"Precisamos de um barco. Um barco para chegar / a Ítaca dentro de nós: tão em si mesma perdida"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre (ao centro) com os membros do CITAC (Gare de Austerlitz, 1964). À direita, é reconhecível Adriano Correia de Oliveira
Manuel Alegre (ao centro) com os membros do CITAC (Gare de Austerlitz, 1964). À direita, é reconhecível Adriano Correia de Oliveira
Manuel Alberto Valente no Expresso:
"Um Barco para Ítaca"
16-10-2021 Manuel Alberto Valente, Revista, Expresso

Lido hoje, à distância de 50 anos, percebe-se a grandeza desse poema coral.
Reeditado agora pela primeira vez em edição autónoma, com uma capa que reproduz um tapete que Mafalda, sua mulher, bordou nos tempos do exílio, “Um Barco para Ítaca” levou-me de volta a uma juventude em que o sonho ainda comandava a vida.

No verão de 1964, o CITAC (Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra) levou ao Festival Internacional de Teatro Universitário de Erlangen, na Alemanha, a peça “A Nossa Cidade”, de Thornton Wilder, numa encenação de Jacinto Ramos. A viagem a Erlangen foi para quase todos nós o primeiro contacto com a liberdade dessa outra Europa que começava para lá dos Pirenéus. Três anos antes, fora construído o Muro de Berlim e em cada cidade alemã podia ver-se uma pequena réplica com a frase “Eine Mauer trennt das deutsche Volk” (“Um muro divide o povo alemão”).

No regresso, o grupo ficou um par de dias em Paris para dedicar um espetáculo à comunidade emigrante. Claro que houve tempo para uma sopa de cebola nos velhos Halles e para umas cantorias à beira-Sena com o Luís Cília e o Adriano Correia de Oliveira. Mas o mais importante foi a visita a Champigny, o bidonville dos portugueses, um mar de lama que era a imagem de um Portugal de miséria e exílio. Foi aí que vi pela primeira vez Manuel Alegre, discursando do alto de um palanque improvisado.

Alegre era já na altura um ídolo para a juventude universitária e os seus poemas começavam a ser cantados e conhecidos. Mas foi a publicação da “Praça da Canção”, em 1965, quando já estava em Argel, a tornar-se uma espécie de bandeira para todos aqueles que lutavam por um país livre “em tempos de servidão”. Proibido e retirado do mercado, as edições policopiadas corriam de mão em mão e os poemas eram ditos e cantados nas reuniões universitárias e nas coletividades de recreio, como se só a palavra pudesse antecipar um futuro melhor.

Em 1967, apareceu “O Canto e as Armas” e, em 1971, “Um Barco para Ítaca”, que não teve o impacto dos anteriores — e, no entanto, lido hoje, à distância de 50 anos, percebe-se a grandeza desse poema coral que vai buscar aos mitos da Antiguidade Clássica a matéria com que apela ao reencontro e à esperança: “Precisamos de um barco. Um barco para chegar/ a Ítaca dentro de nós: tão em si mesma perdida”. Reeditado agora pela primeira vez em edição autónoma, com uma capa que reproduz um tapete que Mafalda, sua mulher, bordou nos tempos do exílio, “Um Barco para Ítaca” levou-me de volta a uma juventude em que o sonho ainda comandava a vida.

Quando, em 1964, me despedi de Manuel Alegre na Gare de Austerlitz, estávamos longe de adivinhar que, dez anos depois, encontraríamos finalmente Ítaca e a rapariga do país de Abril.