"Corri riscos, estive com pessoas que pertencem à História. Tudo isso fez de mim aquilo que sou."
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
António Simões sobre Manuel Alegre n' A Bola
Na ‘Praça da Canção’
04-02-2015 António Simões, jornal A Bola

Exilou-se em Argel, tornou-se a voz da Voz da Liberdade. Deu-se o 25 de Abril, voltou, chegou a vice-presidente da AR, foi candidato à Presidente da República, pôs Eusébio e Chalana, Oliveira e Bentes, Carlos Lopes e Rosa Mota (& outra gente assim…) na sua poesia – e nos 50 anos de “livro intemporal”, a Dom Quixote reeditou-o. E é, é mesmo o que José Carlos de Vasconcelos diz que ele é: Lírico, romântico, épico; epopeia e anti-epopeia; tradição e inovação; discurso e dialética; passado, presente e futuro, vários tempos num só tempo; hino, bandeira, sonho, arma; trova, romance, canção, crónica – tudo.

50 anos depois, a reedição de um livro que fez de Manuel Alegre, que fora campeão nacional de natação, uma lenda; parte dele foi escrito na prisão.

Lembra-se de Saltillo? Sim: com a selecção já no México a preparar-se para o Mundial de 1986, o cenário incendiou-se – na ameaça dos jogadores que José Torres lá levara: ou se renegociava a tabela de prémios ou eles entravam em greve. Não aceitavam apenas 4000 escudos de diária e 100 contos por cada jogo da fase de grupos – e menos ainda os 200 contos “dados pelo senhor Joaquim Oliveira e não pela FPF” para envergarem nos treinos e nos jogos de preparação publicidade que à federação rendera 25 mil contos. Só não contestavam a verba que lhes fora destinada para o caso de serem campeões: 7000 contos.(Por essa altura, Paulo Futre já fora do Sporting para o FC Porto receber 1000 contos por mês de ordenado…)

Alegre, o desporto nos genes
Logo houve quem achasse que aquilo era “manobra de comunistas” – e na Assembleia da República um deputado do PPM eleito pela AD puxou pelos “altos valores da pátria” para lembrar aos “contestatários” que depois do que fizeram só tinham uma hipótese de se redimirem: ganhar o campeonato. Em defesa deles, da tribuna ao lado, saltou, lesto, Manuel Alegre – que estavam apenas a lutar pelos seus direitos. E estavam.

O trisavô paterno envolvera-se nas revoltas contra D. Miguel e fora decapitado. O avô materno pertencera à Carbonária e chegara à Assembleia Constituinte em 1911. O paterno, Mário Ferreira Duarte, fora das maiores figuras do desporto nacional em finais do século XIX. O tio, Mário Duarte, ajudara a fundar o Belenenses, fora o seu guarda-redes. O pai, Francisco Ferreira Duarte, andara pelo futebol e pelo atletismo e ele, o Manuel Alegre de Melo Duarte também jogara à bola nos juvenis da Académica e pela Académica ganhara um campeonato nacional na natação, fora internacional.

Pois: mas Alegre era já muito, muito mais do que isso: uma lenda na poesia, a lenda que nascera na 'Praça da Canção' – essa 'Praça da Canção' que era “a viagem do homem para o homem”, era, toda ela, um sentido: “um sentido nacional patriótico, de libertação e redenção”:

- Ainda hoje ouço pessoas falar com emoção e contar o que representou para elas aqueles poemas…

Há-de continuar a ouvir. Porque deles não nasceu apenas um poeta maior, nasceu o maior poeta da luta pela liberdade que Portugal teve – no ‘Romance do Tempo Inocente’, na ‘Rapariga do País de Abril’, na ‘Trova do Vento que Passa’, em ‘Nambuangongo Meu Amor’, em ‘Corpo Renascido’, em ‘Canto da Nossa Tristeza’ (& tanto mais…)

Vários poemas foram escritos na prisão da PIDE em Angola – e fora Luandino Vieira quem, sorrateiro, conseguira tirá-los de lá:

- Alguns tiveram de ser memorizados mentalmente até ter lápis e papel na cela para os fixar.

A revolta que uma bola soltava
A poesia soltava-se-lhe da vida, da revolta que apanhara nos jogos de rua por Águeda, não mais esquecera, não era o país assim que queria:

- Pertencia a uma família privilegiada, éramos dos poucos que usávamos sapatos. Os outros andavam descalços e vestiam fatos de cotim. No inverno andavam com frieiras nas mãos e nos pés. Levavam para a escola um naco de broa e um pedaço de sardinha. Isso sempre me revoltou, eram os meus companheiros de jogo, de bola, de rua…

Quando, já em Portugal, se apercebeu de que a PIDE voltar, furiosa, ao seu encalço, refugiou-se na casa de Rui Feijó – a mulher dactilografou-lhe os poemas que selecionara para o que decidira ser já ‘Praça da Canção’. Juntou-lhe, para abri-lo, a emotividade de ‘Rosas Vermelhas’ e fugiu à ditadura. O livro saiu meses depois – e foi apreendido. Alguns não, andaram clandestinos a fazer história.

Exilou-se em Argel, tornou-se a voz da Voz da Liberdade. Deu-se o 25 de Abril, voltou, chegou a vice-presidente da AR, foi candidato à Presidente da República, pôs Eusébio e Chalana, Oliveira e Bentes, Carlos Lopes e Rosa Mota (& outra gente assim…) na sua poesia – e nos 50 anos de “livro intemporal”, a Dom Quixote reeditou-o. E é, é mesmo o que José Carlos de Vasconcelos diz que ele é:

Lírico, romântico, épico; epopeia e anti-epopeia; tradição e inovação; discurso e dialética; passado, presente e futuro, vários tempos num só tempo; hino, bandeira, sonho, arma; trova, romance, canção, crónica – tudo.

E nesse tudo, que é a ‘Praça da Canção’ tão antiga e tão nova, há Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Amália e Manuel Freire, Luís Cília, Francisco Fanhais:

- Houve um conjunto de razões inseparáveis da poesia e da linguagem poética que tocou muita gente. Não era um panfleto político, mesmo que tivesse efeitos políticos. É um caso único, dizem. (e foi ele, o Manuel Alegre, que o disse a João Céu e Silva, no 'DN').