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Manuel Alegre
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Fernando Guimarães sobre "Auto de António" de Manuel Alegre:
Do estilo elevado em poesia
25-10-2017 Fernando Guimarães, JL

"(...) este outro poema, cujo título “Fala de um e do outro” não deixa de ser significativo, quase poderia ser interpretado como uma espécie de arte poética, a qual acaba por se estender e dar sentido a todos os outros versos deste livro: “Um poema permite mudar lugares / países tempos amores / permite até juntar pessoas / séculos /colocar um onde devia estar o outro / ou onde nenhum sequer devia estar. / Permite juntar e separar e misturar / vidas e factos e fragmentos. / Por isso eu fui a Alcântara e não perdi / e agora sou António / e estou aqui.”

Poderíamos falar em “estilo elevado” se considerássemos em particular a poesia épica. Uma referência fundamental seria Os Lusíadas e toda uma série de poemas épicos que o seu exemplo proporcionou e que foi atravessando os séculos seguintes até se chegar a O Oriente, de José Agostinho de Macedo, que ingloriamente já no século XIX pretendeu em “nobre verso”, como diz, suplantar a obra de Camões. Ainda no mesmo século, a presença tutelar da tradição camoniana far-se-á sentir no poema em dez cantos de Almeida Garrett cujo título é precisamente Camões. Apesar de uma acentuação já romântica deste poema, será em pleno Romantismo que o “nobre verso” do género épico acaba por encontrar o seu crepúsculo; é que essa nobilitação era conseguida sobretudo pelo seu enquadramento estrófico e uma referencialidade histórica demasiado explícita por se tornar descritiva, predominantemente narrativa.

Ainda na reta final do século XIX, Guerra Junqueiro faz sair, entre 1890 e 1896, dois livros seus: Finis Patriae e Pátria. Sobretudo neste último ganha especial relevo uma tonalidade elevada ou épica que se faz sentir numa ampla perspectivação da história portuguesa ocupada pela dinastia brigantina. A novidade do poema está no decisivo afastamento do “nobre verso” que sofre a quebra da uniformidade estrófica, ao mesmo tempo que se faz sentir uma tonalidade deceptiva, ironizante e por vezes caricatural que contrasta com o tom geralmente exaltatório do género épico que, não obstante, a Pátria de certo modo recupera quando a “raiz da árvore” brigantina surge na personagem do espetro de Nuno Álvares Pereira.

É neste quadro que o género épico, no século XX, se desestrutura completamente, para que se ganhe uma nova configuração. Se se mantém uma referencialidade histórica, esta decorre num espaço de total liberdade rítmica e estrófica, ao mesmo tempo que se abandona um sentido de narratividade que era peculiar da epopeia. Um dos casos que ilustra bem a transformação que se dá é a Mensagem, de Fernando Pessoa, transformação essa que é prosseguida pelos Poemas Ibéricos, de Miguel Torga, e, depois, por Manuel Alegre (MA) em algumas das suas obras, como é o caso do seu livro de poesia agora saído, Auto de António.

A palavra “auto” sugere um género literário que, no caso da poesia, seria o dramático, o que é manifestamente o caso do drama em verso O Indesejado, de Jorge de Sena, a quem Manuel Alegre alude num dos seus poemas. Ao longo de Auto de António surge-nos também como protagonista D. António Prior do Crato. Mas no livro de MA há uma certa dispersão que se torna irradiante para outros personagens que o são de forma mais ou menos alusiva, a qual vai da personificação colectiva que seria a do povo que se rebelou com o Prior do Crato, até uma mais direta nomeação como é a que, no poema a seguir transcrito, se reporta ao desembarque do exército liberal no Mindelo ou, já nos nossos dias, à intervenção política do General Humberto Delgado que tão tragicamente acabou: “Fomos António e não sabíamos / com paus e foices viemos por António (…) / mais tarde desembarcámos no Mindelo / depois viemos por Delgado / éramos António e não sabíamos. / Tão depressa o povo aclama / como esquece / assim António assim Delgado / ele também Prior do Crato sem saber / caído e não caído / como António / o que foi rei sem nunca o ser.”

Há aqui, a partir de um desenvolvimento expressivo que tendencialmente aponta para a alegoria, a aproximação sobretudo bem marcada no verso final para uma maior dispersão significativa conseguida por uma contradição e, ao mesmo tempo, por uma intensificação verbal que se aproxima do oximoro. A figuração alegórica desfoca-se, surgindo, então, uma maior densidade conseguida pela sua disponibilidade significativa, a qual ganha um valor que é já simbólico.

Com efeito, há na poesia de MA derivas como esta. Particularmente no Auto de António, elas decorrem tendo presente um segundo plano ou fundo histórico, o qual confere um tom “elevado” que corresponde a uma apreciação das chamadas lições da história que, no entanto, fazem com que essa poesia seja mais ética que épica.

O Prior do Crato é no livro uma figura exemplar. Geralmente a historiografia tradicional vê-o como um exemplo que quem lutou por uma independência nacional. Não nos esqueçamos, todavia, que Oliveira Martins – que tanto influenciou Junqueiro que o cita em Finis Patriae – vê no Prior do Crato alguém que apenas se dispôs “ a repetir a história de 1385” e que, a partir de Lisboa com o apoio de uma “plebe desvairada”, vai criar “um reinado da demagogia” que compara à Comuna parisiense de 1871, a qual tanto perturbou a nossa Geração de 70.

Manuel Alegre, alheando-se desta imagem que Oliveira Martins nos dá, aproxima-se mais de um historiador dos nossos dias, António Borges Coelho, que, aliás, aparece referido em três notas finais do Auto de António. Borges Coelho vê em D. António alguém que se uniu ao povo, ao baixo clero e a jovens fidalgos, naquilo que talvez se pudesse quase entender como uma aproximação, aliás muitíssimo diferida, do que seria uma luta de classes.

É também esse diferimento, mas de outra natureza, aquele que se dá na poesia de MA se se considerar aquela disponibilidade significativa a que atrás nos referimos. Ela será a clave – esta palavra de procedência musical vai muito ao encontro do modo como há na poesia de Alegre uma musicalidade que, por exemplo, é assumida pela rima dos seus versos – a partir da qual se pode ler a parte final de um dos seus poemas: “António estava aqui sem estar aqui / andava pelo Mundo e era do Mundo / com muita gente dentro dele e solitário / senhor da sua amada melancolia / rei sem reino em Londres e Paris / de si mesmo disse / o que outro António foi: / Só. / E mesmo sem país foi um país.” E este outro poema, cujo título “Fala de um e do outro” não deixa de ser significativo, quase poderia ser interpretado como uma espécie de arte poética, a qual acaba por se estender e dar sentido a todos os outros versos deste livro: “Um poema permite mudar lugares / países tempos amores / permite até juntar pessoas / séculos /colocar um onde devia estar o outro / ou onde nenhum sequer devia estar. / Permite juntar e separar e misturar / vidas e factos e fragmentos. / Por isso eu fui a Alcântara e não perdi / e agora sou António / e estou aqui.”