Nós voltaremos sempre em maio
Manuel Alegre
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José Carlos de Vasconcelos
Manuel Alegre é um homem e um cidadão que “merece a poesia”
02-05-2016

Faz hoje exatamente 42 anos que, mais ou menos por esta hora, chegava ao aeroporto da Portela Manuel Alegre, regressado à Pátria após dez dolorosos anos de exílio. Deixara a casa, em Coimbra, no dia do seu aniversário, a 12 de maio de 1964, para “submergir”. Na iminência de voltar a ser preso pela polícia política, refugia-se em casa de amigos até passar a fronteira, a salto, na zona de Chaves.

Quando parte ainda não é o celebrado autor de Praça da Canção, embora tenha já escrito os seus poemas e organizado o livro, que sairá em 1965; mas é já um conhecido militante estudantil, anti-fascista, que estivera preso em Angola, autor da “Trova do Vento que Passa”, pela primeira vez, pouco antes, cantada pelo Adriano num encontro associativo aqui em Lisboa – Trova que com o tempo se transformará numa espécie de hino e bandeira não só da nossa geração e da luta associativo, como de toda a resistência à tirania.

Quando partiu para o exílio, era assim. Quando regressa, é quase um mito, uma lenda viva. Graças à Praça da Canção e ao seu significado; graças a O Canto e as Armas, publicado em 1967, também com uma enorme repercussão, na mesma linha de vibrante e mobilizadora poesia de resistência e de cunho patriótico, na autêntica aceção do termo; e graças ainda, ou sobretudo, à conjugação da aura do poeta com a do militante anti-fascista, que com a sua voz única – no timbre, na sonoridade, na força – era a própria Voz da Liberdade, na emissora do mesmo nome que desde Argel dava ânimo à luta por ela, Liberdade, na pátria amordaçada. Quase mito, quase lenda, reforçados ainda com a misteriosa poética premonição da libertação ocorrida a 25 de Abril. Pois o poeta “cantara” Abril e o País de Abril, “o Abril tão triste” no país de um Abril redentor, “sítio do poema”, “no ventre das manhãs”, “no sol interior das uvas”. Misteriosa poética premonição quando, antecipando o que de facto ocorreu na madrugada libertadora, escreveu: “Que o poema seja microfone e fale/ uma noite destas de repente às três e tal/ para que a lua estoire e o sono estale/ e a gente acorde finalmente em Portugal”.

Quando partiu, era assim. Quando regressou, assim era. Quarenta e dois anos depois sabemos como é. Sabemos como ganhou novos horizontes, sem perder os antigos, os de sempre, a sua obra de poeta; e também a de ficcionista, de prosador de cuja escrita nunca estão ausentes as palavras, a música, o ritmo, a toada, a batida do poeta. Sabemos como a sua intervenção política e cívica nunca esmoreceu, antes a diversos níveis se prolongou e ampliou, inconformista, “contra a corrente”, quando necessário rebelde, avessa tanto a sectarismos e dogmatismos como a desvios e transigências que descaracterizem os valores de esquerda democrática pelos quais se bateu e se bate. De que é “trovador”, desde que há mais de meio século escreveu: “Em trovador me tornei./ Se a voz do povo me chama/ eu com ele cantarei.//(…) Com trovas entro na liça/ não tenho as armas do rei./ Canto a favor da justiça/ que em trovador me tornei.”

Esquerda democrática que é essa “Esquerda como canção”, título dum poema de Atlântico (1981), uma esquerda “muito antiga”, que tem raízes no melhor da nossa História, e ao mesmo tempo é invenção, futuro. Cito: “A esquerda a que pertenço ainda não é./ Não a busquem no alfa e no ómega/ ela mora no como e no porquê/ contra a mentira e as trevas contra o dogma.// É fogo e festa mais que poder/ por isso ela está contra ela está contra/ que a festa é libertar o verbo ser/ e a esquerda a que pertenço não se compra.// E mais do que partido é de partida/ é riso e risco e mar que se navega./ A esquerda a que pertenço é outra vida/ não se enreda nos limos não se entrega.”

