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Manuel Alegre
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Eugénio Lisboa escreve sobre a obra da Manuel Alegre:
"Manuel Alegre: Pintar a cor do vento"
11-07-2012 Eugénio Lisboa, JL

No espírito tacanho e preconceituoso de alguns figurões da nossa praça literária, Manuel Alegre perde por se lhe colar ao rosto lírico, de alto gabarito emotivo e oficinal, a legenda de lutador político e campeador melhorista, com, ainda por cima, a adensar-lhe o curriculum, anos de exílio em Paris e Argel.

O êxito retumbante – e sonoro – de obras de resistência, como Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967) e a permanente e impregante presença de canções de irresistível sedução como, entre outras, a celebérrima “Trova do vento que passa”, cantada por Adriano Correia de Oliveira, conferem a este eminente bardo um teor de “popularidade” que, entre nós, sobretudo no território das sílfides universitárias, sempre se paga pela tarifa mais alta. Gomes Leal, António Nobre, Junqueiro, Sá-Carneiro, Régio, Torga ou Mourão-Ferreira são, como Alegre, poetas que as pessoas trazem no ouvido (e no coração) – e isso não lhes é facilmente perdoado por aqueles (e são muitos) de quem ninguém recorda nunca, de cor, um único verso. Pessoa também anda nos ouvidos (e, às vezes, nos corações), mas, a este, tudo se lhe perdoa, vá lá saber-se porquê.

A militância política de Alegre – de resto legítima e altamente nobilitante – nunca o abandonou de todo, embora se tenha vindo a diluir num lirismo cada vez mais decantado e, oficinalmente, mais perfeito. Referindo-se um dia ao livro de “sátiras e epigramas” contundentes – A Chaga do Lado , de Régio – David Mourão-Ferreira aludia “ao fundo social e religioso” do poeta de Vila do Conde, indicando que, “neste sentido, Régio é o continuador directo de poetas como Herculano, Antero, Gomes Leal ou Junqueiro, a quem os seus contemporâneos jamais deixaram de perguntar «em que ponto se encontravam», nas suas relações com os homens e com Deus.” E com o seu país, acrescentaria eu.

Com Manuel Alegre, algo de muito semelhante se passa: a cada seu novo livro, de poesia ou de ficção (e a sua poesia é também ficção e a sua ficção também poesia), apetece-nos ir ver , neles, entre outras coisas, em que pé se encontra o escritor, no que respeita ao “estado da Nação”. Nada disto faz dele menos poeta – menos grande poeta - muito embora, às vestais, convenha que assim pareça.

O tema do exílio, que impregna tanto belo poema seu – mesmo deste seu último livro ( Nada está escrito , D. Quixote) – vem de longe e com altos títulos de nobreza: glosam-no, por exemplo, Eurípedes, na Medeia , ou Homero, na Odisseia . Exílio que habita, até, em poetas que, fisicamente, nunca, por aí além, se exilaram: mais ou menos, todos...

Em Alegre, várias vantagens se volvem depressa em desvantagens , aos olhos dos falsamente “exigentes”. O poeta de Senhora das Tempestades é um grande lírico dos sentires mais íntimos, mas é, também, um bardo da tribo ou, se preferirem, da comunidade. Fala aos “happy few” – e com que finura de arte consumada! – mas fala também à tribo mais vasta dos aflitos: dos que perguntam, sofrem e suplicam.

