Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
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Opinião
Resignados ao capitalismo medíocre?
05-07-2010 João Rodrigues, jornal i

O retrato da variedade portuguesa do capitalismo é traçado com estudos. Dois estudos recentes – “Necessidades de Portugal”, promovido pela Tese (www.tese.org.pt) e “Emprego, Contratação Colectiva de Trabalho e Protecção da Mobilidade Profissional em Portugal”, encomendado pelo Ministério do Trabalho – mostram que o nosso desigual e desqualificado capitalismo gera demasiada precariedade, insegurança socioeconómica, pobreza laboral e uma saliente estagnação salarial. A fraude da opinião dominante que defende a sua benignidade, assim cumprindo a sua função de assegurar o conveniente conformismo político, torna-se clara.

Entre 2004 e 2008, os salários reais aumentaram 0,3% ao ano em Portugal, abaixo da média da União Europeia (2,2%), apesar da acentuação das desigualdades salariais no nosso país. Entretanto, a relação entre o crescimento dos salários reais e da produtividade – os custos unitários reais – é desfavorável aos trabalhadores desde 2000 e o risco de pobreza entre quem trabalha é de 12% (8% na UE).

Estamos num país dual em que quase 20% da população é pobre e 31% vive no escalão imediatamente acima do limiar da pobreza: há mais do que uma “geração dos 500 euros”. É sobre este já fragilizado corpo social que se abatem as políticas de austeridade, que acentuam o desemprego e que asseguram a prescrição dos conselheiros económicos de Cavaco Silva e das direitas europeias: redução dos salários nominais e um amplo retrocesso do Estado Social.

Este é o capitalismo realmente existente depois de um ciclo de privatizações, de liberalização da economia e da aceitação acrítica de todos os consensos de Bruxelas. De todos, sem excepção. O pior é que a facção hegemónica da elite económica e intelectual portuguesa não sabe fazer mais nada, não tem imaginação para pensar em mais nada, nem tem interesse em fazê-lo.

A mediocridade do capitalismo português está bem patente na PT. Mais uma vez se prova que o “Estado estratega” de que fala Manuel Alegre, controlando fatias importantes das infra-estruturas essenciais da nossa economia, é condição necessária para que o interesse nacional seja protegido. Só Estados estrategas, a reconstruir com a margem de manobra a reconquistar em Bruxelas, podem ir para lá da miopia da burguesia financeira endividada, que age como um qualquer fundo especulativo, com pressa de vender tudo, sem o mais pequeno incentivo para pensar no futuro das empresas que transitoriamente detém.

Em contramão com a lógica de toda a sua política económica, o governo decidiu, e bem, usar o último e frágil vestígio de poder que detém na PT. Agora temos de ir até às últimas consequências: resistir aos liberais, de Lisboa a Bruxelas; derrotar os que têm promovido este plano inclinado, onde se inclui o actual Presidente.