Breve perfil de Manuel Alegre

Mas o que me sugeriram foi que, sem apagar o meu testemunho pessoal, aqui traçasse um breve percurso, um breve perfil, do Manuel Alegre. E para isso, tenho que tentar um rapidíssimo, impressivo e subjetivo, “roteiro” de passos decisivos da sua vida. Tenho de o fazer, porque em nenhum outro escritor português a vida está tão presente na obra. Vida e obra em consonância e coerência, a vida alimentando a obra, a obra iluminando a vida. A minha poesia rima com a minha vida, sublinha o Manel, que para os da literatura (só) livresca, é “um poeta com biografia a mais”. Assume-o, assume-a, disse-mo, como “um romance” que às vezes “parece uma história aos quadradinhos” – que não desperdiça como substância da sua literatura. Aliás, já em O Canto e as Armas escreve: “Que o poema seja experimentado muito mais que experimental.”

Tudo começa em Águeda
Bom, então tudo começa em Águeda, onde nasce, a 12 de maio de 1936, vive a infância, que nunca deixará ao longo do tempo, mantendo raízes e casa. A infância é sempre um período marcante. E a infância de MA, a formação da sua personalidade, a influência do ramo republicano e carbonário da família, etc., está toda no seu romance Alma (1995). Sob forma ficcionada, vemos a inteira realidade da meninice de um escritor – que a ela volta, de forma mais episódica, na novela O miúdo que pregava pregos numa tábua. De um escritor que, insisto, encheu a sua admirável obra da sua riquíssima história de vida, do seu olhar sobre ela, sobre as coisas, sobre Portugal, sobre o Mundo. Notório nos seus livros de versos, o caráter autobiográfico, memorialístico e testemunhal do que escreveu é ainda mais evidente na sua ficção. Não só em Alma: desde o primeiro romance, Jornada de África (1989), altamente tributário da sua experiência de guerra, passando pelas histórias/ peregrinações de O Homem do País Azul, pela primeira paixão em A terceira rosa e pelo exílio em Rafael – o Rafael (personagem da Utopia, de Thomas More) que no caso é MA. E até o “exitoso”, já vai em 20 edições, Cão como nós, lembrando o 'Retrato do Artista quando Jovem', de James Joyce, bem poderia intitular-se Retrato do poeta quando cão…

Coimbra – um período decisivo da sua vida
Depois de Águeda, por força da atividade profissional do pai, MA vive em várias terras, incluindo Lisboa e Porto. No Porto, aluno do Liceu Alexandre Herculano, publica um primeiro livro de versos, 'Sensações Românticas', que nunca incluiu na sua bibliografia e não permite seja reeditado. Vem, depois, Coimbra, a que ficará para sempre ligado, e o período decisivo da sua vida. É aí que mergulha na arte, na poesia, na intervenção política. Participa na luta contra o decreto 40.900, na campanha eleitoral de Humberto Delgado, em 1958, nos combates estudantis, associativos, em que a partir do final da década de 50 Coimbra e a sua Associação Académica têm o papel decisivo, liderante a nível nacional, num processo que terá o seu clímax, ou pelo menos o episódio que mais ficou para a história, no proibido Dia do Estudante de 1962, em Lisboa. O Manel é um dos fundadores do CITAC, ator do TEUC (neste, sob a direção de Paulo Quintela, a fazer Gil Vicente ele foi o Diabo e eu fui o Cristo…), publica poemas na revista 'Briosa', na mesma linha dos do seu amigo Herberto Helder, que também por lá andou. Até encontrar a sua dicção poética própria, que teve expressão inicial nas 'Trovas', publicadas na 'Via Latina', órgão da AAC e depois de todo o movimento associativo nacional, de que eu era o chefe de redação. A primeira trova foi a do Amor Lusíada, que mais tarde Amália Rodrigues havia de cantar, como logo cantaram MA as principais figuras do fado, das baladas e das cantigas de intervenção desse tempo único de Coimbra. Com José Afonso e Adriano Correia de Oliveira à cabeça, a que muitos de fora de Coimbra se seguiram, sem prejuízo de ser Adriano o grande intérprete do poeta por natureza cantabile e que teve e continua a ter, a musicá-lo e cantá-lo como a nenhum outro, nomes maiores da nossa música – o que deu ainda maior repercussão, força, capacidade de influência, à sua poesia, que também como nenhuma outra chegou ao povo, tocou, emocionou, muitas dezenas ou centenas de milhares de pessoas.

