Nós voltaremos sempre em maio
Manuel Alegre
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Yvette Centeno sobre "O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua"
20-05-2011 Yvette K. Centeno, Colóquio Letras, nº 177, Maio/Agosto 2011. p. 239-242

O autor é sobejamente conhecido. Mas mesmo assim vale a pena observar o ritmo de produção e publicação, a partir da década de 80, em que praticamente edita um livro por ano. É a poesia que predomina, nesse conjunto, não desmentindo o que dele se conhece: a sua grande vocação poética, o seu muito especial sentido do ritmo, que permitiu facilmente transformar em canções muitos dos poemas emblemáticos que o tornaram mais célebre.

Nesta pequena novela alude Manuel Alegre precisamente ao seu sentido do ritmo, do som a tamborilar que, desde cedo, o atraía e distraía; seguirá depois contando sílabas pelos dedos, organizando, no interior do ritmo, o seu discurso próprio, poético ou de ficção: e, mesmo neste caso, do Miúdo, mais poético do que outra coisa. Como se a história tivesse de ser contada com algum esforço, um pouco por necessidade (de memória) enquanto não ia surgindo, entre páginas, algum poema que melhor condensasse o poema (heróico) da sua vida. “Um escritor”, respondeu alguém a quem se tinha perguntado o que era um escritor, “é alguém que escreve”. E é isso que Manuel Alegre faz: escreve.

Não seriam necessários todos os prémios que foram distinguindo a sua obra para se dizer que ele é um escritor, no pleno sentido da palavra. Ele escreve. Escreve desde que publicou o seu primeiro livro, em 1955. Escreve provavelmente até muito antes disso, porque antes de se publicar se aponta, se risca, se rabisca, se rasga ou se corrige e entretanto o tempo (o crescimento cultural e intelectual) fará com que a mão se afine, a prosa e o verbo se definam até atingir outra maturidade. Se definam nos temas, se definam no estilo, que pode ter começado por ser mais clássico (o eterno Camões, tão melodioso e tão melancólico no sentimento que tem do seu país doente) ou mais moderno, pois ninguém da geração a que Manuel pertence escapou à influência de Fernando Pessoa ou de Sophia, a voz nítida e clara dos gregos da cidade impossível. Ainda hoje, como se de uma Fata Morgana se tratasse, buscamos a tal cidade ondereine a justiça.

Recordo bem, de O Canto e as Armas , na edição da Centelha, de Coimbra, em 1974, o apelo ao país: “É preciso voltar ao ponto de partida / é preciso ficar e descobrir / a pátria onde foi traída / não só a independência / mas a vida.”

Na poesia publicada até hoje, Manuel Alegre tem dado voz ora à revolta, ora à evocação histórica, ora à saudade e lamento (colectivo e pessoal), motivos eternos da eterna poesia, acrescentados, no seu caso, de uma grande consciência cultural, política e literária, que não é vulgar entre nós. Na prosa, como no caso do romance Rafael , a escrita adquire um tom muito directo, mais realista, mais centrado no Mendo em que viveu, na sociedade fechada que combateu e a partir da qual construiu uma vida atenta, de cidadania interventiva. Tudo a par de uma vocação (ia dizer paixão) poética que se percebe ser parte da sua própria carne, da sua própria substância, do Sopro (alguns dirão romântico) que o anima. Sem esse Sopro, de verdade este homem morreria. Cito de cor: “A arte é a maior razão da minha vida.” Esta afirmação, que vem de longe, tem sido sempre verdadeira. Onde alguns dizem que há mais vida para além da política, Manuel dirá que há mais arte para além da vida.

No capítulo 28 da novela, recorda como “começou muito cedo a pregar pregos numa tábua, a tamborilar, a dedilhar uma guitarra invisível, a tocar música nos dentes, a deslizar na água como se contasse as sílabas pelos dedos, à vezes a escrever” (p. 95). E adiante acrescenta, pois a descrição destes ritmos serviu para conduzir ao súbito apagamento de outro ritmo, o do pulsar do coração: “Enquanto o preparam para a angioplastia e a dilatação da artéria bloqueada, ele pede com insistência: - Deixem-me acabar o livro.” (p. 97). Os médicos ficam espantados, escreve Manuel, no retomar da memória desse momento.

Mas é isso mesmo que ele pretende dizer, que a sua vida é a sua arte e a sua arte é a sua vida, embora se justifique adiante com um comentário que só aparentemente amplia o sentido do que ficou dito: “O amigo julga que ele se refere ao romance que está a escrever, mas quando fala no miúdo está a falar (…) (do) livro da vida, digamos assim, o pulsar do mundo a bater no coração de um homem, é isso a escrita, nada mais, apenas isso, que é tudo…” (ibid.).

