"Corri riscos, estive com pessoas que pertencem à História. Tudo isso fez de mim aquilo que sou."
Manuel Alegre
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Eugénio Lisboa sobre Manuel Alegre:
País de Abril: os avisos secretos
25-06-2014 Eugénio Lisboa, JL

Em boa hora, reuniu Manuel Alegre (MA) , nesta antologia belamente celebrativa os seus “poemas de Abril” ( e Maio…). Chamou-lhe País de Abril e nela reuniu todos os poemas que “falam de Abril antes de Abril e de Maio antes de Maio, em Praça da Canção, editada em 1964, em O Canto e as Armas, de 1967.” A antologia inclui, também, outros “poemas de Abril”, escritos durante o período revolucionário, e outros, ainda, mais tarde. Mas o que a torna particularmente interessante – e isso já antes se teria podido ver, mas esta reunião de todos os “poemas de Abril” num só todo torna-o particularmente gritante – é o anúncio do “tempo de Abril” (o de 1974), em poemas publicados num livro dez anos anterior à eclosão do movimento que restituiu a liberdade “à ditosa pátria minha amada”.

Numa breve “nota de edição”, o poeta não resiste a chamar a atenção para este facto: “Não deixa de ser intrigante que, tantos anos antes, o autor tenha escrito sobre o País de Abril, Maio e os cravos vermelhos. Como se explica? Mistérios da poesia.”

Não creio que MA estivesse consciente, quando agarrou o tópico de “Abril”, de uma das etimologias atribuídas à palavra “Abril”: essa etimologia ligá-la-ia ao verbo latino aprire, isto é, abrir, referência ao abrir dos botões, que dão flor (os cravos, as rosas). Mas algo lavraria, por certo, o seu subconsciente, porquanto os cravos vermelhos povoam já, explicitamente, o seu “inventado” “País de Abril”, que, dez anos depois, passaria de “inventado” a real /e também habitado por cravos vermelhos, aparatosamente simbólicos).

Estas “misteriosas” presciências podem ser “misteriosas”, mas não são assim tão novas. Têm sido verificadas e anunciadas desde tempos imemoriais. Talvez, afinal, Aristóteles tenha tido algum fundamento, ao afirmar que “a poesia é mais filosófica e de mais alto valor do que a história”, porque, em vez de reflectir sobre uma realidade passada, anuncia, profeticamente, uma realidade futura. Ela seria, assim, não uma comentadora de mundos que a antecedem, mas, antes, uma fabricadora de mundos novos. E não foi, já, Aristóteles, mas um grande poeta dos tempos modernos, T. S. Eliot, quem afirmou que “a poesia não é uma asserção de verdade, mas uma fabricação dessa verdade, mais completamente real para nós.”

Alguns dos poemas deste belo “País” que MA congeminou e fundou, de toutes pièces, confirmam, de modo impressionante, estas formulações poéticas ou filosóficas de Eliot ou de Aristóteles. Leia-se, por exemplo, esta fulgurante passagem do poema “Explicação do País de Abril”, inserto na Praça da Canção: “Não procurem nos livros que não vem nos livros/ País de Abril fica no ventre das manhãs/ fica na mágoa de o sabermos tão presente/ que nos torna doentes sua ausência.” Esmiuçando o sentido profundo destes versos, não é abusivo “traduzi-los” por: não procurem nos ardidos livros de história o meu País de Abril, porque ele ainda só reside no meu sonho, mas, ao sonhá-lo, torno tão presente a sua realidade, que me dói, a sua, por enquanto, real ausência.

O poeta torna o sonho carne, usando as belas palavras de Miller, que coloquei na epígrafe deste meu texto, mas é, por enquanto, uma carne-a-haver, o que, insuportavelmente dói. É uma “carne” que ele sabe verdadeira e presente, no seu sonho, mas ausente da realidade quotidiana. Porém, ao mesmo tempo, anuncia, assertivamente, que aquela realidade por enquanto, ausente, há-de obedecer ao sonho, como no belo poema de Yeats, como que feito de propósito para visitar este poema de Alegre: “That William Blake/ Who beat upon the Wall/ Till Truth obeyed to the call/” (“… William Blake/ Que se bateu de forma danada/ Até a verdade obedecer à chamada”).

Os versos confirmativos do que atrás digo abundam e atropelam-se (e atropelam-nos): “Por ti eu me perdi ou me encontrei/ por ti que eras ausente e tão presente/ por ti cheguei ao longe aqui tão perto. / E achei achando-te o País de Abril.” “Que eras ausente e tão presente”, isto é, presente no sonho, ausente, na realidade.

No expressivo poema “É preciso um país”, do seu segundo livro, de 1967 – O Canto e as Armas – afirma, peremptoriamente, logo no título e, depois, no último verso da primeira estrofe, que “é preciso um país”, não o país de navios a partir (para a guerra, para a emigração), mas o país em que se volta “ao ponto de partida”. Criar o “País de Abril”, para substituir “a pátria onde foi traída/ não só a independência/ mas a vida.”. Porque “Abril” (o sonhado e o que há-de vir a ser real) é isso mesmo: a abertura para a vida, simbolizada nos botões que se abrem em cravos vermelhos como o sangue, que simboliza a vida, o florir d vida, o contrário de Alcácer-Quibir, que é fim e que é morte.

Na poesia moderna, a partir de Baudelaire ou, até, de Wordsworth, tudo é matéria de poesia, mesmo o preconceituosamente anti-poético: o inferno urbano, a porcaria, o vício, a podridão, o vómito, a máquina, tudo a poesia faz matéria prima das suas elucubrações. Por que não, nesse caso, a intervenção política? A indignação social? Desde que não se traia a arte – que até potencia a “mensagem” – tudo alimenta o bojo faminto da barca da poesia: “Assim como, para a mente pura, todas as coisas são poéticas”, dizia o poeta americano, Longfellow. As “femmes damnées” de Baudelaire, que Régio fez matéria dos seus desenhos, não são menos poéticas que as Elviras de estatuto garantido. Artesão consumado, tocador de lira afeiçoado pelo estudo e pelo ouvido, MA canta o seu sonho de um País de Abril, como outros cantam, com igual ardor, a solidão dos corações ou a perplexidade ante os espaços infinitos. E dispara os seus “avisos secretos”, para que constem. Tudo são explorações do nosso assombro, por via da percussão afinado da palavra.

Todo o verdadeiro poeta, mesmo sem o saber (mas sabe!), acrescenta a realidade. Ao sonhar o País de Abril, Alegre, mais do que anunciá-lo, criou-o. “Um bom poema”, disse Dylan Thomas, “é uma contribuição para a realidade. O mundo nunca mais fica o mesmo, desde que um bom poema lhe é adicionado. Um bom poema ajuda a mudar a forma e o significado do universo, ajuda a ampliar-se o conhecimento que cada um tem de si próprio e do mundo que o rodeia.” Ao escrever Praça da Canção e O Canto e as Armas, Manuel Alegre não permitiu que Portugal continuasse imutável: inventou outro, que, no futuro, substituiria o primeiro, partindo para nova aventura e subsequentes novas sedes de mudança. Que o mundo é todo feito de mudança, de novas sedes e de novas fomes: “Com as mãos se faz o poema – e são de terra”, diz o poeta, que muito bem sabe do que fala. O sonho faz-se carne, que devém sonho, que se muda em carne.