A conspiração, a guerra, a cadeia
Excelente tribuno, ainda por cima com a tal fantástica voz (que parecia feita para dizer os seus versos, ou os seus versos feitos para a sua voz), exatamente num Encontro Nacional de Estudantes proibido, mas que a AAC realizou, e em que ambos falamos, no seu discurso o Manel referiu-se direta e frontalmente à guerra colonial, o que nunca, em circunstâncias semelhantes, acontecera. E, em sequência ou consequência, muito pouco depois, é chamado para a tropa, mandado para Mafra e a seguir para os Açores.

Começa então uma nova e decisiva etapa da sua vida – e do que viria a ser a sua obra. Como se sabe, nos Açores estava um militar, um oficial absolutamente singular, já então um homem de esquerda, que viria a ser o “ideólogo” do 25 de Abril: Ernesto Melo Antunes. A amizade e ligação entre ambos foram imediatas, idem as ideias conspirativas e os projetos revolucionários. Entretanto, porém, MA é mobilizado para Angola e colocado na mais perigosa frente de combate – na zona de Nambuangongo. Vai, não deserta, é essa a orientação do Partido Comunista, a que então pertencia, mas é essa sobretudo a sua opção: não foge, quer, mesmo aí, estar presente, intervir. Assim acontece – e escreve os famosos poemas sobre a guerra, desde os especificamente sobre Nambuangongo até às pungentes e belíssimas 'Três Canções com Lágrimas e Sol para um Amigo que Morreu na Guerra'.

Está presente e conspira, contra a guerra, contra a ditadura – e, apesar de oficial miliciano, é preso pela PIDE, ficando seis meses preso em Luanda, situação a que se refere o texto inicial da Praça da Canção, “Rosas Vermelhas”. Depois, é solto, sendo-lhe fixada, porém, residência em Coimbra, com a imposição de não ter qualquer atividade política ou associativa. Não cumpriu, claro, e já vimos como na iminência de ser preso de novo tomou o caminho do exílio.

A luta contra a ditadura no exílio
“Lusíada Exilado”, primeiro em Paris, destino à época de ‘multidões’ de portugueses que, a salto, fugiam sobretudo da miséria e da exploração, mas também da ditadura e da guerra colonial. E em O Canto e as Armas tem dos (ou os) melhores e decerto os mais significativos poemas sobre essa dolorosa realidade, de que passa a fazer parte: “Eu que fiz tudo e nunca tive nada/ eu que trago nas mãos o meu país/ eu que sou esta árvore arrancada/ este lusíada sem pátria em Paris”.

Obviamente, MA integra-se na luta organizada, no exterior, contra Salazar e seu regime tirânico, participando em numerosas iniciativas, quer especificamente do PCP, quer visando uma frente unida para aquela luta. E é dentro da estratégia, do que são consideradas as necessidades e possibilidades dessa luta, que ainda em 1964 parte para a Argélia, onde se fixa. É dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional e, como vimos, e de forma muito especial lhe aumenta o prestígio e a aura, é a voz da ‘Voz da Liberdade’, é a voz da Liberdade.

Há muitas histórias conhecidas, e decerto ainda mais desconhecidas, da sua importante ação política durante esses quase dez anos de Argel, dos seus encontros e das suas histórias com Humberto Delgado e Álvaro Cunhal, entre muitos outros, do seu relacionamento, frequentemente muito próximo, com a generalidade dos principais dirigentes dos movimentos de libertação das colónias, de Amílcar Cabral a Agostinho Neto – cujas posições, naturalmente, a ‘Voz da Liberdade’ também noticiava, e cujos objetivos de independência nacional apoiava.

