"Sobretudo nas horas em que tudo / de repente se esvazia / e pesa mais que tudo esse vazio / ... / é precisa (mais que tudo) a poesia."
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Opinião
O populismo de uma candidatura
23-10-2010 Elísio Estanque, Público

As debilidades e riscos que a democracia enfrenta requerem a mobilização da sociedade e a participação dos cidadãos conscientes, mas isso não se confunde com o ataque generalizado à classe política, como faz Fernando Nobre, seguindo aqui a direita mais conservadora. A resistência emancipatória (sindical ou outra) não se confunde com acção caritativa, assim como os combates da esquerda em defesa do Estado social e da sua eficácia não se confundem com as queixas de “excesso de gordura”.

O Dr. Fernando Nobre (FN) desdobrou-se em entrevistas nos últimos dias (As Beiras, 13/10/10; Expresso, 16/10/2010), nas quais elege como principal adversário o candidato Manuel Alegre (MA), o que, de resto, é compreensível, sendo ele um homem com fortes referências monárquicas e de direita, enquanto MA é um conhecido republicano, socialista e de esquerda.

As afirmações e insinuações de FN são reveladoras do tipo de referências em que se inspira e do seu vazio ideológico. Evidencia todo o populismo que subjaz ao senso comum mais ingénuo quando reproduz o velho lema de que “os políticos profissionais” são incompetentes, reivindicando para si a personificação da mudança (ele seria a “lufada de ar fresco”, presume-se) e acusando os actuais protagonistas de estarem no poder há 30 anos, de beneficiarem de reformas “vitalícias” (imagina-se que a sua própria reforma será “a termo certo” como nos contratos de trabalho precários) e de terem chauffeur particular, quando ele próprio é, supostamente, a emanação directa e espontânea da “sociedade civil”, esse nome pomposo que os dirigentes de ONGs gostam de invocar para enaltecerem a sua acção de beneficência (e justificar os volumosos fundos que gerem).

O pretensiosismo deste discurso demagógico poderia, caso o Dr. FN fosse um candidato para levar a sério, ofender todos os políticos actuais. Ou melhor, todos não, porque, embora proteste contra a classe política, há um político que está acima de qualquer suspeita. Mas a vénia que dedica a esse exemplo de “boa colheita” ajuda a explicar o rancor contra MA. Este, é acusado de ser o candidato de Francisco Louçã e de ter “traído o seu próprio partido” (na anterior eleição presidencial). Não importa para o caso que a maioria dos eleitores do PS tenha votado em Alegre, ignorando a decisão da direcção do partido. Decisão que FN tanto respeita para o passado como desrespeita no presente.

O desfecho das presidenciais está ainda rodeado de incertezas. Quando as sondagens têm vindo a revelar um Cavaco Silva (CS) em quebra, aproximando-se do limiar da segunda volta, não deixa de ser curioso que FN – para quem os previsíveis cinco ou seis por cento “já é muito” (sic) – apareça agora a virar a sua bateria na direcção de MA, ao mesmo tempo que, note-se, suaviza claramente a crítica a CS. Isto numa altura em que outras respeitáveis figuras se desdobram em elogios ao actual presidente e em apelos ao bloco central. O momento crítico em que hoje nos encontramos (com um orçamento que pode ser ou não aprovado) não nos permite fazer prognósticos sérios, sendo que quanto mais a conjuntura de curto prazo vier a exigir maior intervenção do presidente em exercício, mais o resultado da próxima eleição presidencial permanecerá em aberto. O clima de instabilidade que paira no ar só pode acrescentar incerteza àquilo que já era muito incerto.

As debilidades e riscos que a democracia enfrenta requerem a mobilização da sociedade e a participação dos cidadãos conscientes, mas isso não se confunde com o ataque generalizado à classe política, como faz FN, seguindo aqui a direita mais conservadora. A resistência emancipatória (sindical ou outra) não se confunde com acção caritativa, assim como os combates da esquerda em defesa do Estado social e da sua eficácia não se confundem com as queixas de “excesso de gordura”.

Por fim, as acusações de incoerência parecem anedóticas, sendo FN um ex-militante da causa monárquica que ainda há um ano e pouco foi mandatário nacional do Bloco de Esquerda, e que esteve com Mário Soares na sua malograda candidatura de 2006. Terá esta candidatura sido engendrada para mobilizar a “sociedade civil”, ou antes para usar o populismo contra a esquerda e contra Manuel Alegre?