O poeta e crítico inglês Thomas Ernest Hulme, morto, com 34 anos acabados de fazer, em 28 de Setembro de 1917, por estilhaços de granada, na 1ª guerra mundial, deixou uma importante, embora pouco vasta, obra de poeta e crítico, que muito influenciou poetas como Robert Frost e, de um modo geral, todo o modernismo anglo-saxónico. É de Hulme esta passagem extraordinariamente lúcida, que aqui evoco, com prazer, a propósito do lado “comunal”, digamos assim, da poesia de Alegre: “A linguagem”, dizia Hulme, “é, pela sua própria natureza, uma coisa comunal, isto é, nunca expressa a coisa exacta, mas, antes, um compromisso – o qual é comum a ti, a mim e a toda a gente.” Isto é, toda a linguagem procura fazer isto: entrar em compromisso, abdicar de um certo teor de “exactidão”, para poder aumentar o leque dos que lhe têm acesso. Toda a linguagem, repito. Mas, em alguns poetas, um certo e talvez inevitável lado mais “obscuro” (de mais difícil acesso) excede, de longe, o lado mais acessível – e a “dificuldade”, que Steiner estudou, impõe-se. Alegre acumula – tem passagens exigentes (ou mais exigentes) mas, mesmo nessas, há uma óbvia sedução que agarra o leitor e o obriga a não arredar, do poema, a sua atenção. Um dos recursos (não o único) que Alegre não recusa – como não o recusam os grandes poetas do modernismo anglo-saxónico – é a rima , de que se afastam, como da peste, tantos cultores lusíadas do chamado “verso livre”. Verso livre usa-o também Alegre, mas quase sempre bem “aguentado” por “rimas de apoio”, ou abundantes, ou discretamente disseminadas. A rima serve, como sabe quem sabe, para aumentar a força sugestiva do dizer , “valendo-lhe”, onde outras coisas lhe não valem, como muito bem disse Régio, quando cantava o poder de sugestão da rima, numa conhecida ode: “Tu lhe vales, /se as palavras não chegam. Tu lhe trazes /a Frase-Espírito das frases /incompletas.”

A rima, em suma, acrescenta : faz as palavras “chegarem” até onde, de outro modo, chegariam menos... Numa sátira de 1664 (“Sur la difficulté de trouver la rime” ), Boileau, dirigindo-se a esse mestre alado da rima, que foi Molière, pede-lhe lições que lhe forneçam asas: “Dans des combats d’esprit savant maître d’escrime, / Enseigne-moi, Molière; où tu trouves la rime” ( “Em justas de graça, sábio mestre de esgrima, / Diz-me, Molière, onde achas tu a rima”). E nota, quase com inveja, referindo-se à rima: “On dirait, quando tu veux, qu’elle te vient chercher” ( “Basta quereres, para ela te buscar”). E, por fim: “À peine as-tu parlé qu’elle-même s’y place” (“Mal deixas de falar, já ela aí está”).
Alegre insinua a rima, nos seus poemas (mesmo os de verso livre), com a mesma “força fácil” que Boileau , delicadamente, invejava ao mestre da comédia francesa, sagrando-se ele, Alegre, igualmente mestre nesse “rude métier”, como lhe chamava o autor da Art Poétique .

Tudo isto me veio à mente, a propósito deste belíssimo livro – Nada está escrito – que Manuel Alegre acaba de publicar: nele fremem, como sempre, melhor do que antes, todos os seus grandes temas e obsessões, não excluindo, claro está, o do seu inextinguível amor à Liberdade. O grande Alain, que suponho ser hoje muito pouco lido pelas gerações mais recentes, observava que “Hugo é um desses homens que voltam sempre à liberdade como fonte de todo o bem.” Alegre também: veja-se o poema com esse título, que fulgura, já perto do fim do livro, na página 80:

Eles não sabem do grande espaço aberto
onde voam os patos e as narcejas
nem procuram as sílabas perdidas
que há muito outros cantaram e onde brilhavam
as espadas o sol e a liberdade.

A poesia de Alegre ousa e vigia-se, atreve-se e contém-se, ilumina o escuro que também a habita, hesita entre a mais ampla sonoridade e o mais fechado silêncio: grita e cala-se. Sofre e levanta-se. Tenta o impossível. Alguém dizia que a poesia é a tentativa endiabrada de pintar a cor do vento. A poesia de Manuel Alegre por certo que ensaia erguer-se até ao topo desta loucura.

P. S. – Na tradução dos versos de Boileau, que acima dou, procurei, para a versão portuguesa, as mesmas doze sílabas do original.