De novo na Pátria do coração e dos versos
Entretanto, nesse tempo de Argel, após O Canto e as Armas, sai entre nós, em 1971, em Águeda e em edição do autor, apenas um novo livro, cujo título fala por si: Um Barco para Ítaca. Porém, pelos fatores que já referi, entre eles a óbvia permanência dos seus dois primeiros livros (por exemplo, nas inúmeras sessões de poesia que eu fazia, só ou com o Carlos Paredes, ou nas sessões de “canto livre” em que participava, os seus poemas tinham sempre lugar destacado), quando MA regressou a Portugal era, repito, quase um mito, uma lenda. E de novo a premonição poética se cumpriu, faz hoje, 2 de Maio, 42 anos. “Nós voltaremos sempre em Maio” é o título de um dos seus poemas de ainda antes de partir, “nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre/ no mês de Maio que é o mês da liberdade”.

De novo na Pátria do coração e dos versos, politicamente, MA começou por animar, com Piteira Santos, o movimento Forças Populares 25 de Abril. Mas ainda em 1974, numa altura em que exigia uma certa coragem moral uma figura com a sua aura de revolucionário fazê-lo, adere ao PS e tem uma intervenção decisiva para que no Congresso do fim desse ano não triunfe uma ala radical, cujo triunfo, para lá de todas as boas intenções, seria desastroso para o partido e o país. “Não interessa aos trabalhadores e ao povo de Portugal – disse nesse Congresso – uma revolução imaginária num país inventado. O que interessa é transformar o país (…) Hoje como ontem, hoje e sempre é preciso dizer não a todas as formas de censura, a todas as tentações totalitárias, a todas as formas de manipulação do povo. Venham elas de onde verem. Da reação ou do sectarismo, que é uma forma de contra-revolução dentro da revolução”.

Depois, como se sabe, entre muito mais, MA foi constituinte, e principal redator do preâmbulo da Constituição, a seguir deputado durante 34 anos consecutivos, e designadamente vice-presidente da Assembleia da República parte deles. Não sendo, por várias razões, dos parlamentares mais operosos no dia-a-dia, a sua voz fez-se invariavelmente ouvir, e respeitar, nas questões fundamentais – e, dentro da chamada “disciplina” e da lealdade partidárias, manteve a independência e a singularidade. Sirva de exemplo a sua declaração de voto contra a revisão constitucional de 1989, por, sublinhou, resultar de um acordo entre dois líderes partidários (Cavaco Silva e Vítor Constâncio), desvirtuando o papel da Assembleia, e por questões de fundo, tendo, cito, “subjacente um conceito de bipolarização redutor da democracia, suscetível de esbater a alternativa e dificultar a alternância”.

Travou muitas batalhas que não ganhou, mas não perdeu
Com simultânea intervenção em todas as iniciativas cívicas relevantes, seja para debater os novos caminhos da democracia e do socialismo, seja visando a convergência de esquerda, seja sobre situações concretas de Portugal e do mundo – só como exemplo, contra a invasão do Iraque –, MA sempre foi, como disse no discurso de despedida do Parlamento, “fiel à República, à liberdade, à democracia, ao socialismo, e, sobretudo, fiel a Portugal e ao povo português”.

Muitos de nós, se calhar todos nós, discordamos dele em diversas situações, discordamos de suas opções ou atitudes concretas, de certas afirmações ou certos juízos – mas temos de reconhecer, e salientar, a justeza e justiça daquelas palavras, daquele balanço. Além disso o MA travou muitas batalhas que não ganhou, mas não perdeu – porque, como defende, perder é não ir a combate, ou usar armas indevidas, e isto ele nunca fez.

