Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
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Opinião
Cavaco Silva derrotado
28-10-2010 Marina Costa Lobo, Jornal de Negócios

O que quebrou explicitamente aos olhos dos eleitores foi Cavaco enquanto símbolo de uma certa ideia para Portugal. A de um consenso político em torno da convergência com a União Europeia. Deixou de haver plataforma de entendimento entre PS e (este?) PSD sobre esse assunto, que tem sustentado o regime nos últimos trinta anos.

Depois do anúncio formal da candidatura de Cavaco Silva fomos dormir descansados: tanto na televisão como online os comentadores queixavam-se de que era mais do mesmo.
Que aborrecido tinha sido, uma mão-cheia de lugares comuns. Nada de novo.

É que parecia que estava tudo preparado, não era? A coisa ia correr mais ou menos assim: Cavaco Silva anunciava a sua candidatura. Prometia estabilidade e competência numa altura turbulenta. Dava garantias no cargo de contínuo entendimento com o Governo, mas temperado com uma magistratura activa. Eduardo Catroga, seu ex-ministro das Finanças e principal negociador do Orçamento nos últimos dias, estaria presente na selecta plateia para ouvir e aplaudir o agora candidato presidencial, sinalizando que o acordo orçamental estava assegurado. Mesmo o simples facto de as negociações terem sido hoje (ontem) convocadas para ter lugar na Assembleia da República augurava fumo branco. O acordo seria apresentado como testemunho do empenho do Cavaco Silva para o progresso e a credibilidade externa do País.

Mas eis que, às 11 horas, foi anunciado que as conversações fracassaram. O PSD irá fazer uma declaração mais logo, onde vai indicar se se irá abster ou não. Perante estes desenvolvimentos, o Presidente da República acabou de convocar uma reunião do Conselho de Estado para a próxima sexta-feira.

Quem vai ser responsabilizado por este fracasso? Qual dos dois, PS ou PSD vai sofrer mais do ponto de vista político com este desfecho? Tanto Eduardo Catroga como Teixeira dos Santos fizeram declarações importantes defendendo a sua boa-vontade e a intransigência do lado oposto. Sem sabermos qual a posição final do PSD sobre o Orçamento de Estado é inútil estar já a fazer considerações sobre estas questões. Deixemos pois os partidos, Passos e Sócrates de lado por um momento. Politicamente, para já, como é evidente, temos um primeiro grande derrotado. É Cavaco Silva, enquanto Presidente e enquanto candidato. Mas mais do que isso, enquanto símbolo do consenso político em torno dos objectivos do País.

Cavaco Silva foi incapaz de moderar um entendimento entre os dois maiores partidos, ao qual se propôs, e com o qual se implicou directamente. Ao longo dos últimos meses em que Passos Coelho foi acirrando as posições contra o Governo, e que o Governo foi ultrapassando as metas de défice que originalmente se tinha proposto para 2010, sabia-se que Cavaco Silva considerava um entendimento entre estes partidos fundamentais para o futuro do País. Cavaco disse-o, várias vezes. Perante a indiferença de Passos Coelho a estes apelos, houve vários membros do PSD próximos do Presidente, tal como Manuela Ferreira Leite ou Paulo Rangel, que defenderam publicamente que o PSD devia comportar-se de forma responsável. Portanto, este fracasso significa que a influência do Presidente junto do seu partido é reduzida ou nula. E mesmo junto de um Governo minoritário que não tem apoios junto de outros partidos do seu bloco ideológico. Além disso, Cavaco Silva arriscou dar o pontapé de saída da sua campanha em cima deste acontecimento, passando uma mensagem subtil para o eleitorado de que o Presidente tem um papel interventivo, decisivo e positivo nos destinos do País. Expôs-se e mostrou-se, falhando. Este falhanço terá por isso de ser colocado aos seus pés, tanto como seriam os louros, no caso de um acordo ter sido conseguido.

Mas é evidente que se trata de mais do que de um simples falhanço pessoal, do Presidente e do candidato. A ser assim, de resto, podia não ter muita importância. O que quebrou explicitamente aos olhos dos eleitores foi Cavaco enquanto símbolo de uma certa ideia para Portugal. A de um consenso político em torno da convergência com a União Europeia. Deixou de haver plataforma de entendimento entre PS e (este?) PSD sobre esse assunto, que tem sustentado o regime nos últimos trinta anos.