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Manuel Alegre
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Opinião de Paulo Querido
Apoio Manuel Alegre (e, transparentemente, eis porque o declaro)
13-09-2010 Paulo Querido, http://pauloquerido.pt

A decisão não foi difícil ou complicada. Foi até muito natural. Tem a ver, curiosamente, apenas com o presente de Manuel Alegre (e do meu, e do nosso mundo) e não, nadinha mesmo, com as razões históricas, de percurso e de solidariedades que assistirão certamente à grande maioria dos seus apoiantes. Apoio Manuel Alegre , o candidato no qual votarei nas próximas eleições presidenciais, em 2011.

Sintetizo as razões. Primeiro porque é o candidato mais forte da área que secundo, que é a esquerda sem medo do poder . Segundo porque a sua visão do mundo está mais perto da minha que a de Cavaco Silva. Terceiro: declaro publicamente o apoio porque defendo que as pessoas que escrevem sobre política devem ser claras e transparentes quanto às suas escolhas; expresso a minha sem pompa mas com a devida circunstância.

Algumas considerações para o meu apoio e respectiva declaração pública.

As razões duras . Até há 6 anos não senti necessidade de me aproximar da esfera política, nem sequer como cidadão. Ideologicamente caracterizo-me como um anarquista distraído, com gosto pela latitude do indivíduo. Tal não me encaixa à direita ou à esquerda e ainda menos ao centro. Nos antípodas deste, quiçá.

A origem não tinha peso para fazer diferença: a pequena burguesia proprietária que me educou tanto deu dignos reaccionários como revolucionários da pesada. Na família votava-se no espectro todo, do CDS ao MRPP.

Contudo, depressa percebi que a direita não era comigo ou para mim. A noção de hierarquia social natural e a divisão de classes, a defesa cega dos poderosos e do status quo incompatibilizaram este jovem adolescente em mobilidade intelectual com qualquer coisa oriunda — ainda por cima — dos betos, sobretudo dos betos parvos e de notas baixas, que eram os “ideólogos” do beco (com os outros, de boas notas, jogava eu ténis).

Quando votava, votava sempre à esquerda. De Soares à UDP, conforme a hora, o local e o combate. Votava contra, não a favor. Ou seja: votava sem proximidade.

É com José Sócrates, então no seu tirocínio para secretário geral, que começo a aproximar-me. Digamos que Sócrates é um pouco circunstancial: a minha aproximação deu-se em primeiro lugar pela própria coisa pública, pela atividade política. Tratava-se de dar expressão a um interesse latente, aproveitando um novo patamar da minha vida pessoal e profissional.

Mas apenas um pouco. Alguns dos predicados que posso avaliar em José Sócrates, como a sua coragem política, combatividade, capacidade de trabalho, resiliência e poder de motivação, também contaram para a aproximação

Com ou sem Sócrates, o PS seria na mesma a escolha, na hora da proximidade. Talvez exista uma relação de mimetismo com o percurso dos revolucionários de esquerda: na hora de trocar o distanciamento pela proximidade, a utopia pela realidade, eles caem para a cadeira à direita da social-democracia enquanto anarquistas e órfãos ideológicos se inclinam para a cadeira à esquerda. Ou talvez tenha a ver com o momento da decisão: um amigo meu, do mais próximo na cartilha anarca que tive, anda à procura da ficha para se inscrever no coro dos liberais que quer fazer dançar Passos Coelho.

Eu, não. Caí PS, que é como quem diz, na esquerda que não aprende a desistir.

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Não me assusta, ou perturba, a diferença entre José Sócrates e o candidato presidencial da área socialista, Manuel Alegre. A diferença nunca me assustou ou perturbou — o que constitui uma característica esquerdista a que a direita tem horror, constatei ao longo dos anos, e que está entre os pequenos detalhes que fizeram de mim uma pessoa da esquerda natural, mesmo que não ideológica.

Alegre é as duas coisas. Esquerda natural e ideológica, entenda-se. O seu humanismo, o seu romantismo, até a ponta de sonho e de utopia que enriquecem o seu discurso, tornam-no no meu candidato dileto.

