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Alegre, o candidato incontornável do PS
23-01-2010 São José Almeida, Público

O PS terá de avaliar se quer ficar com a responsabilidade histórica de não contribuir para a eleição de um PR de esquerda.

A nova candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República poderá vir a ter mais sucesso do que a de há cinco anos, se reunir as condições ideais. Entre estas condições encontra-se, como é evidente, o apoio do PS. Mas assim como o sucesso da candidatura de Alegre depende do apoio do PS, surge como evidente que é incontornável os socialistas, desta vez, apoiarem oficialmente Manuel Alegre. Sob pena de ficarem com a responsabilidade histórica de, mais uma vez, não terem contribuído para a eleição de um Presidente de esquerda.

Alegre foi criando o seu espaço próprio e tem condições de ser mais bem recebido pelo eleitorado e, assim, ultrapassar o mais de um milhão de votos que recebeu nas últimas presidenciais. O seu discurso político e as suas posições estão sedimentadas. O eleitorado familiarizou-se com ele. E este espaço político que Alegre criou não é um espaço ideologicamente radical à esquerda, como alguns próceres do conservadorismo português gostam de propagandear. O espaço político e o discurso de Alegre são o da social-democracia, ideologia originária do PS, que nas últimas décadas tem sido temperada e descaracterizada pela influência das teses neoliberais. Mas, assim como é subsidiário da social-democracia, o seu discurso é também profundamente cultural e humanizado. E atenção, que não falamos do facto de se tratar de um poeta. Alegre é um homem com uma cultura humanística e histórica que não vive apenas da sua criação literária. Por isso, nunca será confundível com um tecnocrata frio, que transmite a imagem de quem põe a economia e os números em primeiro lugar. Mais: o tipo de discurso de Alegre, pelo patriotismo que muitas vezes demonstra - sem, contudo, ser nacionalista -, agrada e conversa com alguns sectores da direita.

As razões pelas quais Alegre tem condições para ser eleito Presidente excedem, porém, o universo da sua própria candidatura. E prendem-se com o estado actual da direita em Portugal e com a falta de liderança e de orientação política que vive o PSD. É certo que este partido está em vias de eleger um novo presidente, mas nada garante que esse futuro líder seja capaz de reunificar o partido. Para mais quando este partido está no início de uma legislatura na oposição. E, mesmo que esse fenómeno político surja num horizonte ainda não visível, a direita portuguesa depende do que venha a ser decidido por Cavaco Silva, o actual Presidente.

Nada garante, é certo, que Cavaco se recandidate, mas se o actual Presidente optar pela natural recandidatura, a sua posição na partida para a corrida eleitoral nada tem a ver com a dos anteriores ocupantes do cargo que o fizeram: Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio. Se se candidatar, é evidente que Cavaco tem condições de ser reeleito e que uma disputa eleitoral com Alegre será de desfecho imprevisível. Mas a verdade é que Cavaco Silva não atinge nas sondagens os níveis de popularidade unanimistas que os seus antecessores conseguiram. Definitivamente, Cavaco Silva não conseguiu ser (ou não quis?) "o Presidente de todos os portugueses".

Evitando ser surpreendido, como foi há cinco anos, quando esperava receber o apoio de José Sócrates e viu a direcção socialista lançar a candidatura do antigo Presidente e líder-fundador do PS, Mário Soares, Alegre anunciou que estava disponível para se candidatar, de novo. Uma antecipação que se apresenta como uma atitude perfeitamente racional e não um rompante emocional e que tem como objectivo, precisamente, fechar o caminho a eventuais outros candidatos que viessem a ser lançados oficialmente pelo PS, como já referimos (PÚBLICO 16/1/2010). E que repete a atitude já assumida no passado por Jorge Sampaio quando, em 1995, anunciou que era candidato às eleições presidenciais de 1996, fechando o caminho à candidatura de Fernando Gomes, que estava a ser ponderada pela direcção de António Guterres.

A jogada de antecipação de Alegre parece não ter agradado a alguns sectores mais à direita no PS, que, tendo como expressão máxima António Vitorino, já manifestaram o seu desagrado. Resta agora saber se a direcção do PS tenciona repetir o que fez há cinco anos. Isto é, optar por uma candidatura própria, assumindo que Alegre tinha um discurso demasiado de esquerda e autónomo. E venha a optar por avançar com outro nome.

Embora se possa ter antecipado às agendas das direcções dos partidos, era esperada a candidatura de Alegre. Analisando retrospectivamente os últimos cinco anos, Alegre mais não fez do que criar o seu espaço político e condições para surgir como o candidato incontornável da esquerda. Por querer voltar a tentar ser Presidente da República é que Alegre não aceitou os apelos de parte dos seus apoiantes para romper com o PS e para, na sequência dessa ruptura, fundar um novo partido. E, assim, impôs-se aos partidos de esquerda como o candidato natural. Uma imposição que logicamente o Bloco de Esquerda, através de Francisco Louçã, já apoiou.

E que o PCP parece ter já percebido que é, para si também, incontornável. Depois de, num primeiro momento, Ruben Carvalho ter mantido a posição oficiosa de que o PCP tem a sua estratégia eleitoral presidencial própria, que é como quem diz, tem candidato, o que é facto é que o secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa, já veio dizer que talvez não seja bem assim. Ou seja, que ainda que venham a apresentar um candidato, poderão desistir logo antes da primeira volta e não esperarão por uma eventual segunda volta para apoiar Alegre. Uma atitude que é movida pela percepção clara de que não quer ser a direcção do PCP a responsável por pôr em causa a eleição de um Presidente de esquerda.

É essa responsabilidade histórica que José Sócrates e a direcção do PS terão de avaliar seriamente se querem correr o risco de carregar de novo: a responsabilidade de não terem feito tudo para atingir o objectivo de conseguir que o mais alto cargo do sistema constitucional português volte a ser ocupado por uma personalidade de esquerda.