"Se publicasse as memórias, lá apareceria o Kurika como companheiro"
Manuel Alegre
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Paula Morão sobre os 50 anos da "Praça da Canção"
Alguém cantou: a pátria somos nós
17-03-2015 Paula Morão, JL, dossier especial, 21.1.2015 a 3.2.2015

Passaram 50 anos sobre a 1ª edição de Praça da Canção? Releio hoje o livro, e a espessura do tempo torna-se material, que não pesada. A História portuguesa que nele ganha corpo - o tempo de tristeza, de prisão, de exílio e de guerra – forma um dos importantes filões a guiar a leitura, num painel em que outros nomes, seus coetâneos, se inscrevem a ouro (Sophia, Alexandre O’Neill, Fernando Assis Pacheco ou Gastão Cruz, por exemplo).

Mas outra vertente há, indissociável da primeira. A praça é da canção, enche-se de palavras ressoando numa deriva sem fim, mesmo porque a este par corresponde logo a seguir um outro, o de O Canto e as Armas (de 1967), prosseguindo na senda do rosto duplo do poeta: ele canta mas empunha a espada, como os heróis antigos representados por Virgílio ou como o Camões épico, numa linhagem de poetas divididos entre o uso lírico da palavra e a sua função de cidadania.

Para o leitor de hoje, Praça da Canção apresenta os contornos da surpresa da sua contemporaneidade: a mim, este 1° volume da obra poética de Manuel Alegre parece-me escrito ontem e publicado agora. Talvez assim seja porque o posso ler em contexto, na sequência da obra publicada até hoje, e não apenas enquadrado na obra lírica, mas nos outros géneros que o autor pratica (sobretudo, ficção de teor memorialístico e autobiográfico). Leio hoje Praça da Canção respaldado na história literária do escritor, constituindo livro a livro uma figura de autor de tal modo consistente e forte que é como a túnica inconsútil - um só tecido sem costuras. Porque em Praça da Canção parecem já presentes tópicos maiores que nunca mais deixarão de estar à flor dos textos de Alegre.

Talvez isto seja mais claro se tivermos em conta que o poeta hoje continua a ser o mensageiro que vai “pelos caminhos” na “bicicleta de recados” do poema epónimo: “Pedalo nas palavras atravesso cidades/ bato às portas das casas e vêm homens espantados/ ouvir o meu recado ouvir minha canção”; o poeta é literalmente o portador, aquele que leva “recados” feitos de “palavras” - canções, canto actuando como arma. Ontem como hoje, o poema dirige-se aos “homens espantados” que talvez saiam de suas casas e lavrem, mais que os campos, as suas próprias almas despertas pelo “recado” sobre a cidade de que são activa parte, dita pel’ “O poeta” que assim se apresenta: “Ele aprendeu o preço exacto da canção / (…) É um homem a cantar/ um homem que sorriu aos tambores nocturnos/ dos vossos cárceres depois cantou/ de pé no seu poema.”.

A poesia faz-se como um saber de experiências e de História, faz-se como um instrumento para chegar à luz: o canto vence a noite, a “canção acesa” irrompe “sobre a noite/ do mundo” (“Canção de circunstância”). A consciência de que a poesia é um ofício, como os clássicos já prescreviam, chega à canção e transfigura a vida. Há muitos exemplos disto em Praça da Canção; tome-se “Como se faz um poema”, discorrendo sobre a arte dos versos na glosa de “Com muita coisa fiz o meu poema”.

Uma das “coisas” de que o poema se faz é a partilha das palavras com aquele grupo de soldados que na guerra “se sentavam ao redor da lenha”, à noite (como tantos soldados em tantos textos, ou em filmes de John Ford); o alferes que os chefia não pertence inteiramente ao mundo deles, porventura mais próximo do chão, e pergunta-se: “Como falar- lhes?”. E “De repente” vence a distância, pela palavra transporta-os à memória de cada um mas também à dimensão épica de que, sem o saberem, são representantes: “De repente eu disse:/ camaradas a pátria somos nós./ (…)/ meu poema acendeu-se no cimo da lenha/ alguém cantou: a pátria somos nós.”

A fogueira volveu-se poema e o poema ganhou a leveza do fogo: o canto e as armas sobrepõem-se na praça da canção. O tempo torna-se denso de todos os tempos, e isso implica-nos, a todos nós, feitos de palavras obscuras de tão claras, no verso que ecoa sem fim: “a pátria somos nós.”