"Na televisão, os comentadores de futebol substituíram grandes figuras da literatura portuguesa"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre
Guitarras e perdizes, robalos e futebol
23-01-2010 Fernando Madaíl, DN Gente

O primeiro candidato a apresentar-se à próxima corrida ao palácio de Belém foi revelando a sua biografia ao longo da sua vasta obra de poesia, de prosa e de crónicas. Mas, a partir de agora, vai acrescentar mais umas páginas na sua biografia de político-poeta.

Poeta-político com "biografia a mais", como certa vez, em jeito de provocação, referiu numa entrevista, Manuel Alegre foi descrevendo em versos e prosa, nos discursos e crónicas a sua própria vida, as assumidas influências, os seus prazeres - afinal, num registo considerado politicamente pouco correcto, o primeiro candidato presidencial na corrida de 2011 ao Palácio de Belém sempre apreciou as guitarras do fado, a caça às perdizes, a pesca ao robalo, as touradas e o futebol.

O "Rafael" do romance, nome do marinheiro que terá contado a Thomas More a vida numa ilha distante que o escritor londrino transformou na "Utopia", descreve o seu próprio percurso. Manuel Alegre já tinha sido o modelo de Sebastião (figura que é o reverso do rei de Alcácer Quibir, já que o poeta escreveu sempre a epopeia portuguesa ao contrário dos mitos nacionalistas) de "Jornada de África". E onde este livro sobre os "lusíadas do avesso" acaba, em plena guerra colonial, no mato perto de "Nambuangongo, Meu Amor", começa "Uma Carga de Cavalaria", o relato poético da sua prisão pela PIDE (a polícia política) em Luanda. "Alma" é a imaginada Águeda da sua infância e a senhora do retrato de "O Homem do País Azul" é a sua avó paterna retratada pelo seu primo Fausto Sampaio.

Na biografia que vai revelando ou disfarçando nos vários títulos cabe tudo. Em vários textos do seu punho fala da família: o avô paterno Mário Duarte, esse Mário da Anadia a quem se referia António Nobre, no livro "Só"; o materno, carbonário e republicano, que também se chamava Manuel Alegre; o pai ("sempre que vejo o filme de Visconti "O Leopardo" lembro-me do meu pai", in "Arte de Marear"; a irmã Teresa e o cunhado António Portugal ("Havia o António e uma guitarra / incendiada nos seus dedos. / E a minha irmã morava nesse ritmo", em "O Canto e As Armas"; os três filhos em "Cão Como Nós". Até as suas doenças o inspiram. "Era Paris. Abril setenta e um. / Eram oito da tarde no Hospital / Cochin. E uma enfermeira disse: Não / se salva. Eram oito da tarde entre / ser ou não ser. Eram oito da tarde / e eu estava em chamas no Hospital Cochin" ("Atlântico").

A sua imagem pública é a que ele define em "Arte de Marear". "Acusam-me de altivez e narcisismo. É sobretudo reserva, timidez e uma incapacidade física de praticar uma certa forma portuguesa de hipocrisia e compadrio. Ou talvez um tique que herdei de família: levantar a cabeça, olhar a direito."

E, no entanto, Manuel Alegre é "um ser humano esplêndido", sustenta Rui Pato, a viola que acompanhou a guitarra de António Portugal para a voz de Adriano Correia de Oliveira (com quem Alegre mantinha, garante, "grande cumplicidade") cantar esse hino da resistência antifascista que foi Trova do Vento que Passa e, mais tarde, gravarem ambos "O Canto e As Armas".

