"A grande poesia não cabe num tweet"
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Carlos Eduardo da Cruz Luna
VALENÇA DO MINHO E AS ELITES PORTUGUESAS (não esquecendo Elvas)
13-04-2010

As elites portuguesas têm um problema. Não confiam no povo de que são filhas. Lamentam o "baixo nível" do seu próprio povo. Nem sequer entendem que, agindo assim, e sendo elas por definição os "melhores" de entre o seu povo, e aqueles que, até certo ponto, devem dar o exemplo, estão a passar um atestado de incompetência a elas próprias. No fundo, as elites têm horror a misturar-se com o povo de que são filhas. E lamentam não viver noutro País, onde as populações não sejam tão rudes.
Ao longo da História, as elites portuguesas têm metido os seus conterrâneos em aventuras de vários tipos... incluindo tentativas de se subordinarem ou unirem a outros Estados que não o Português. Estados onde, curiosamente, vivem populações bem menos acomodatícias que a portuguesa à tradicional prepotência dos "grandes" da Lusitânia.
Curiosamente também, o povo português tem reagido, e destroçado as mesmas elites.
Todavia, parece haver aqui um ciclo infinito. As novas elites que, após as muitas
revoluções que Portugal conheceu, substituem as antigas, acabam por as imitar na forma como se vêem e vêem o seu povo. Em pouco tempo, os vícios ressurgem. Não me refiro apenas a nobres ou a burgueses. As elites intelectuais têm seguido o mesmo percurso. Volta e meia, temos os mesmos discursos descrentes e pessimistas. Foi assim no final do Século XIX, e de novo no início do século XX. A ditadura salazarista incompatibilizou estas elites com muitos aspectos da vida portuguesa.
O mais curioso é que esta tendência se renova nos finais do século XX e começos do
XXI.
E é ver escritores (começando pelo genial Nobel Saramago, convencido de que a sua
atitude é original...), de vários quadrantes, a lamentar não terem nascido num País maior e que lhes reconheça a sua "infinita grandeza" (que marcha a par, demasiadas vezes com uma infinita presunção), mas também economistas, grandes empresários, políticos, e, pior, governantes, a pronunciarem-se da mesma forma. Discretamente, neste último caso, claro. Mas com muita eficácia. Durante séculos, o povo rude ficava longe destes procedimentos. Todavia, e felizmente, a instrução popular tem progredido. As elites são agora mais imitadas, mais ouvidas, ou desprezadas com maiores conhecimentos. Instintivamente, o povo revê-se até na mediocridade das mesmas elites. Para sua desgraça.
Assim se chega a situações com a de Valença do Minho, com bandeiras espanholas içadas pelas populações. As elites aplaudirão ("nós não dizíamos? Este povo não tem capacidade para sobreviver de forma independente; Portugal vai acabar..."), ou abanarão a cabeça com desgosto, e dirão: "Triste povo o nosso; nem patriotas são; isto só lá vai, mesmo, com uma ditadura".
Afinal, os habitantes de Valença do Minho nem se apercebem que, com o seu protesto,
estão a ajudar e a dar razão a quem lhes quer tirar direitos. Num País onde as elites mantêm uma das mais altas taxas de desigualdade social da Europa, e consideram isso natural, o povo, a eterna vítima, em vez de exigir uma melhor repartição de riqueza, em vez de lhes exigir que abdiquem do muito que têm para que os serviços básicos (saúde, educação) não sejam afectados, mas antes melhorados, os "populares" entregam a resolução do problema ao vizinho espanhol.
Que alívio para essas mesmas elites...em que se incluem os políticos governamentais e muitos dos que os apoiam. Não me posso esquecer do encerramento da Maternidade de Elvas a favor de nascimentos em Badajoz. Um precedente perigoso. Quantas pessoas terão consciência DE que, daqui a trinta e poucos anos, nenhum elvense se poderá candidatar a Presidente da República por não ter nascido em Portugal, conforme determina a Constituição? Onde está a garantia, por parte do Estado, do direito de cidadania para toda a população? Quanto sentido de irresponsabilidade...
Estas não são soluções. A sujeição a estranhos nunca foi solução. Como os portugueses compreenderam em 1383/85, ou 1640, ou em 1808. E fizeram as elites pagar pelos seus erros, pela sua cobardia, pela sua falta de patriotismo.
Talvez seja altura de o Povo se assumir como elite de si próprio. Ou de vigiar mais atentamente, e de forma muito, mas muito mais exigente, quem dirige a sociedade. Eu preferia a primeira opção. Mas a segunda já pode ser um progresso. Valença do Minho e as bandeiras espanholas podem ser uma lição. Já chega uma Olivença, na qual se esmagou uma cultura, uma língua, uma história, e se deteve o progresso durante um século. Situação que as elites actuais, económicas, políticas, e culturais (ou intelectuais) evitam abordar. Ou de que troçam, muitas vezes por ignorância, outras vezes por comodismo.
A República faz cem anos. Como republicano, aplaudo. Como cidadão, acuso quem nos
governa de estar a matar essa mesma República, e com ela Portugal!!!
Estremoz, 09 de Abril de 2010
Carlos Eduardo da Cruz Luna