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Manuel Alegre
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Paulo Sucena sobre o último livro de Manuel Alegre:
Em torno de "Nada está escrito"
29-05-2012 Paulo Sucena

1. O último livro de Manuel Alegre, Nada está escrito, é um momento de intenso brilho no longo poema de muitos poemas feito que, no fundo, é a obra poética de Manuel Alegre. O próprio título, retirado do último verso do poema ARTE POÉTICA,
(…)
Mas nada se sabe
nada está escrito.
começou a nascer em 2007, no livro Doze Naus:
Sei que nada está escrito
e por mais que pergunte
ninguém me responde.

Estamos perante uma das marcas da poesia de Manuel Alegre, a de um incessante movimento que lhe confere novas figurações e configurações na oficina do poeta. Ele a faz e a refaz pelo tempo fora nesse tal longo poema que é sempre o mesmo e também sempre outro. Manuel Alegre não só desvela a própria intertextualidade que a sua poesia implica e nela se implica, como também tem assumido, como todos os grandes poetas, uma vasta intertextualidade que vai desde o arquitexto dos poemas homéricos até Fernando Pessoa, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, os surrealistas e Herberto Helder, passando pelos cancioneiros medievais, Camões, Antero, Cesário, António Nobre e Camilo Pessanha, para só falar de poetas portugueses e daquela prodigiosa criação da Grécia antiga.

Manuel Alegre poderia escrever como Francis Ponge: “Tudo se passa connosco, como com pintores que não tivessem à sua disposição para mergulharem os seus pincéis senão um mesmo e grande balde onde pelos tempos fora todos lá lavaram as suas cores”. O que pressupõe, sublinho eu, as cores que os pincéis de Manuel Alegre deixaram nesse grande balde ao longo de 47 anos.

A profunda dialogia que percorre toda a obra poética de Manuel Alegre manifesta-se também com clareza nos livros publicados neste século, não só em cada uma das obras, em si mesma considerada, como também de livro para livro. Já demos um exemplo e outros poderíamos dar. Deixo só mais um pela sua extrema importância. Ao sujeito da enunciação que num poema de Doze Naus (2007) afirma:
Sou o que busca a palavra onde se esconde
uma pergunta sem resposta
“responde” o sujeito da enunciação de um poema de Sete Partidas (Edições Nelson de Matos, 2008):
O poema será sempre essa pergunta

É espantosa a maneira como a voz dos poetas que falam em cada um destes dois livros se junta à complexa polifonia que ecoa, para só referir a poesia alegriana do século XXI, desde o Livro do Português Errante (Publ. Dom Quixote, 2001):
Um livro escreve-se uma vez e outra vez.
Um livro se repete. O mesmo livro.
Sempre. Ou a mesma pergunta. Ou
talvez
o não haver resposta.

Noutro poema do mesmo livro, o sujeito da enunciação proclama:
Para deixar-vos tenho o que não tenho
que para vos deixar não tenho mais
do que a escrita da vida e o eco estranho
de ritmos sons e signos e sinais
metáforas que têm o tamanho
do mundo que vos deixo. E nada mais.

Esta consciência reflexivamente crítica faz de Manuel Alegre um poeta que, tal como Bakhtine, poderia escrever: “A arte e a vida não são algo uno, mas devem unir-se em mim – na unidade da minha capacidade de responder”, o que pressupõe que a arte, a poesia é comunicação, ligação ao mundo, às coisas, aos humanos.

A poesia não é então uma lição sobre a vida, mas tão-só um modo de responder incerto, porque inseguro quanto ao cerne das questões e das perguntas com que o poeta se depara. Porém, quando o poeta produz um poema, alguma coisa no mundo se tornou diferente em consequência de nele fluir a linguagem em puro estado de nascença. Ou, usando palavras de Manuel Gusmão, poderemos dizer que “a poesia acrescenta mundo ao mundo de mundos que o real é”. Ou, agora no rastro de Wittgenstein, é possível afirmar que a poesia, ao impulsionar os mecanismos da imaginação que nos projectem múltiplas formas de vida, será capaz de nos mover e co-mover, ou seja, pode agir sobre o nosso quotidiano respirar. É por ter alcançado esse alto desígnio que eu diria que a poesia de Manuel Alegre, desde Praça da Canção até Nada está escrito, se alcandorou a um patamar cimeiro da poesia portuguesa contemporânea.

2. A ensaísta Filomena Molder escreveu algures que a linguagem não é um objecto é “um desejo de dizer” e é o dizer-se de Manuel Alegre que lhe permite sobrenadar a espuma negra dos dias e responder às fulgurantes perguntas que o mundo, as coisas, os humanos ou a voz de um deus desconhecido lhe colocam. E fá-lo cheio de incertezas, sacudido por dúvidas, utilizando muitas vezes um discurso modalizante, isto é, não totalmente assumido, onde a palavra talvez predomina, mas respondendo sempre e sempre, não se deixando assim afogar na melancolia do tempo ou na mesquinhez da circunstância, para, redivivo, enfrentar o azebre dos dias com o poema, esse artefacto capaz de nos mover e co-mover. E porque assim é, a poesia de Manuel Alegre chega-nos como um reparar de desgraças, de desalentos, de descrenças, de fracassos, de iniquidades dos humanos e do mundo. Chega-nos como uma esperança em movimento na concavidade dos desconcertos do universo humano.

