Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
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Um mau prenúncio
26-02-2010 Carlos Diogo Moreira, DN

Coisa terrível é subestimar a inteligência e o saber de experiência feito do cidadão comum já rodado nestas quase quatro décadas de democracia em Portugal. Bem pode o dr. Nobre ter direito a concorrer à Presidência da República. Falha-lhe porém o curriculum político, a experiência política e um pensamento político definido.

Porque, na verdade, os cidadãos querem (e têm querido ao longo de sucessivas eleições) conhecer de antemão qual o percurso e quais as opções políticas (e não tanto as opções profissionais ou pessoais) de quem vai ocupar o mais elevado cargo do Estado. Mesmo que esperem simultaneamente que o candidato ganhador (ganhador, repita- -se, com as suas ideias políticas muito próprias) se torne - uma vez terminado o processo eleitoral - o Presidente de todos os portugueses.

No passado recente, os cidadãos elegeram o dr. Soares, sabendo bem que ele era um socialista, e o mesmo fizeram aquando da expressiva eleição do dr. Jorge Sampaio. E quando entenderam por bem que o prof. Cavaco Silva fosse Presidente da República não havia ninguém que não lhe conhecesse o percurso e o pensamento social-democrata.

Os problemas com que o País se defrontará exigem da parte do Presidente decisões corajosas mas sempre decisões políticas. Só um discurso e uma acção assentes em convicções políticas bem definidas podem gerar confiança. Confiança política, geradora de confiança económica e social entre os portugueses. E, pelo contrário, a falta de um projecto político conhecido conduz inexoravelmente ao tacticismo e, pior, ao populismo.

É difícil, pois, avalizar caminhos políticos erráticos e não saber de véspera a escolha política de quem vamos escolher. É difícil entender, em democracia, algo de diferente. Mais: é decididamente perigoso. Presidir à República não é uma tarefa de gestão ou de boa vontade: é uma tarefa política, a mais elevada responsabilidade política. Mas mais difícil ainda de entender é que um candidato que diz mover-se apenas por imperativos pessoais e morais, longe de ideologias políticas (se é que tal coisa é possível e desejável) e de ligações partidárias, tenha decidido iniciar a sua candidatura escolhendo o mesmo dia e hora em que, como já se sabia de há muitas semanas, Manuel Alegre falava em Coimbra na sua qualidade de candidato. Deverão os cidadãos acreditar em coincidências? Poder-evitar-se a hipótese de que o momento de anúncio desta recente candidatura tenha sido deliberada e intencionalmente seleccionado?

Mau começo. Mau prenúncio.