"Se publicasse as memórias, lá apareceria o Kurika como companheiro"
Manuel Alegre
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"O Canto e as Armas"
19-04-2013 Pedro Bacelar de Vasconcelos, Jornal de Notícias

Começou por falar de literatura, da escrita e da inspiração criadora, tudo a pretexto de, "Tudo É e não É" - o nome do seu último romance. E contou-nos de que forma tudo acontece, na literatura ou na música, começando pela íntima sintonia com "uma toada uma cadência" vagamente percebida e acabando na subversão das fronteiras entre a prosa e a poesia, entre o sono e a vigília, a ficção e a realidade. De como a solidão do artista tanto o precipita nos abismos da existência como, por cósmica transubstanciação ou dialética, o reincarna na alma coletiva a que umas vezes dá o nome de "pátria", outras, de "revolução". Aconteceu na TVI 24, a partir das 23 horas da passada terça-feira. A entrevista de Manuel Alegre está integralmente disponível na Internet. Não foi mais um evento mediático ou vulgar entrevista: foi uma "aparição"!

O poeta tranquilo falou de tudo e de nada, do "que é e não é", desde os sonhos que atormentam o autor fingido que narra o seu romance - António Valadares, um "autor aflito" - até à substância dos sonhos, onde o sentido das palavras - cita Walter Benjamin - "está por baixo da língua". Tanto na história ficcionada como na entrevista televisiva, procura o sentido - ou sem sentido - das coisas prosaicas e o espanto que nelas surpreende os personagens que inventou. A dívida soberana, a Banca e os mercados financeiros - o "Mão Invisível"! O desemprego, a Europa perdida, a vida e a morte - "Felipe", o guerrilheiro latino-americano supostamente assassinado. O rececionista do hotel, sem nome nem rosto, ou António Valadares - ele próprio, o narrador, não o autor autêntico - a espera, o "casaco perdido", a "trouxa por fazer", o "autocarro", um destino incerto e sempre, sempre a urgência de "partir". Em cavaqueira amena, sem interditos nem sobressaltos, sem arrogância ou falsa modéstia, ele - um magnífico príncipe da República - confessou que se soubesse então o que sabe hoje, não se teria candidatado às últimas eleições presidenciais e teria remetido ao seu partido a maçada da escolha do candidato a apresentar. Porque não há vergonha na derrota, diz sem remorso para logo acrescentar com valentia: "vergonha é não lutar".

"O que lá vai, lá vai", disse um. "Está enterrado", concluiu o outro. Assim, com olímpico desprezo pelas teias tortuosas da intriga que a humana mesquinhez entretece, sem interditos, sem sobressaltos, nem mesmo a sombra de um ressentimento, contou a história simples de uma improvável reconciliação: não foi António José Seguro quem atendeu a chamada que lhe acabara de pedir por escrito, com urgência. Foi um secretário-geral, sim, mas de há muito tempo, quem o atendeu e o tratou por, "Meu querido amigo": - Mário Soares. E acaba a história, sem pieguices nem mais delongas... porque sabem que não há tempo nem nada é mais urgente que "derrubar o Governo!". Tal e qual. Este não é o país de "brandos costumes", submisso e paciente, "bom aluno" da troika e dos burocratas europeus. Pelas mãos deste povo caiu a monarquia absoluta, já no século XIX, e nasceu uma das primeiras repúblicas na Europa do século XX. O 25 de abril tardou, mas tudo o que mudou com a Democracia e a Europa, precisa já de ser reinventado.

E recordando os propósitos originais da construção europeia, recitou - como se fosse um verso de um poema seu - a cláusula que consagra o desígnio de alcançar "uma prosperidade partilhada por estados iguais e soberanos". Com lucidez e coragem, afirma que é preciso "um plano B": ainda é cedo para sair da Europa mas "se a Europa implodir temos de estar preparados". É imperioso evitar que o euro se transforme no instrumento de um novo "espaço vital", mas que sentido faria sacrificar a nossa história e a nossa independência no altar de uma "Europa germanizada" ?

"De mãos é cada flor cada cidade / Ninguém pode vencer estas espadas: / nas tuas mãos começa a liberdade!" E fecha-se esta crónica em jeito de homenagem ao poeta Manuel Alegre, precisamente no 171.º aniversário do poeta Antero de Quental. Amáveis coincidências.