"Se publicasse as memórias, lá apareceria o Kurika como companheiro"
Manuel Alegre
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Baptista Bastos sobre "País de Abril" de Manuel Alegre
A nossa tristeza triste
09-04-2014 Baptista Bastos, DN, excerto

O cantochão, o hissope, a labareda inculcaram-nos o terror e o medo, pecadores infames e sem remissão. Em quase mil anos de história, e atendendo a todos os conceitos de liberdade conhecidos, temos sufocado com a falta dela e as imposições das classes dominantes. Não há que fugir a isto.

Os grandes poetas não se calaram, apesar de tudo. De Camões a Sá de Miranda, passando por Bocage e, mais próximo, O’Neill, Armindo Rodrigues e José Gomes Ferreira, todos eles e muitos mais nunca foram cúmplices do silêncio, porque enjeitavam a vassalagem. “Não hei-de morrer sem saber a cor da liberdade”. Eis o grito de Jorge de Sena. “A tristeza é o vinho da vingança”, cantou Carlos de Oliveira. E Manuel Alegre publicou, agora, País de Abril, uma selecção de poemas belíssimos que talvez devesse ser lida nas escolas.

“É preciso saber porque se é triste / é preciso dizer esta tristeza / que nós calamos tantas vezs mas que existe / tão inútil em nós tão portuguesa.”

Somos assim porque o somos? Não porque assim nos fizeram, moldados às circunstâncias? Manuel Alegre sabe que a História é uma deusa cega: cobriram-lhe os olhos aqueles cuja sede de domínio encontrou apoio e sustentação em forças e instituições que cultivam e impõem a superstição, o respeitinho, a obediência, a servidão. Quando passam quarenta anos sobre a data na qual a felicidade foi a estrela cintilante da manhã, quando vislumbrámos ser felizes, enredou-nos novamente “esta tristeza que nos prende em sua teia”. As sombras dos muitos medos regressaram-nos e reassolaram a Europa. Os medos que visam atingir o que caracteriza a lógica da liberdade. Os medos que possuem rostos, os de agora, expressão do que sempre foram. O reaparecimento destes rostos constitui o modelo de um mundo que não morre porque fundado na relatividade e nas hesitações das coisas humanas.

“Porquê esta tristeza como e quando / e porquê tão submissa tão tranquila (…) É preciso matar esta tristeza.”