"Corri riscos, estive com pessoas que pertencem à História. Tudo isso fez de mim aquilo que sou."
Manuel Alegre
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A propósito de "País de Abril"
Poeta "militante"
31-12-2014 Ramiro Teixeira, crítico literário, "As Artes entre as Letras"

Por conjunturas que me escapam, como já uma vez referi, não foi Manuel Alegre apelidado de poeta militante, apesar de inequivocamente ter produzido não só matéria ideológica afim à aventura politicamente comprometida, como ter existencialmente dado corpo ao tipo de herói, ao menos cinematográfico, tantas as provações e perseguições que experimentou, as quais lhe deram o estatuto especial de ser um dos bandeirantes do nosso generoso imaginário.

Militante foi sempre e com nada ou muito pouco de neo-realismo, apesar de Mário Sacramento o ter pretendido como o maior poeta, oficial, do dito! Claro, coisas da época, pois não se entendia que uma poesia contestatária se situasse fora do paradigma defendido pelo PCP, ainda que tal ocorresse tardiamente, dado que a publicação de “O Canto e as Armas” é de 1967, no seguimento de “A Praça da Canção” que é de 1965.

Decerto que a poesia de Manuel Alegre não pode ser separada do comprometimento, engajamento ou da intenção assumida por si. Acontece, porém, que o único compromisso que o poeta sempre estabeleceu no que produziu e produz é com o seu país, Portugal, e com esperança de ele se revelar sinónimo de democracia libertária, além, claro, do outro compromisso que tem com a obra que realiza e que não pode desvirtuar estes parâmetros, enquanto relato de uma época, de uma situação. E daqui resulta ainda a sua outra condição de tribuno, de símbolo da essência da condição de ser português.

Ao contrário da maioria dos seus pares, Manuel Alegre não se serve do espírito da História passada como um anátema sobre as gerações futuras, espécie de pecado original que para todo o sempre nos marca como pecadores, dando-nos como opressores, assassinos, mercenários, enfim, escória do mundo. De postura bem diferente é o seu canto, pois exuberantemente se afirma como um poeta lusíada, da mesma têmpera de Camões e simultaneamente de Fernão Mandes Pinto, sem dúvidas ou quebras permissivas quanto ao que é o sentido geral da condição de ser português.

Eu que matei roubei eu que não minto / se vos disser que fui pirata e fui ladrão. / Eu que fui como Fernão Mendes Pinto / o diabo e o deus da minha peregrinação.

Ou estes outros fragmentos de poemas seus:

Não mais Alcácer Quibir./ É preciso voltar a ter uma raiz / um chão para lavrar/ um chão para florir. / É preciso um país.

Porque tiveste o mar nada tiveste. / A tua glória foi teu mal. / Não te percas buscando o que perdeste / procura Portugal em Portugal.

Outra das características da sua poesia traduz-se no vínculo que estabelece com as fontes mais genuínas da nossa tradição poética: o lirismo galaico-português (Já meu país foi uma flor de verde pinho…) e romanceiro afim.

Tal como Pessoa em “O Menino de sua mãe”, Manuel Alegre consegue acasalar a amenidade dos ritmos populares e a musicalidade que os serve com a tragédia que eles narram, interseccionando a evocação das cantigas e crónicas do passado com o circunstancial do seu e nosso tempo, envolvido em acontecimentos que era e é urgente denunciar, reavaliar e integrar, sem perda da força motriz que nos fez como somos. E assim se por um lado invectiva a consciência colectiva, por outro não deixa de rimancear, de acordo com a génese da nossa poesia, a aventura de Pedro Soldado, cativo da nossa condição de ser fora de fronteiras, ora a mando de Império, como no caso, ora pela necessidade de buscar pão, sempre por artes e malas artes na condição de português errante. A ver o seguinte fragmento:

Triste vai Pedro Soldado.
E leva o nome bordado
num saco cheio de nada.

Soldado número tal
só a morte é que foi dele.
Jaz morto. Ponto final.
O nome morreu com ele.

Deixou um saco bordado.
E era Pedro Soldado.

A seu modo, Manuel Alegre, tal como Almeida Garrett, foi o revolucionário que veio apropriar-se da herança histórica para nos indicar o caminho do futuro. Assim “Chegar Aqui” (1984), no poema do mesmo nome, de que transcrevo o seguinte fragmento:

E navegámos tanto tempo / São Gabriel Santa Maria Frol de la Mar / Não há dúvida temos um passado / Talvez demais / Talvez tanto que não deixa lugar para o futuro // Mas foi pelo mar que chegámos longe // E agora Portugal que será de ti? / Se não formos capazes de chegar / Aqui

Renovando permanentemente o canto sobre a terra e o povo português, celebrando o Portugal que quer viver de pé e alimentado, Manuel Alegre, tal como Agostinho da Silva, bem pode afirmar ter andado sempre empenhado na (re)descoberta do sentido histórico de Portugal! E a tal ponto (vejam lá como são as coisas!), logo nos seus primeiros livros. “Praça da Canção” e “O Canto e as Armas”, em vários poemas vaticina um Abril, redentor e premonitório, em contraponto com o outro Abril promotor do turismo em Portugal pelo SNI!

Abril que é renovado em “Atlântico” (1981), no poema “Crónica de Abril”, no qual o poeta estabelece uma simbiose felicíssima entre a narrativa de Fernão Lopes e a crónica da alvorada libertadora.

“País de Abril”, que reedita sob a forma de antologia muitos destes poemas vaticinadores do futuro que lhe coube, dá bem a dimensão da fidelidade do percurso poético de Manuel Alegre e que promete continuar quer na poesia, quer na prosa narrativa. A ver o poema “O Cravo e o Travo”, de o “Livro do Português Errante” (2001), do qual transcrevo os versos finais:

A partir de agora é só sondagem imagem sacanagem.
Gosto amargo do mundo
bebe-se um trago e fica um travo.

Se a História é interdita e não nos resta sequer a escrita
que farei eu com este cravo?

Ou seja: que faremos com este cravo, sinónimo de Abril, se agora é só sondagem imagem sacanagem?