O seu combate político, aliás, sempre se fundiu e confundiu com o seu combate poético – porque para MA a poética é também uma ética, uma forma superior de cidadania. Quando se começou a falar muito dele ser ou não candidato a PR, interroguei-o a esse respeito, e ele concordou com a premissa da pergunta respondendo: “Se for, será um ato mais poético do que político”. A partir daí, fiquei com a firme convicção de que o seria… Foi. E sem o apoio de nenhum partido teve mais de um milhão de votos: numa “derrota” formal, uma das suas vitórias substantivas – e um marco na sua imensa biografia política. Apetecendo perguntar agora: imagine-se que o Presidente tinha sido MA e não Cavaco Silva…

Voz singular da nossa poesia e do nosso destino coletivo
Enfim, e de certa forma “principalmente”, a sua obra poética ganhou uma nova amplitude e dimensão, com muitos novos livros, de temática variada e mostrando uma sempre renovada, vou usar uma palavra maldita, “inspiração”, e uma cada vez maior riqueza de recursos do grande poeta que é. Não podendo falar aqui um pouco mais da sua poesia, remeto para ensaios como os de Eduardo Lourenço e Vítor Aguiar e Silva, para não falar em teses de doutoramento que lhe são dedicadas, tudo de par com as consagrações de muitos dos principais prémios literários nacionais ou de homenagens tão significativas como a da criação da cátedra Manuel Alegre na Universidade de Pádua, uma das mais antigas do mundo e das mais importantes de Itália.

Permita-se-me apenas destacar, entre aqueles livros, títulos como Atlântico, Babilónia, Livro do Português Errante ou Senhora das Tempestades – este, em que assoma a morte, que já algumas vezes ‘rondou’ a vida do Manel, uma obra maior da poesia portuguesa contemporânea e que a excelente Maria Bethânia cantou, assim se juntando ao vasto conjunto dos seus cantores portugueses. E destacar ainda, dada a circunstância concreta deste ato, que se Lisboa está na poesia de MA, com a força de um símbolo, pelo menos desde a “Canção Terceira” (“Quando desembarcarmos no Rossio/ canção …), Lisboa, há 42 anos também a sua cidade, foi entrando e ficando cada vez mais na poesia do agora habitante da “…. Praça/ João do Rio número onze quarto direito/ onde eu Ulisses vou à proa/ além de qualquer cabo e qualquer estreito/ em Lisboa por dentro de Lisboa.”

De falar também gostaria, mas o tempo não dá, do para alguns insólito ‘amante’ da caça, que gosta de caçar perdizes e de as comer, do campeão de tiro - como outrora o foi, nacional, de natação - que andou por esse país a “atirar”, aos pratos que não aos pombos, do pescador de robalo e outros peixes. Como achigãs, que o diga eu: numa visita de ambos, de um mês, ao Estados Unidos, em que andamos invariavelmente juntos e em que cada novo dia falávamos pior inglês do que na véspera, voamos milhares de quilómetros, até aos confins do Texas, para o Manel ir pescar achigãs a um lago mítico, não sei porquê – um seu velho sonho, dizia. Fomos, pescou, voltou com o sonho realizado – e, mais, com uma sela de um famoso cavalo de corrida que noutro Estado lhe ofereceram, que ele adorou e nos acompanhou ainda umas semanas, nós e a sela EUA fora…

É assim o MA de quem tenho que sublinhar ainda uma última qualidade, as mais das vezes ignorada ou não referida: para lá do aparente narcisismo e de outros aspetos caracterológicos ou humorais, a sua permanente generosidade. Desde logo com os camaradas de escrita, o que não é vulgar, e com o que chama “os camaradas dos sonhos”, para citar o seu mais recente livro, Uma outra memória, exemplar a esse respeito e a respeito do seu “gostar de gostar”, da sua sensibilidade e inteligência dos textos.

Enfim, MA é um homem e um cidadão que “merece a poesia” – merece esta e todas as homenagens que lhe são ou forem prestadas. Com um extraordinário percurso de vida, épico e lírico, anti Alcácer-Quibir e anti D. Sebastião, com laivos de um sebastianismo do avesso, poeta da liberdade em cuja obra está o passado, a nossa História, e está o presente - presente e passado virados para o futuro, para o combate do futuro. Voz absolutamente singular da nossa poesia, do nosso destino coletivo, da nossa pátria e do nosso povo.