"Corri riscos, estive com pessoas que pertencem à História. Tudo isso fez de mim aquilo que sou."
Manuel Alegre
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Opinião
Alegre, combatente
03-08-2010 Horácio César, jornal i

Manuel Alegre cumpriu, na íntegra, em campanha (e em combate) o seu serviço militar, em tempo de guerra. Nada ficou a dever ao Exército, senão a honra de nele ter servido, quando por ele foi chamado. O Exército nada lhe terá ficado a dever, nem mesmo o cuidado com que o general-comandante da Região Militar de Angola mandou que revistassem a sua casa particular "com olhos de ver". Diz-se e escreve-se, no entanto, aqui e acolá, que o passado militar persegue o candidato. Lido o i (dia 28) e a documentação nele exibida, conclui-se outra coisa: não é, afinal, o passado militar que persegue o candidato. O que persegue o candidato é quem persegue o seu passado político. E o que se persegue nesse passado político? A sua oposição à ditadura do Estado Novo e à prossecução de uma guerra colonial, contra os interesses nacionais, durante cerca de 14 anos. Assim, tudo fica mais claro!

Willy Brandt foi chanceler (primeiro-ministro) da República Federal da Alemanha (RFA) de 1968 a 1974. Brandt, militante antinazi, social-democrata (i.é., socialista-democrático), refugiou-se na Noruega para evitar a prisão no III Reich. Lá casou e viveu. Combateu com a resistência norueguesa contra as tropas invasoras alemãs. Brandt combateu, política e militarmente, dois regimes: o nazi, da sua Alemanha natal; o da Noruega, sua pátria de acolhimento, tomado pelos nazis e governado pelo epítome dos traidores: Quisling.

Helmuth Schmidt foi chanceler da RFA de 1974 a 1982. Schmidt, social-democrata, foi mobilizado como alferes de artilharia na II Guerra Mundial. Combateu na antiaérea, terá abatido aviões aliados. Um e outro, qual deus Janus, combateram e eliminaram outros combatentes. Os dois, são as grandes figuras de referência da social-democracia europeia (i.é., do socialismo-democrático europeu, insisto) na segunda metade do século XX. A República Federal da Alemanha constitucionalizou-se, em 1949, como o primeiro e paradigmático Estado ético da contemporaneidade europeia. Portugal constitucionalizou-se, em 1976, como o primeiro e paradigmático Estado democrático que trouxe ao Mundo os direitos humanos de última geração, que hoje nos são tão naturais como o ar que respiramos. Na mesma área política, na Alemanha, Willy Brandt e Helmuth Schmidt deram nova vida a essa herança fundacional. Na mesma área política, em Portugal, Mário Soares e Manuel Alegre foram os batalhadores fundamentais que nos legaram esse magnífico espólio. Alegre, de quem agora curamos, lutou, politicamente, como Brandt e teve de combater, militarmente, como Schmidt.

Quem disse o que tem sido dito sobre a luta política, no tempo da ditadura, dos que desejavam o reino da democracia em Portugal, como Manuel Alegre, merece o qualificativo que Zita Seabra lhes destina, no final do seu livro "Foi Assim"... O activismo político oposicionista da Rádio Argel, legitimado pelo combate a uma ditadura, não é passível de confusão, pela sua natureza, com o activismo militar das Rádios Brazzaville ou Kinshasa, nos tempos de antena que, então, concediam ao MPLA e FNLA, respectivamente.

É, ainda, relevante e oportuno lembrar que nunca o candidato presidencial Manuel Alegre, nem a sua mulher, faltaram à verdade sobre as circunstâncias que envolveram o cumprimento do seu dever militar. Aparentemente ao contrário, numa revisão cosmética da história política e pessoal de um presumível candidato presidencial, a sua cônjuge afirmou, a um semanário de referência, que o marido fora chamado mais cedo ao serviço militar por razões de dissidência política, sendo, por isso, obrigado a interromper o curso. Ora, o presumível candidato presidencial em causa perdeu o adiamento militar, porque se encontrava na impossibilidade de cumprir o inerente requisito legal: concluir a licenciatura até ao ano em que iria perfazer os 25 anos. Eis um natural objecto de notícia: a prestação pública de uma explicação que o próprio sabe ser inverdadeira.

Manuel Alegre não pretende ser, julgo eu, o cume da cabeça da humana virtude, patriótica, política ou outra. Mas é, estou convencido, um grande combatente da democracia portuguesa.