É certo que a poesia terá perdido a sua aura, como o próprio Manuel Alegre o diz,
Este por certo não é o tempo da poesia
mas esta circunstância adversa não é irremediável, como lemos em Nada está escrito:
talvez o poema traga um novo dia

Na verdade, este dizer-se que também é dizer-nos vem na esteira de Tolstói que considerava que a prova, o testemunho que todo o artista nos deixa é o amor da humanidade e não o amor da arte, por isso em Nada está escrito o poema tanto nasce num húmus de imprescindibilidade ética ou ontológica ou num sáfaro terreno onde a carência magoa. Manuel Alegre mantém-se neste livro fiel a si próprio e da sua leitura concluímos que o poema se baterá até ao fim em prol da humanidade, mesmo que a poesia seja uma “sobrevivência”. Mas é essa “sobrevivência” que neste livro maior de Manuel Alegre nos diz que algo pode sempre renascer na poeira das catástrofes.
Por mais que o mundo nos oprima e nos esprema
há sempre um poema que nos salva
país é onde fica esse poema.

3. António Ramos Rosa escreveu, há mais de 60 anos, no número 1 da revista ÁRVORE, a propósito de René Char, que “a poesia não é um domínio encantado e fechado, à margem do real. Uma fortaleza, um reduto, um segredo, uma alma. (…) ela se abre ao mundo e se defronta com ele e quer equivaler-se-lhe numa correspondência criadora”. E prossegue deste modo a sua arguta reflexão: “A lição de Char é a de que os altos momentos do humano (que têm de se ver sempre numa dramática relação com o mundo) exigem uma estratosfera que envolva e não perca de vista a atmosfera histórica”.

Não só com o meu olhar mas também com a herança de outros olhares, como o de Manuel Gusmão e este de Ramos Rosa, me acerquei de Nada está escrito, essa rigorosa construção poética, esse fecundo universo de sentido, essa coisa de arte que me deu a mais fulminante imagem do tempo em que vivemos e que vivemos:
Abre-se a porta,
não entra ninguém
o dia sabe a desistência
amanhã a letra morta
Deus perdeu a transcendência
e as palavras a inocência.
O que se espera não vem
o passado é uma ausência
hoje é aquém. E o futuro
só tem
um muro.

Esta é a estratosfera de que falava Ramos Rosa onde só um grande poeta seria capaz de espelhar, com este rigor e despojamento e esta recôndita harmonia, a tão pungente circunstância em que mergulhámos, desapossados de passado, de presente e de futuro. São poemas como este, capazes de nos mover e co-mover, de nos dar em acto uma realidade que nos impele a agir, que fazem de Nada está escrito um dos momentos maiores da obra de Manuel Alegre e um dos mais notáveis livros de poesia publicados neste século.

Livro em que, com alguma ironia, o poeta interpela, no poema MEA CULPA, os que o acusam de não ser apenas um homem da literatura e da teoria da literatura:
Desculpem lá se tenho biografia
e se vivi a vida intensamente
dedicado à política e à poesia
o que não é por certo conveniente.

Mas é o caudal da experiência vivida filtrado pelos instrumentos da sua poética que enformam a língua literária de Manuel Alegre, corporizada numa obra que, no rasto de Aristóteles, diria que não é apenas o resultado de um poein, de um fazer, porque o poetes, o fazedor, é também visitado e animado por um sopro, um eco que lhe chega de algures e enche de brilho, remove paredes e rasga janelas na sua oficina de artesão.

4. No livro Nada está escrito é o rosto do mundo, as rugas do tempo e a aspereza da vida que o poeta nos oferece para reflexão, mas também nos mostra um modo de viver a vida em que o sofrimento vê multiplicada a sua intensidade em alguns poemas deste admirável livro, que o é exactamente porque a linguagem alcançou plenamente esse desígnio. O de tornar mais intenso, mais brilhante na estratosfera da arte o que era alheio e baço na atmosfera da vida.

Permitam-me que aprofunde este veio de Nada está escrito, acrescentando que o poeta da errância surge neste livro deambulando pelas ruas de Lisboa onde recolhe matéria que transmudada em palavras se transforma numa das mais pungentes e intensas imagens de disforia que a poesia portuguesa foi capaz de construir.

Aqui deixo alguns lampejos dessa imagem, retirados do poema HORA DE PONTA:
Olhos rasos de mágoa
(que)
Ao fim da tarde na rua
olham em frente perdidos
e passam sem ver ninguém.

E agora este nascido na Rua Presidente Wilson:
Nos seus olhos havia desamparo
(…)
ou talvez a cor do nada a cor de quem
está para além da própria dor.

