"É preciso subverter o discurso cinzento e tecnocrático e recuperar a força primordial da palavra"
Manuel Alegre
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Francisco Seixas da Costa e O Canto e as Armas
19-03-2017 Francisco Seixas da Costa, Facebook do autor

Uma noite, há quase duas décadas, eu e uma amiga, num grupo de gente bem mais nova do que nós, declamámos partes de poemas de Manuel Alegre. Os circunstantes olharam-nos com surpresa (não ouso dizer que com admiração) e, claro, perguntaram por que diabo sabíamos de cor essa poesia.

Foi difícil (e continua a sê-lo) explicar a essas pessoas, nascidas a partir dos anos 60, que a poesia de Alegre, na sua fase mais afirmadamente neo-realista (nome que, ao tempo da ditadura de cá, se dava àquilo que lá fora era designado por "realismo socialista") era muito mais do que simples literatura. Era a expressão literária da revolta, era a trova da luta anti-fascista, era uma vocalização rimada que educou as gerações que vieram a fazer o 25 de abril.

Durante muito tempo, para mim, Alegre foi apenas uma voz e uma escrita. A voz era aquela que nos chegava de Argel, nas ondas da "Rádio Voz da Liberdade", o discurso inflamado que apelava à insurreição, dirigido aos "amigos, companheiros e camaradas", ouvido à sucapa nas madrugadas. A escrita eram, muito simplesmente, dois livros: "A Praça da Canção" e "O Canto e as Armas". Era nessa poesia empolgante, adjetivada de vigor revolucionário, subversiva para o estado de coisas que se vivia no país, que então assentávamos, com ou sem música, a nossa esperança na chegada do dia em que por aí viria a liberdade.

Um dia, esse dia, o país viu chegar Alegre e olhou pela primeira vez a sua cara, a que o tempo juntaria uma barba solene. Rapidamente ele se juntou ao PS (porém, a ideia de que Alegre é um "histórico" do PS é apenas um mito), depois de, já por cá, ter passado por uma mini-estrutura efémera chamada "Centros Populares 25 de abril". Argel e o complexo microcosmos de tentativa de coordenação da luta contra o Estado Novo que aí foi criado nos anos 60 ficara para trás. Para além da voz (que continua a ser a sua imagem de marca) e da escrita (onde definitivamente se consagrou), Alegre foi e é, essencialmente, um político. Frontal, polémico, esteve e deixou de estar com Soares, tentando por duas vezes um destino nacional que lhe não sorriu. Mas, para sempre, ficou como um dos rostos mais simbólicos da nossa democracia.

Posso imaginar que Manuel Alegre, nos dias de hoje, olhe para os dois livros que acima referi, e de que ainda sou capaz de declamar alguns poemas, com um sentimento ambivalente. Por um lado, estou certo que os não renega, não apenas por serem as suas primeiras obras mas também pelo facto de terem sido aqueles que o fixaram no imaginário de algum país. Mas, igualmente, posso crer que pretenda, de certo modo, "ver-se livre" deles, porque, com toda a certeza, tem o sentimento de que muito daquilo que, a partir de então, publicou é, no plano literário, muito superior a essa histórica produção "de juventude". A vida, contudo, pode ser algo injusta: não conheço ninguém (a começar por mim) que conheça de cor algum dos seus belos poemas mais recentes. E, no entanto, alguns de nós conhecemos, muito bem, os mais antigos e talvez menos valiosos literariamente.

Vem isto a propósito de "O Canto e as Armas", cuja edição faz agora meio século, dois anos depois de "A Praça da Canção". Vou reler o livro por esta noite dentro: lembrar-me-ei das poesias "icónicas" e "incontornáveis" - como irritantemente agora se diz - mas, essencialmente, ao lê-las, recordar-me-ei com certeza da impressão que elas me produziram quando as vi pela primeira vez. É que, nesse tempo, eu tinha todo o futuro do mundo à minha espera.