"Na televisão, os comentadores de futebol substituíram grandes figuras da literatura portuguesa"
Manuel Alegre
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Excerto de artigo de Juan Luis Cebrián
"A mais bela função do mundo"
05-08-2019 El País, Opinion - Tribuna
Tradução nossa

O sonho de Pedro Sánchez sobre a possibilidade de construir um governo à portuguesa, talvez porque se esqueça de que lá não se mata o touro na arena, traz-me velhas evocações do país vizinho, ao qual me sinto intimamente ligado há décadas. Recordo nesta altura Francisco Salgado Zenha, um lutador socialista que sofreu prisão e tortura sob Salazar, e com quem tive ocasião de conversar longamente no seu apartamento em Lisboa durante o governo de Marcelo Caetano. Expressou-me a sua convicção de que a continuidade do salazarismo era impossível uma vez morto o ditador, como também foi impossível o prolongamento do franquismo sem Franco.

Mas a transição para a democracia em ambos os países foi completamente diferente: começou com a revolução dos cravos em Portugal, um país arruinado e virtualmente derrotado na guerra de Angola, enquanto em Espanha foi fruto de um pacto explícito entre os herdeiros da ditadura e as forças democráticas, derrotadas 40 anos antes na Guerra Civil. Outro dirigente socialista português, Manuel Alegre, conta no seu livro “Uma Outra Memória” que foi também Salgado que lhe ofereceu, por ocasião da sua eleição para a Assembleia, uma pequena brochura intitulada “A mais bela função do mundo”. "Tal como então” - assinala o exímio poeta – “continuo a pensar que a função de Deputado é a mais bela função do mundo.”

Não tenho a certeza de que muitos dos que se acomodam nos lugares do Congresso e do Senado possam assumir tal declaração, dado o desprezo continuado que os seus líderes políticos têm demonstrado por essas instituições. Semelhante desprezo institucional faz destacar a falácia das promessas sobre a regeneração democrática. Um projecto desse tipo, numa monarquia parlamentar, passa necessariamente pelo reforço do papel do Parlamento, verdadeiro coração do sistema. Assim o explicitou o próprio Alegre na sua despedida como deputado: “A Assembleia da República é o mais exposto de todos os órgãos de soberania, o mais escrutinado, aquele que é mais fácil combater. Se alguma coisa aprendi ao longo destes anos foi que, de cada vez que o Parlamento cede ao populismo, este não agradece, reforça-se… Honrar e prestigiar o Parlamento é honrar e prestigiar a democracia.”

Para se inspirarem na experiência portuguesa, não seria demais focarem-se nas lições do velho socialista português. Mas é difícil supor que os nossos líderes as tenham assumido e, o que é pior, as queiram pôr em prática.

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