O relato, feito de evocações passadas e transições para um outro tempo, o presente, em que o autor se vê de novo ao espelho e tenta reconhecer um rosto que mudou, tem algo de proustiano, ou antes, de rilkeano, do Rilke dos Cadernos de Malte Laurids Brigge , que certamente leu outrora, em Coimbra, pela tradução de Paulo Quintela. No passado se gera, se justifica, se esclarece, ou mesmo se ilumina o presente. O ser surge inscrito no tempo , como a escrita surge inscrita na vida.

Estamos, no caso desta novela mais até do que no caso de Rafael , com que a comparo, perante uma tentativa fundadora de nova reflexão, um balanço de vida que só pode ser feito de trás para a frente, como diz o próprio autor, e quando se atingiu uma certa idade (que eu gostaria mais de definir como um certo desprendimento , precisamente da vida e suas condicionantes). A história do Miúdo vista pelo Adulto-poeta é-nos contada de forma solta, simples e rápida como uma conversa ao serão: o Miúdo cresce enquanto lemos, transforma-se no Homem que Manuel agora é, e neste processo vamos nós descobrindo os segredos de alguém que, tendo feito uma longa carreira de político e de escritor, reencontra no prazer da escrita a realização que a política afinal ainda não lhe concedeu. Há mais vida, há mais arte… e continua demorada a construção da cidade ideal com que sonhava Sophia, na sua praia do Longe ou na Sombra do seu jardim…

“A poesia bate com força” escreve Manuel (p. 28) no princípio da sua relação com a escrita. Mas hoje sabe que a vida bate com mais força ainda. Daí que procure algum maior entendimento – da poesia como da vida. Estará na altura de voltarmos, todos nós, a ler com ele o antigo e tão actual Canto , mas já só feito de Canto e sem as Armas? O país só precisa de um pouco mais de coração, de alguém que ajude a desbloquear mais uma artéria, para que o sangue, o nosso sangue possa fluir em direcção àquele país onde “é possível o amor é possível o pão” (“Letra para Um Hino”, p. 133).

O Miúdo, chamemos-lhe assim para fazer a vontade ao poeta, cantou outrora “A raiz do tempo na raiz do espaço”; mas com uma dolorosa interrogação:”Porém onde ficou meu espaço? Ai tempo / sem raiz” ( “Paria não Rima com Meu País”, p. 65). Agora o mesmo Miúdo aprendeu a conhecer a raiz do seu tempo, o espaço do seu espaço. Ao ver-se ao espelho revê o seu caminho (destino?), vê o seu país.

Não é por acaso que no romance Manuel se chama Rafael, e nesta novela perde o nome que individualiza e adquire antes essa forma mais universal de ser “o Miúdo”. Consciente ou inconscientemente, Manuel Alegre buscou em si mesmo um arquétipo com o qual se identificasse e pelo qual pudesse vir a ser re-conhecido. O imaginário da infância, ou melhor, a “criança” recuperada no texto como símbolo, representa a natureza pré-consciente e pós-consciente do homem e, deste ponto de vista, exprime a natureza do Todo psíquico que os engloba. Temos, como diz Jung, premonições e percepções de origem desconhecida: angústias, humores, esperanças – experiências concretas que formam a base da impressão de não nos conhecermos a nós próprios por completo.(1)

A novela começa com uma hesitação: “Não se sabe sequer quem é quem (…) Por exemplo: este miúdo sentado no pátio de uma casa na Rua Duque da Terceira, no Porto, a pregar pregos muito direitos numa tábua. Quem me garante ao certo que sou eu?” (p. 11). Em parte a escrita resulta dessa necessidade de apaziguar a inquietação, a dúvida que possa atravessar-se no caminho. E, continuando com Jung, a verdade é que o homem tem desde os tempos mais antigos a consciência de que está envolvido (protegido) por energias psíquicas que o transportam e o conduzem na vida. O arquétipo da “criança” exprime a entidade do homem; é o seu princípio ainda indefinido (mas na novela Manuel já o define muito bem) e o seu fim triunfal .

Termino, outra vez com Jung: “A criança eterna é no homem uma experiência indescritível; em último lugar um imponderável que faz o valor ou o não-valor de uma personalidade.” O Miúdo, que à medida que a narrativa evolui vai deixando de o ser, evoca o puer eternus , a criança eterna, aquele fulgor de estrela que se acende na vida e que tem muito do amor primordial dos seres e das coisas, um amor simples, verdadeiro e despojado, como o que pode sentir um avô pelos seus netos: “Estou aqui a esconder-me e a mostrar-me, com um neto no armário e outro atrás da porta. O melhor é contar até vinte enquanto eles correm a esconder-se, ansiosos por serem descobertos. Como eu.”

Manuel foi descoberto, isso lhe dizem os leitores, há muitos anos, e lhe dirão os netos, mais tarde, quando o lerem.

Esta novela foi escrita para memória.

(1)Cf. Carl Gustav Jung, “L’enfant comme être initial et final”, in C.G.Jung e Charles Kerény, Introduction à l’essence de la mythologie (1941), trad. H. E. Del Medico, Paris, Payot, 1968