"Corri riscos, estive com pessoas que pertencem à História. Tudo isso fez de mim aquilo que sou."
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
*
Novalis à flor da relva
01-06-2010 José Mário Silva, revista Ler

Mas o romance que melhor se apropria do futebol como matéria narrativa, de entre os que por cá se foram publicando, continua para mim a ser Alma , de Manuel Alegre (Dom Quixote, 1995).

Andava eu mergulhado na leitura do Submundo de Don DeLillo, seguindo com os olhos, através das páginas e das décadas, a trajectória de uma bola de basebol, esfera de couro com coração de cortiça, pré-Sputnik que ao invés de entrar em órbita caiu na bancada de um estádio nova-iorquino numa tarde de Outubro de 1951, invertendo a lógica desportiva, protagonizando um home run mítico, perdendo-se no meio do público até que um escritor, quase meio século mais tarde, fez dela o MacGuffin de um romance que tenta agarrar por vários lados a América desse quase meio século, andava eu mergulhado na leitura do Submundo de Don DeLillo quando dei por mim a pensar que não existe nenhuma obra de ficção que cruze desta forma a História de Portugal com o desporto mais importante do país (o futebol, claro), ainda para mais um desporto que exclui praticamente todos os outros, o que não acontece no EUA, onde DeLillo podia ter escolhido tranquilamente outra modalidade: basquetebol, futebol americano, até hóquei no gelo.

Assim de repente, lembro-me de El-Rei no Porto_, de Fernando Venâncio (Asa, 2001), ficção que imagina Portugal dividido ao meio, reino a Norte, república a Sul, e termina com um jogo entre as respectivas selecções, equipada de azul e branco a primeira, de verde e vermelho a segunda, partida que tem como palco o Estádio Nacional da Cruz Quebrada e acaba em 3-3, empate sumariamente descrito num parágrafo de 10 linhas, mera antecâmara do desenlace narrativo que desemboca numa última palavra – bizarra coincidência – que é também a última palavra do _Submundo de DeLillo (“paz”).

Há ainda O Suplente , de Rui Zink (Publicações Europa América, 2000), com descrições bastante realistas do jogo e um uso intensivo do futebolês, sempre desconstruído pela ironia (por exemplo, um avançado que às tantas sai por lesão, especialista em bolas paradas, chama-se Hipérbato).

Mas o romance que melhor se apropria do futebol como matéria narrativa, de entre os que por cá se foram publicando, continua para mim a ser Alma , de Manuel Alegre (Dom Quixote, 1995). Logo no primeiro capítulo, o narrador, ainda criança, depara-se com um dilema. “Republicano e revolucionário” por influência da avó, ele é esperado no comício da oposição. Só que à mesma hora o Beira-Rio joga com o Vista Alegre no campo de S. Cristóvão.

Cidadania ou futebol? O coração do adepto fala mais alto e ele acaba por ir ao jogo, mas antes do fim lá o arrastam para o cineteatro onde o comício decorre, prestes a ser perturbado pelas provocações dos situacionistas, pequena multidão que à pergunta “Quem manda?” responde “Salazar, Salazar, Salazar”. Tanto de um lado como do outro, acaba tudo em pancadaria. E a descrição dos golos, dos penáltis defendidos e da invasão de campo, em paralelo com os discursos inflamados, a surra nos salazaristas e s gritos de “Viva a República!”, ocupa umas 15 páginas que estão entre as melhores da literatura portuguesa dos últimos anos.

Por muito vibrantes que sejam, estes episódios de Alma são remotos (fim da Segunda Guerra Mundial). Falta quem escreva sobre factos mais próximos. A final da Taça de Portugal de 1969, por exemplo, perdida pela Académica diante do Benfica (1-2), mas aproveitada para um prolongamento da luta dos estudantes contra o regime. Ou a final do Euro 2004, espécie de castigo grego pelo desperdício de dinheiros públicos em estádios que depois ficaram vazios.

Eu diria que um romancista à altura é Rui Cardoso Martins, autor de uma peça teatral que já se aproxima bastante do anticlimax de há seis anos. Intitula-se Apanha-Bolas (edição da Culturgest, 2010), resultou de uma encomenda do projecto Panos (que associa a nova dramaturgia ao teatro escolar/juvenil) e parte de um conflito moral: será que devemos fazer o que está certo quando o que está certo (não atrasar a entrega da bola ao adversário) pode ser entendido como uma traição à pátria? Mais do que da História, o futebol aproxima-se aqui da Filosofia, por entre referências ao YouTube e os palavrões das claques. Reconfortante é ouvir um apanha-bolas citar Novalis logo na primeira fala: “A virtude deve desaparecer de novo e tornar-se inocência.”