Manuel Alegre
"Não serei candidato em nome de nenhum partido. Serei candidato por Portugal "

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"Não há meias liberdades"
Declaração política na Assembleia da República
29.03.2007

“Senhor Presidente, senhores Deputados

Em nome do Grupo Parlamentar do Partido Socialista queria aqui expressar o mais vivo protesto e o nosso repúdio por um cartaz que apareceu hoje no Marquês de Pombal, em nome de um chamado Partido Nacional Renovador, com palavras de ordem de carácter xenófobo e racista, contrárias à Constituição da República, aos valores essenciais da democracia e aos princípios de tolerância que têm pautado a nossa vida democrática.

Além disso isto é um atentado a valores essenciais da nossa cultura. Aqueles que dizem “Portugal aos portugueses” estão a fazer uma afirmação contra Portugal e contra os portugueses. Nós fomos um país de emigrantes, defendemos sempre a integração dos nossos emigrantes nos países onde trabalham, mas hoje somos um país de imigrantes e defendemos uma política de inclusão, que é uma política essencial à consolidação da nossa democracia e ao desenvolvimento do nosso país.

E àqueles que pretendem dar lições de portuguesismo partindo de valores de intolerância e de racismo, quero lembrar o nome de Luís de Camões, que na língua portuguesa escreveu dois dos mais belos poemas de amor anti-racista: um dedicado a uma mulher negra, as "Endechas a Bárbara Cativa", e outro a uma mulher chinesa, o soneto mais célebre da língua portuguesa, “Alma minha gentil que te partiste”.

Um grande europeu, André Malraux, que foi também na sua juventude um anti-fascista, disse que “o racismo é o mal absoluto”, um mal que nós temos de condenar com todas as nossas forças, fazendo respeitar a nossa Constituição, os valores essenciais da nossa democracia e os princípios da tolerância sem os quais não pode haver convivência democrática.”

Em resposta às intervenções de apoio vindas de todas as bancadas, Manuel Alegre afirmou ainda:

“Quero congratular-me com as intervenções que foram feitas por todas as bancadas e também pelo senhor ministro dos Assuntos Parlamentares e verificar que há uma grande sintonia na condenação do conteúdo racista, xenófobo e anti-democrático daquele cartaz.

E queria dizer também que não há meias liberdades. A liberdade ou é ou não é. E quando se ameaça a liberdade de alguns, ameaça-se a liberdade de todos. E quando se defende a exclusão de alguns, defende-se a exclusão da liberdade e a exclusão da democracia.

E por isso nós não podemos fechar os olhos nem podemos tapar os ouvidos. Há um dever de pedagogia política e de pedagogia democrática, que nem sempre tem sido feita.
Tem havido uma grande inibição, uma grande timidez e parece que uma grande cerimónia na defesa dos nossos princípios, dos nosso valores e no exercício de uma pedagogia democrática, sobretudo em relação às gerações futuras.

E nós também não podemos ter uma contemporização excessiva com a intolerância, com manifestações de racismo, com a agressão àqueles que escolheram o nosso país para nele viver e para nele trabalhar. Aqui também há uma responsabilidade política dos partidos políticos, daqueles que estão representados nesta Câmara.

Mas também há uma responsabilidade das autoridades públicas. Eu penso que existem as leis suficientes. Existe a Constituição da República, existem os tribunais, existem o Ministério Público e as autoridades públicas. E essas têm também que assumir as suas responsabilidades. Porque aqui há fronteiras que não podem ser ultrapassadas. Como disse o senhor ministro ( e eu concordo perfeitamente com essa célebre frase ): “Não devemos permitir que a serpente germine no ovo”.

Não se trata de responder à intolerância com intolerância. Trata-se de nós sermos firmes e de não termos vergonha nem complexos de defender os nossos valores que são os valores da tolerância, da democracia, dos direitos humanos e da liberdade para todos.”


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