O editor Nelson de Matos também discorda de quem aponta aqueles defeitos a Alegre, pois afiança que "é um amigo sem nenhuma falha, que, se sente alguém preocupado, acorre logo, às vezes numa voz que parece ríspida". Quando saiu da Dom Quixote, que se tornara a editora do autor de "30 Anos de Poesia", Alegre telefonava-lhe "a perguntar: 'Então, como é que estás?' - e até parecia que estava a dizer aquilo zangado, quando era só num tom de conversa de homens". E recorda-se do ano em que, após ler o "belíssimo" original de "Senhora das Tempestades", teve "o atrevimento" de fazer uma primeira edição "daquele livro singular na obra dele" com uma tiragem de 10 mil exemplares. "Um chamamento para que os seus leitores, que o tinham lido na clandestinidade ("as minhas mais belas edições", reconhece Alegre, "são as cópias manuscritas ou dactilografadas de "Praça da Canção" que então circulavam e ainda hoje me mostram"), aparecessem" - e, em menos de um mês, "Senhora das Tempestades" tinha esgotado. "Já na minha editora (Nelson de Matos), ninguém acredita que fizemos o livro "Sete Partidas" em minha casa numa semana. Ele escreveu de jacto; encantou-me o que li; mandei os poemas para a tipografia; vieram as provas um dia depois; telefonei-lhe; ele, que mora perto, saiu de casa e veio revê-las; a filha tirou um retrato para a capa. Julgo que nunca se fez um livro inédito tão rapidamente."

A amizade vai sendo repetida por diversos cúmplices do poeta que, em dedicatória, verso solto ou poema próprio, enalteceu Bernardim e Pessanha, Torga e Afonso Duarte, Mallarmé e Elliot, Rilke e Rimbaud, Herberto Helder e Assis Pacheco, Ulisses e Che (que conheceu em Argel), Fernando Valle e Rui Feijó, o "livreiro da liberdade" Felisberto Lemos e o fotógrafo Formidável.

Rui Pato teria uns 15 anos quando começou a frequentar aquela tertúlia de apreciadores das artes e das conspirações de Coimbra que se juntavam em casa dos pais de Manuel Alegre, "família tradicional do reviralho" (como então se designava a oposição ao salazarismo), onde se cantavam as músicas proibidas e se liam livros censurados, pois, como escreveu Alegre, "no meu país há uma palavra proibida": liberdade. Nessa época, lembra o executante eleito por Zeca Afonso, Adriano e tantos outros, quando Alegre já era perseguido pela PIDE, foi obrigado a interromper o curso de Direito e mobilizado para a guerra colonial, ele "destacava-se pelas ideias, pela perseverança, pelos princípios, pelas causas". "Embora pareça uma pessoa rígida, dura, sorumbática, é um indivíduo muito bem humorado, de grande generosidade, que cultiva os afectos a um ponto extremo e se comove com facilidade".

Conhecedor mais antigo do poeta e político é o catedrático Joaquim Romero de Magalhães, que entrou no TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra) em 1959, quando Alegre já era "um dos meninos bonitos de Paulo Quintela", o germanista, tradutor de poesia e encenador - que os ensinou, como é sublinhado no poema com o seu nome (in "Coimbra Nunca Vista", "como pisar um palco / como falar como calar e sobretudo / como sair de cena e entrar / no grande teatro deste / mundo". Alegre, lembra o seu companheiro de palco, era um "actor excelente" - e não só pela "voz fantástica", que, depois, o haveria de levar para a rádio "A Voz da Liberdade", que emitia de Argel.

Romero lembra-se de ver Alegre a representar em peças como "Auto da Barca do Purgatório" (de Gil Vicente), "O Urso" (Tchekov) ou "El Retabillo de Don Cristobal" (Lorca) - o poeta de Granada e o seu "duende" são uma constante na escrita de Manuel Alegre. E não é por acaso que, ao longo da sua obra, por vezes o escritor fala dos papéis de "Antígona" (Sófocles) ou de "O Grande Teatro do Mundo" (Calderón). Mais tarde, quando voltaram a encontrar-se na primeira campanha eleitoral para a Assembleia Constituinte de 1975, o historiador viu o que confirmaria, pelas décadas seguintes, em reuniões e comícios: "Ele é sempre uma vedeta em palco; quando fala, entusiasma as multidões."

O poder da sua palavra dita voltaria a estar em destaque quando foram companheiros no I Governo Constitucional, em que Romero de Magalhães era secretário de Estado da Orientação Pedagógica e o poeta, além de secretário de Estado da Comunicação Social (na época em que foi encerrado o centenário jornal O Século) e Adjunto do Primeiro-ministro para os Assuntos Políticos, tinha o papel "muito difícil" de ser o porta-voz que anunciava medidas pouco simpáticas. "E, mesmo assim, Manuel Alegre não perdeu a popularidade, pois sabia apresentar as coisas de forma a serem compreendidas", enaltece o camarada.

