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Manuel Alegre
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Se podia haver outro? Podia, mas não era a mesma coisa
17-01-2010 Cipriano Justo, Público

Passados quatro anos, Manuel Alegre pode continuar a reclamar o resultado que obteve em 22 de Janeiro de 2006.

Na entrevista que concedeu à edição de 24 de Dezembro do semanário Sol, Vital Moreira juntou-se a Correia de Campos e José Lello para desfazer na potencial (e agora anunciada) candidatura de Manuel Alegre à presidência da República. De José Lello já se conhecia a sua costela militante contra esta eventualidade; Correia de Campos também já deu a conhecer qual era o seu azedume. Por estes lados, portanto, tudo como dantes. As suas trajectórias políticas explicam exemplarmente o receio que vêm demonstrando da candidatura de Manuel Alegre. E, no entanto, sempre que estiveram em cargos governativos estes destacados socialistas bem se esforçaram, e conseguiram, desprestigiar o seu partido. Ao ponto de num dos casos ter de ser a rua a indicar-lhe a porta que dá acesso à João Crisóstomo.

Quanto ao mais putativo militante socialista de que há memória, aquele que liderou a lista do PS às eleições para o Parlamento Europeu em 2009, ainda está fresco na memória dos portugueses o resultado eleitoral que obteve: o pior de sempre alcançado por este partido. Menos 569.183 votos do que o melhor dos resultados (2004) e menos 114.742 votos do que o pior dos resultados (1994). Vital Moreira terá sempre toda a legitimidade para dizer o que lhe vai na alma, mas está politicamente ferido de insolubilidade para se lhe dar ouvidos. A sua dívida eleitoral dificilmente lhe dá autoridade para recomendar o que quer que seja nos tempos mais próximos. Ao contrário, e enquanto ponto de partida, passados quatro anos Manuel Alegre pode continuar a reclamar o resultado que obteve em 22 de Janeiro de 2006. Contra todas as congeminações das direcções partidárias da esquerda e do centro-esquerda, ele foi quem mais ordenou nessa altura. Embora os 83.498 votos que separaram o candidatura da direita das candidaturas da esquerda e centro-esquerda reunidas possam ser entendidas como um acaso estatístico, eles foram suficientes para a vitória. E essa é uma lição que não poderá deixar de estar presente nas decisões de todos quantos desejam contribuir convictamente para dar uma oportunidade ao actual inquilino de Belém de passar os próximos anos a fazer coisas mais úteis ao país.

Por isso, quando Vital Moreira declara que Manuel Alegre, não ganhando o centro, é uma candidatura perdedora está a prostrar-se aos pés do bezerro de oiro de todos os álibis ideológicos - o centro -, não levando em linha de conta várias condições que irão estar presentes dentro de doze meses e que não faziam parte do quadro político-eleitoral há quatro anos: o acantonamento de Cavaco Silva no lugar de onde acabou por nunca sair, o conservadorismo de direita; a diminuição das candidaturas presidenciais no espectro da esquerda; a descoberta do centro-direita para a excentricidade política; as lições de um ciclo eleitoral que substancialmente deixou tudo na mesma, ou quase.

Do que se vai tratar nestas eleições, e para isso Manuel Alegre está particularmente habilitado, é de uma candidatura capaz de liderar um projecto mobilizador para superar a actual situação. Mobilizar no sentido de animar e pôr em movimento as vontades, as energias, os saberes, as competências, mas, sobretudo, a exigência da mudança. Mas não menos importante, da entrada a tempo inteiro da cultura na cena política portuguesa - essa rede inclusiva de saberes referenciais capaz de unir o que anda disperso. Mas para a vitória em Janeiro de 2011 vão ser necessários todos os votos. Incluindo os de Vital Moreira & friends. Se assim acontecer, esta ainda pode vir a ser uma década prodigiosa para Portugal.

Cipriano Justo, Dirigente da Renovação Comunista