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Manuel Alegre
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José Mário Silva escreve sobre "Auto de António Último Príncipe de Avis"
Crónica do rei sem reino
28-10-2017 J.M.S, Revista do Expresso

Primeiro livro publicado por Manuel Alegre depois de ter vencido, em junho deste ano, o Prémio Camões, “Auto de António Último Príncipe de Avis” é simultaneamente uma notável homenagem à figura de D. António, Prior do Crato, e uma vindicação da sua memória. Ou melhor, uma defesa da sua importância histórica – mas sobretudo simbólica – enquanto emblema de um país que Portugal podia ter sido e não chegou a ser.

Neto de D. Manuel I e pretendente ao trono, durante a crise de sucessão provocada pela morte de D. Sebastião, em Alcácer-Quibir, onde de resto também combateu, D. António foi aclamado rei em 1580, embora não conste da galeria oficial de monarcas, devorado que foi pelas manobras politicas e conspirações da época. A derrota militar na batalha de Alcântara, diante das tropas do duque de Alba, ditou a sua sorte. Protegido pelo povo miúdo e pelo baixo clero, que nele se reconhecia e nunca o denunciou, viu Portugal ser subjugado pelo poder de D. Filipe II, de Espanha. Já no exílio, que passou por Inglaterra e terminou em Paris, onde viria a morrer, em 1595, continuou a sonhar com o regresso e com a restauração da independência nacional perdida.

Proscrito e esquecido, ao ponto de não se saber ao certo onde estarão os seus ossos, o Prior do Crato faz parte do longo cortejo dos derrotados da História. E é desse lugar ingrato que Manuel Alegre o arranca neste ciclo de poemas, mostrando de que forma o seu exemplo se repercutiu, não apenas no tempo, mas ao longo dos séculos. Sobre o rei sem reino, “vencido e contudo invencido”, ouvimos várias falas: a do “puto” que o saúda no Rossio e leva um tiro na cabeça; a de outros Antónios (incluindo um soldado ferido na Guerra Colonial); a de amantes; a de um dragoeiro (“Com bagas de dragoeiro / seu nome no chão se escreve / António, o Primeiro. / Para sempre. E tão breve.”); a de uma sereia açoriana; a de Jorge de Sena; e até a do próprio Prior do Crato, “uma espécie de sombra” que se intromete na escrita do poeta e com ele se confunde.

O todo é uma polifonia, um coro de vozes escavando, até à essência, uma ideia de Portugal, o traço de uma identidade colectiva. “E agora onde está ele / o que trazes escondido / sob a pele / o que podia ter sido / como cada um de nós / e nunca foi? Talvez ninguém se lembre / mas ele és tu. Ou talvez eu. / E dói.”

O crítico literário do Expresso atribuiu quatro estrelas ao livro "Auto de António Último Príncipe de Avis" de Manuel Alegre