Com Alegre eu podia dizer que votava contra Cavaco. O Cavaco Silva que combati antes. E que aprendi a respeitar enquanto presidente (devo-lhe esta).

Mas não. Com Alegre eu voto a favor. Alegre dará o presidente que eu gostava de ter no meu país. Um presidente tão capaz de me representar com dignidade, como de estar à altura da História, como de espevitar o carácter solidário que — mau grado a meia dúzia de primatas dele amputados — caracteriza a espécie e a sociedade.

O exercício da governação mudou muito e, de São Bento a Bruxelas, estamos bem servidos de tecnocratas para fazer o que o poder económico deixar ou for manifestamente incapaz de evitar. Faltam-lhe homens que inspirem o coletivo. Homens capazes de ignorar o politicamente correto quando as circunstâncias o exigirem, homens capazes de indicar os caminhos menos óbvios. Homens a quem os riscos da criatividade não assustem. Homens que, no mínimo, ousem sonhar e fazer-nos sonhar, porque é o sonho o combustível da inovação e da melhoria de condições, individuais e coletivas.

Homens como Manuel Alegre.

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As razões pessoais. Até certa altura hesitei se faria ou não uma declaração pública de apoio. Mas não foram precisos muitos argumentos, numa conversa doméstica com a Ana, para me decidir. Restava apenas a escolha do tempo para a declaração. Mesmo essa decisão foi fácil: algures em Setembro, quando toda a gente já estivesse bem re-entrada.

Ter tomado partido pelo PS nas duas últimas legislativas valeu-me mais incómodos e até alguns enxovalhos do que eu fora capaz de prever. Não pensei no rol de iletrados que confunde apoio com federação. E ainda menos pensara nos sinistros que me acusaram de fazer o que eles pensam que se faz quando se apoia um candidato. Não ganhei — nem perdi, devo dizer — um cêntimo, um emprego, uma cunha. Mas disso não querem os sujos saber: basta-lhes sujar.

Não é por esses em particular que tomo a decisão de repetir um apoio político. É pelos leitores, todos. Venho defendendo há algum tempo uma elevação da transparência nos jornais, jornalistas e comentadores em geral. Coisas simples mas capazes de fazer a diferença. Não que TODOS os jornalistas, editorialistas e comentadores devam passar a fazer declarações, seria ridículo. Ficará bem àqueles que, pela natureza das funções que desempenhem ou das redes em que se movimentam, estejam mais expostos às considerações públicas. E para muitos não passará de uma formalidade, tal a notória inclinação das suas perspectivas. Só lhes falta declarar o apoio — mas falta-lhes declarar o apoio, deixando entreaberta a porta para a leitura equívoca, que é a porta por onde entra a propaganda.

A meu ver, os próprios órgãos de comunicação social têm a ganhar com declarações transparentes acerca da sua atitude em campanhas eleitorais. Cada vez menos a opinião e o jornalismo se regem por critérios de isenção e distanciamento, resulta num espúrio aumento do índices de hipocrisia e arrogância a teimosia em fingir que não se tem campo.

Suave ou decidida, menos naquela e mais nesta, a “inclinação política” do emissor passou a fazer parte da grade de leitura do receptor.

A talhe de foice: Marcelo Rebelo de Sousa, provavelmente o comentarista mais bem identificado partidariamente do país e arredores, ontem repetiu muito naturalmente qual é o seu lado nas presidenciais. Não o fez porque falte essa informação à audiência: fê-lo por dever de ofício, como declarou com simplicidade.

Acredito que colocar as coisas no seu lugar, claramente, resulta em benefício para as duas partes: eu e quem me lê e comigo conversa, no blog como no Twitter como no Facebook.

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Não sou filiado em nenhum dos partidos que o apoiam nem fui arregimentado para campanha alguma, hoje ou no passado, nem sequer informalmente.

De tudo isto quero que fique claro que apoio Manuel Alegre. Que o apoio resulta das minhas convições individuais e não ambiciono em troca mais do que o sentimento de ter um presidente que ajudei a eleger.