"É preciso subverter o discurso cinzento e tecnocrático e recuperar a força primordial da palavra"
Manuel Alegre
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Editorial de José Carlos de Vasconcelos no Jornal de Letras
"O Prémio Camões a quem o merece…"
21-06-2017 José Carlos de Vasconcelos, JL

De Praça da Canção e de O Canto e as Armas se assinalaram, em 2015 e agora em 2017, os 50 anos (“bodas de ouro”…) das respectivas edições. Com novas edições, “comemorativas”, após tantas e tantas que esses dois excepcionais e já, de certa forma, ‘lendários’ livros, sobretudo o primeiro, tiveram ao longo do tempo – incluindo, durante a ditadura, as clandestinas. “Cinquentenários” que se assinalaram que se assinalaram ainda com outras diversas iniciativas em que os leitores de hoje, mormente jovens, quiseram ouvir falar dessas obras, ouvir o seu autor, Manuel Alegre, prestar tributo sobretudo ao poeta, sem esquecer o ficcionista e, em geral, o cidadão e combatente pela liberdade.

De quantos escritores se pode dizer que, meio século após a sua publicação, tiveram assim assinalados, ‘festejados’, dois livros seus, que continuam a ser lidos? Livros, no caso os primeiros que o autor deu a lume, a que o establishment literário longamente dominante sempre quis colar o rótulo de datados e menores. Ou seja: tendo como destino imediato ou próximo o caixote do lixo da literatura. E “próximo” seria, no máximo, depois de ultrapassada a circunstância histórica que tais livros também testemunhavam e combatiam. Ora, aconteceu exactamente o contrário: Praça da Canção e O Canto e as Armas estão “vivos”, perduraram e perduram, enquanto não há memória nem rasto de generalidade das obras que os porta-vozes desse establishment mais enalteciam, e, com possível excepção a confirmar a regra, das suas próprias obras.

Mas estes dois livros, com o seu peso e simbolismo, se por um lado não podem ser, nem são, esquecidos ou minimizados, por outro também não podem fazer esquecer ou minimizar toda a obra subsequente do escritor – vasta, valiosa e multifacetada. Desde logo na poesia, onde tem mais de 20 títulos, numa rara multiplicidade de (chamemos-lhe impropriamente assim) temas, registos, formas. Sempre, no essencial, com a sua toada inconfundível, uma extraordinária noção de ritmo, um raro saber fazer, uma inventiva e agilidade na utilização dos múltiplos recursos estilísticos, incluindo os da nossa mais forte tradição lírica, como a rima e a métrica. Desde o início, até ao último Bairro Ocidental, é isso que fundamentalmente faz de Alegre um grande poeta: é isso que faz a dimensão e o significado ímpares da nossa História e de suas figuras mais simbólicas na sua obra; a afirmação da pátria e sua independência, do povo, sua dignidade e seus direitos; e da Poesia e de poetas maiores, portugueses e alguns estrangeiros; da paz contra a guerra; da liberdade e outros valores supremos; de gentes e territórios, geográficos e afectivos, de Coimbra ao Alentejo e aos Açores; do amor e da morte, com expressão singular, por exemplo, em Senhora das Tempestades. Etc, etc. Épico, mas sem deixar de ser lírico – e até confessional.

Desde logo, disse, na poesia. Mas também na ficção. Com muito de autobiográfico, ainda mais ‘visível’ do que na poesia. Na ficção, particularmente no que respeita à experiência da guerra colonial. Uma vez mais sendo a escrita, o ritmo, a toada da magnífica prosa, um seu traço essencial e identificador. O que, aliás, também é verdade para outros textos de Alegre, em particular de intervenção cívica e política.

E volto a uma efeméride, porque nesta oportunidade se impõe recordar que foi em 1992, há 25 anos (“bodas de prata”…) que saiu Com que pena – Vinte (belos, acrescento) poemas para Camões. Não há poeta português, creio eu – pelo menos hoje, que já não temos cá o nosso Vasco Graça Moura – mais camoniano do que Manuel Alegre. Nunca o esquece, está bem presente em tanto do que escreve(u) e até também por isso foi muito justo e oportuno este prémio. Que chegou a altura de ser entregue fora do modelo habitual, que já aqui critiquei. Mas a isso hei-de voltar.