Termino com o poema CIDADE, constituído por um dístico dilacerante:
Nas ruas cheias de gente
vi as pessoas desertas.

Esta deambulação citadina é de algum modo o retomar do poema LISBOA COM CESÁRIO E MELANCOLIA, de 12 de Novembro de 1993, (Poesia, vol. II, Pub. Dom Quixote, 2009) em que Manuel Alegre diz:
Há uma tal intensidade de Cesário
em certas horas de maior melancolia
que até o arranque de um eléctrico solitário
tem um não sei quê de alexandrino ao fim do dia.

Este eléctrico solitário é em alguma medida uma sinédoque da solidão ontológica que muitos individualmente suportam e que percorre Nada está escrito, como o poema HORA DE PONTA, já citado, tão bem retrata.

Este desalento, esta carência essencial, esta solidão ontológica são expressos em poemas que afinal especificam a circunstância colectiva que o primeiro poema, BALADA DOS AFLITOS, de Nada está escrito retrata de forma lapidar. Na verdade, um punhado de versos basta para pôr perante nós a realidade que o capitalismo neoliberal pariu em nossos dias. Para ilustrar o que acabo de escrever não preciso de mais do que alguns versos de cada uma das quatro estrofes que compõem o poema:
Irmãos humanos tão desamparados
a luz que nos guiava já não guia

Irmãos meus que passais um mau bocado
e não tendes sequer a fantasia
de sonhar outro tempo e outro lado

irmãos meus a quem tudo é recusado

Rogai por nós Senhora dos Aflitos
em cada dia em terra naufragados
mão invisível nos tem aqui proscritos
em nós mesmos perdidos e cercados

Este tempo avaro, este tempo solitário, este tempo agressivo e regressivo que deixa o poeta e os seus irmãos humanos que não são mercados em si mesmos perdidos e cercados, é também um tempo centrífugo.
Pouco a pouco eles partiram
sonhavam outros mundos dentro
deste mundo.
(…)
Levaram as manhãs anunciadas
e o amor de uma noite de um só
Verão.
(…)
e sobretudo aquele verso
onde os povos passavam a cantar.

Levaram tudo “e só deixaram/estradas ermas junto ao mar.” Nesse país devastado, em tempo de amargo desamparo, o poeta é tão violentamente atingido que, com a intensidade de que só a arte é capaz, confessa:
Trago em mim um exército perdido
(…)
Eu próprio sou esse exército sem sentido
E esse país de bandeira esfarrapada.

Porém, neste tempo em que nos fica um rasto de merda e cinza e estrume, também nos fica e resiste a mão que escreve e arde e é só lume. Eis o poeta fiel e em coerência com o cerne da sua poesia ou seja o poeta perpendicular ao tempo como sempre esteve desde Praça da Canção. Nesta perspectiva, Manuel Alegre poderia dizer, como Fernando Pessoa, eu não evoluo, viajo. Terrível é esta viagem do poeta que ao dizer-se no poema sabe que não é ele que até nós chega, mas apenas o poema que é o eco da sua ausência. Manuel Alegre di-lo de forma superior no POEMA QUASE METAFÍSICO:
Dizem que sou uma organização de água e de carbono
mas ninguém me diz o antes e o depois
nem de onde vem a música e a palavra
ninguém me diz o ritmo e a pergunta
que sem cessar se repete e não encontra
nem água nem carbono nem resposta
apenas o sussurro das marés
e as areias as ondas a cadência
ou o vento que vem do mar e a breve queixa
de quem água e carbono apenas deixa
em cada poema o eco de uma ausência.

Mas este saber provém da sua oficina de poeta e não é um conhecimento desalentador, porque ter consciência crítica do que é o poema não é impeditivo do acto de compreender que buscar a Índia é a profissão do poeta e a escrita é essa navegação.

É nessa escrita que o sujeito textual mora enquanto dela está ausente Manuel Alegre, o sujeito empírico. Mas é uma ausência-presença porque o poema avisa cada um de nós:
…………………. Por uma vez atende
aquele ou aquela que no meio da turba

procura chegar junto de ti. Tem
na mão um papel e quer dizer-te
enquanto é tempo a palavra que pode
mudar a tua vida e o próprio mundo.

O verso final, com sabor a Rimbaud e Karl Marx, é a reiteração de que, para Manuel Alegre, a poesia visa mover e co-mover o seu destinatário o que significa que para o poeta, aliás hoje e sempre, a poesia implica uma profunda comunicação com o leitor, no sentido de o mobilizar para agir nos contextos subjectivo e intersubjectivo ou seja nos planos individual e colectivo que se intersectam na realidade em que o eu e o nós se movem.

O aparecimento da 3ª edição, em menos de um mês, de Nada está escrito mostra a penetração desta poesia ou, se preferirem, um alto grau de adequação à circunstância subjectiva que mobiliza a reescrita deste livro por parte de cada um dos seus leitores.