o que mais ninguém senão ele poderia alguma vez ter escrito. Apesar da afinidade com um Miguel Torga ou com uma Sophia de Mello Breyner Andresen, os poemas por assim dizer torguianos de Manuel Alegre são completamente diferentes de Miguel Torga, como os seus poemas gregos são diferentes dos de Sophia. Manuel Alegre afigura-se-nos sempre, em cada novo poema, um fenómeno incrível de originalidade.

Texto lido por ocasião da entrega do Tributo Consagração da Fundação Inês de Castro a Manuel Alegre