Mas, acima de tudo, está o ritmo (que ele até encontra em Bach e em Mozart), a toada (que pode ser próxima dos géneros que aprecia, o flamenco, o fado, o tango), a música dos versos, essa herança da oralidade que Alegre explica pela tradição que, por via erudita, tem origem nas Cantigas de Amigo e, por via popular, vem do seu encantamento pelas lengalengas da infância e pelos romances cantados na rua pelos cegos de antigamente.

Rui Pato diz que Manuel Alegre compõe o poema e a prosa "já debaixo de uma atmosfera de musicalidade", ideia reforçada por João Braga, que votou no amigo com quem passa imenso tempo a conversar sobre História de Portugal nas anteriores Presidenciais por entender que, "num país de poetas, era bonito ter um poeta como Chefe do Estado, o que já não sucede desde D. Dinis". "Todo ele é musical", sustenta João Braga, que já lhe musicou uns 40 poemas e revela que Alegre está a pensar compilar os versos que já foram cantados numa obra intitulada "Ars Poetica do Fado". "Tem música nas palavras, como tinha Camões", o poeta predilecto do autor de "Com Que Pena"- que, apesar da sua admiração por Pessoa, ao ponto de propor a trasladação dos seus restos mortais para os Jerónimos, reconhecia, em "Arte de Marear", "que qualquer poeta português gostaria de ter escrito Os Lusíadas". No último disco, que se chama Fado Nosso por indicação de Alegre, que lhe mandou a sugestão num SMS, João Braga até o pôs a declamar parte do poema de Vinícius Soneto da Separação - e "aquele timbre muito forte e bonito, aquela entoação que ele dá, é uma forma de cantar".

E de futebol, o adepto da Académica , do Benfica, da Selecção, que escreveu poemas a cantar o Bentes e o Eusébio, o Chalana e o Figo, o cronista de jornais que compilou esses textos em O Futebol e a Vida, perceberá mesmo? A palavra a Toni, o júnior da Académica quando Alegre estava a exilar-se, o futebolista matriculado em Direito que ouvia a voz de A Voz da Liberdade, o já jogador do Benfica na final da Taça de Portugal na Crise Académica de 1969, o treinador que levou para a China o livro "Alma", que retrata Águeda, mas podia ser a vizinha vila de Anadia. "Sabe ler bem um jogo, isto é, desmonta o jogo da sua complexidade, usando até o novo léxico (as pressões altas, as transições) sem precisar de ser um dos velhos Teóricos da Académica", os entendidos que, na época em que Toni jogava com a camisola negra, se reuniam em tertúlias nos cafés Arcádia e Montanha convencidos que sabiam mais que o mister. "E, ao contrário de outros políticos, não diz que gosta do futebol porque dá jeito." Mas é mais da Académica ou do Benfica? O sportinguista João Braga ironiza que, quando a equipa da Luz passa por fases menos boas, o poeta costuma dizer: "O que me importa é a Académica", o clube ao qual deu títulos e recordes em natação.

Restam as canas e as espingardas. "À chuva e ao frio, a subir cabeços", ainda há pouco o acompanhou na caça Miguel Sousa Tavares, que o conhece desde 1975 (era visita frequente na casa de Francisco Sousa Tavares e Sophia de Mello Breyner) e lhe admira a pontaria. "Tomara eu atirar como ele", elogia. E acrescenta que o poeta facilmente estabelece amizades e é interclassista, dando o exemplo das caçadas, "onde até os batedores gostam dele".

Talvez o verdadeiro Manuel Alegre esteja mais próximo do que surge nas páginas do best-seller "Cão Como Nós", a lamentar a morte do pai, preocupado com o filho diplomata em Timor, "nos terríveis dias da Unamet". Mas, a partir de agora, vai acrescentar mais umas páginas na sua biografia de político-poeta.