(...) ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste / e em cada rua deserta / ainda resiste.
Manuel Alegre
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Um combate decisivo
01-02-2010

Alegre foi premonitório e esse é um dos seus trunfos. Poderá ajudar a reconciliar o PS com o seu eleitorado desavindo e a conquistar o centro enfatizando certos valores (sociais-democratas) caros aos portugueses.

Alegre deu o tiro de partida para as presidenciais de 2011. Cavaco tem pouca margem para não ir a jogo, até pela forte probabilidade de ser reeleito, o que não quer dizer que sejam "favas contadas": saiu fragilizado do caso das escutas e Alegre é um candidato forte. Além disso, essas eleições serão decisivas e poderão ser tão polarizadas como as de 1986, logo bastante renhidas e participadas. Vejamos porquê.

Alegre tem sido identificado como excessivamente próximo do BE. Porém, trata-se de um histórico socialista (no passado mais próximo da moderação soarista do que do esquerdismo do MES) e aquilo que ele fez na legislatura passada foi chamar a atenção para duas coisas fundamentais. O registo autoritário e centrista da governação contradizia o ideário socialista e algumas promessas de 2005. Por exemplo, o braço-de ferro com os professores e os ataques reiterados aos sindicatos contradiziam o valor do diálogo social e o objectivo, vertido no programa eleitoral, de envolver os professores nas reformas. A aposta nas qualificações, vertida no programa e pedra-de-toque dos valores socialistas, quadrava mal com o brutal desinvestimento no ensino superior. Último exemplo: algumas das alterações ao Código do Trabalho contradiziam o que o PS tinha dito, designadamente em 2005, e o ideário de reequilibrar as relações capital-trabalho. O eleitorado percebeu a inflexão: dados do European Election Study, baseados em amostras representativas, revelam que, para os portugueses, em média, o posicionamento ideológico do PS passou de 4,7, em 1999, para 5,5, em 2009 (na escala usada, isto é, de 1, esquerda, a 10, direita, 5,5 é precisamente o centro). Mas o eleitorado também rejeitou tal reposicionamento: dando a maioria mais curta ao vencedor (nas legislativas) desde 1987, e o maior apoio à esquerda radical desde 1985. Sócrates já percebeu isto e começou a arrepiar caminho. Portanto, a estratégia da governação musculada e do centrismo foi derrotada em 2009. Pelo contrário, Alegre foi premonitório e esse é um dos seus trunfos. Poderá ajudar a reconciliar o PS com o seu eleitorado desavindo e a conquistar o centro enfatizando certos valores (sociais-democratas) caros aos portugueses: os serviços públicos, o diálogo social, a efectiva valorização da educação (com exigência para todos e com autoridade dos professores), o combate ao défice e às dívidas mas com equidade na distribuição dos custos dos ajustamentos, a importância da cultura no desenvolvimento do país, etc.

Enquanto PR, Cavaco também nunca hesitou em agir de acordo com as suas convicções. Com uma visão conservadora nos costumes, que assume com louvável clareza, nunca hesitou em usar os seus poderes para travar legislação com que não concordava. Pelo contrário, o seu centrismo em matéria socioeconómica levou a que não tenha travado nenhuma legislação relevante do Governo (centrista) nesta área. Foi nas questões institucionais, tal como na dos costumes, que mais exercitou o seu poder de contrapeso, por vezes contra o seu próprio partido e o Parlamento. Dele podemos esperar conservadorismo na área dos costumes, centrismo nas políticas socioeconómicas e rigor no respeito pela arquitectura constitucional. Pelo contrário, de Alegre sabemos que é expectável esperar mais liberalismo nos costumes e mais valores socialistas na arena socioeconómica. No campo institucional, é legítimo esperar de Alegre um respeito estrito pelo pluralismo em cada campo ideológico e uma certa simpatia por maior liberdade dos eleitores na escolha dos deputados. Logo, os simpatizantes dos pequenos partidos podem "dormir descansados"... Não sabemos bem o que pensa Cavaco neste domínio, de qualquer modo foi quando era premier que o CDS foi reduzido ao "partido do táxi" e foi proposta uma reforma eleitoral apelidada de "ignóbil porcaria" (por esmagar o CDS). Seja como for, a confirmarem-se estes candidatos, teremos clareza nas alternativas: um estímulo à participação e à competitividade.

Por um lado, dificilmente haverá candidatos vencedores sem apoio partidário forte. Aqui Cavaco parte em vantagem: terá a direita unida em seu redor. No caso de Alegre, está aqui aquele que poderá ser um dos seus calcanhares de Aquiles: se, por absurdo, o PS não o apoiasse; ou se, mais plausível, persistirem vozes contra no PS. Seria suicidário para todos: é expectável que os adeptos da governação musculada e do centrismo ideológico se remetam ao mutismo uma vez aprovado o apoio. Mas, por outro lado, um candidato ganhador tem que ter larga autonomia face aos partidos. Pelo seu exercício presidencial, Cavaco partia bem posicionado. Porém, o episódio das escutas deixou a ideia de que pode querer envolver-se na luta partidária e, por isso, parte algo fragilizado. Pelo contrário, Alegre parte bem posicionado: sempre demonstrou grande autonomia não só face ao seu PS mas também face à esquerda radical (criticando-a pela fraca predisposição ao compromisso e à assunção de responsabilidades governativas). Por isso, não faz qualquer sentido que Alegre se submeta a um caderno de encargos para ter o apoio do PS: seria o suicídio da candidatura e do partido.

Finalmente, numa situação de maioria relativa, o PR terá grande relevo na construção de consensos interpartidários. Cavaco é capaz de os estimular quando quer, pelo menos do PS para a direita. Resta saber se, caso fosse reeleito, estaria disponível para continuar a fazê-lo... Provavelmente não, e é por isso que Sócrates sabe que a sua vida política pode ficar em risco com a vitória de Cavaco... De Alegre podemos esperar que o estímulo a entendimentos abranja todo o espectro partidário. Mas este trunfo poderá ser também outro calcanhar de Aquiles: se a esquerda continuar a revelar-se incapaz de se entender em matérias fundamentais... A bola está também neste campo, portanto. O combate, esse, será decisivo para todos.