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Jorge Listopad sobre "Tudo é e não é"
"Sonhar o sonho sonhado"
26-06-2013 Jorge Listopad, JL, in "Avisos"

Com o título Tudo é e não é com o qual Manuel Alegre banaliza o seu último romance, aliás nada banal, estamos diante de uma aventura hipnótica, de uma espécie de biografia que se deixa surpreender a cada esquina, a cada página; dir-se-ia que é um Manuel Alegre diferente. Além disso, o texto repetido ravelianamente como o Bolero, porém, para o leitor atento, de facto não-repetido, leitor castigado por um outro tom, como um lençol freático que descobre: “Azedume. É o que as pessoas levam dentro e deixam pelas ruas.” (p. 120).

Aparentemente é difícil definir do que se trata. Digamos assim: tal António Valadares, escritor, talvez por vezes o próprio autor, ou nada disso, está à procura do leitmotif de um romance, uma vida, de uma memória para os seus sonhos, dos quais seria difícil fugir para empreender uma viagem noturna ou diurna idem melancólica e de amarga memória.

Calculo que o romance se possa ler de forma vária e até radicalmente diferente; a mim, todavia, parece-me que todas as diferenças estão contidas nessas 200 páginas do livro e que a sua riqueza está na incontrolabilidade dos sentidos da vida, do sonho, da oniria, portanto, da absoluta insegurança do sentido das coisas. O texto é o contrário de um curriculum vitae formal e justamente por causa disso está perto daquilo a que se pode chamar a realidade complexa.

O único perigo seria só a falta de cortes nos quais o sonho e os sonhos são tão ricos e a ameaça de estereótipos descritivos que pudessem lembrar uma prosa eventualmente mais convencional. Porém, Manuel Alegre sai-se sempre bem, (não como António Valadares, o herói deste livro, escritor de um eventual mecanismo descritivo estilístico), e de novo subverte com grande frescura a escrita sonhada e não controlada ou, ao contrário, ainda mais controlada.