"Não gosto de engenharias sociais ou artificiais messiânicas"
Manuel Alegre
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Carta de Vasco Graça Moura a Manuel Alegre
23-03-2013 Vasco Graça Moura

Caro Manuel Alegre,

Ditei o texto sobre a sua poesia numa situação em que não tinha os seus livros comigo. A impossibilidade material de os consultar não me preocupou muito: não se tratava de escrever um artigo de tese, mas um texto de apresentação de um poeta que muito admiro e cuja obra tenho seguido com alguma atenção, e procurei, confesso, fazer das fraquezas uma força.

Repescar aquilo que tenho mais presente da sua poesia na minha memória de leitor e de escritor e de falar sobre esse “compacto”: tratava-se de esquadrinhar a memória, de ver o que é que, ao longo de tantos anos, desde para aí os Poemas Livres de princípios da década de 60, em que os jovens poetas de Coimbra se contrapunham a certo experimentalismo dos jovens poetas de Lisboa, me ia ficando do que Você escrevia, que impressões se combinavam, que registos, técnicas, retóricas, relações com o mundo se estabeleciam, coisas assim, umas de estilo outras de representação do real, das emoções intelectuais, dos sentimentos, dos amores e das aversões, de algumas das nossas, afinal comuns, fascinações literárias…

Relido o texto e feitas algumas correcções de pormenor, não acho que deva modificar nada nele, pois corresponde a um exercício de boa-fé literária: não procurei nenhum curto-circuito, nenhuma destreza argumentativa, nenhuma subtileza especial. Quis mostrar apenas o que é que recordava de si ao falar de si, em termos muito sintéticos.

Só acrescentaria, em relação ao seu poema “A sombra”, que ele me trouxe à ideia o final de um poema, muito diferente e que de facto não tem nada a ver com ele a não ser o processo de associação que suscitou em mim. É do Wallace Stevens e chama-se “Invectiva contra os cisnes”, que o Luís Quintais traduziu assim:

"A alma, ó gansos, voa para lá dos parques
E muito para lá das discórdias do vento.

Uma chuva brônzea do sol descendo assinala
a morte do verão, que neste tempo persiste

Como alguém que rabisca um apático testamento
De garatujas douradas e páfias caricaturas,

(…)

E a alma, ó gansos, sendo solitária, voa
Para lá das vossas indiferentes carruagens, para os céus."

A sombra que perpassa no seu poema, caro Manuel Alegre, já bem alheada daquela "Senhora das Tempestades" por cujos territórios intimidantes e terríveis jornadeou, como que se cruza agora com a sombra desta alma um tanto ou quanto crepuscular e metafísica, mas acontece que, de repente, volta a revigorar-se como matéria de palavras, no belo texto que a Hélia Correia e o Jaime Rocha escrevem a seu respeito.

Na íntegra, esse poema, intitulado Este País Não Serve nos Teus Ombros é um poema político, cujas ironias quadram ao destinatário e à sua actividade poética numa perspectiva a que podemos chamar histórica de confronto de grandezas e estaturas. Não falarei desses aspectos, mas tão somente da última estrofe, que foi a selecionada para a edição deste livro de arte agora apresentado e que a recolhe sob o título "Para Manuel Alegre".

A leveza da sombra que passa e que perpassa encontra uma singular coincidência nesse fragmento terminal:

"O que ainda assenta bem
sobre os teus ombros
é o manto da página.
É a voz
com todo o seu tecido.
Uma grandeza
cobrindo e descobrindo
outra grandeza,
conforme o vento passa
e nos responde."

O manto da página surge-nos assim como uma expressão metapoética, em que o próprio suporte material do poema surge a adornar o poeta, e esse manto a recobri-lo “é a voz / com todo o seu tecido”, é uma dimensão de acolhimento e interiorização que circula como a aragem, transporta as palavras consigo, e deixa, no vaivém dessa respiração, umas frases esparsas em que nós, leitores do voo das aves, da levitação grata das palavras e das metáforas que por elas se insinuam, nos vemos como “capazes de esperança”, isto é, como seres vivos no território em que vivemos e a que teimamos em chamar nosso.

Aceite um abraço amigo, extensivo, claro está, à Hélia Correia e ao Jaime Rocha, deste seu velho admirador

Vasco Graça Moura

Lisboa, 23 de Março de 2013